ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Juliana Maffeis


9 poemas    

se

 

se éramos vinte milhões de peças;
hoje somos os cacos de nossa memória fraca.
se éramos documentos que atestavam as histórias;  
hoje somos cinzas de papéis jamais lidos ou escritos.
se éramos fósseis de memória viva;
hoje somos ossos do tempo enterrado.
se éramos múmias egípcias;
hoje somos cadáveres acidentados.
se éramos dinossauros carnívoros;
hoje somos a própria extinção da espécie.
se éramos vasos gregos e etruscos;
hoje somos copos quebrados e vazios.
se éramos meteoritos indestrutíveis;
hoje somos pedrinhas cuspidas do céu.

 

 

 

 

 

 

quando

 

quando eu fizer duzentos anos
vou dar uma festa pública:
um brinde pra cada infiltração
que desenha manchas na parede
como o sol descasca minha pele
cobrindo com descaso o corpo
onde guardo fios desencapados
formando varizes de caminhos sinuosos
da energia que me condena à morte.

 

 

 

 

 

 

vem sendo

 

vencendo o vício de colecionar papéis rasgados guardanapos sujos bilhetinhos de telefone cartas velhas cadernos sem pauta listas de promessas arquivos mortos livros puídos postais sem destinatário fotos de desconhecidos e demais lembranças sem memória – como amuletos possíveis e improváveis – surge a ideia de prosear uma vida guardada em verso: assim vem sendo.

 

 

 

 

 

 

que falha

 

na janela batendo papo
um troço me deixou tensa
conversando com a vizinha
olha só que falha imensa
faz mais de meia hora
jogando conversa fora
saquei uma coisa trágica
ainda não citei nenhuma
referência bibliográfica
mas para meu alívio
ela quase não notou
e por via das dúvidas
essa ideia é de Foucault

 

 

 

 

 

 

alegria dos que não sabem (e descobrem)

1. descobri que minha língua não consegue reproduzir certos sons que não são do meu idioma por uma deficiência neurológica: brasilidade fonética. 

 

2. descobri que não sei quem sou quando minha mãe confessou não saber exatamente sua origem e percebi que meu pai inventava uma genealogia falsa para dizer que é importante.

 

3. descobri que nunca tive um cachorro com pedigree e até aquele que eu chamava de puldo é, na verdade, uma cruza com alguma outra raça.

 

4. descobri que meus amigos gostavam de mim quando pedi dinheiro emprestado e eles não me emprestaram porque realmente não tinham.

 

5. descobri porque nunca achei graça de piada preconceituosa quando entendi que era de mim que estavam rindo.

 

6. descobri que o samba é completo quando precisei cortar meus pulsos e pude fazer isso dançando.

 

 

 

 

 

 

nascido da invenção

 

no peito domestico um bicho
ele me habita desde criança
época em que podíamos ter o mesmo comportamento:
o mesmo temperamento medonho
o mesmo timbre no urro
o mesmo passo firme que descobre seu peso no chão

(apenas existia sem questionar o ruído dos dentes rasgando a gengiva para mastigar o tempo devagarinho)

 

 

 

 

 

 

máquina de não fazer

 

não sei se escrevo por
obsessão desejo vontade não
nada além da angústia de pensar que algo deve ser sentido dito lido escrito não
insisto na história me esconde atrás de uma cortina de fumaça sutil frágil suja suave não
parece mesmo um muro de concreto maciço firme sólido eterno não
também não existe outra força que me aproxime tanto de mim

 

movimento a mão presa ao texto
faço círculos na tela como se desenhasse uma imensa coisa redonda sem sentido sem coragem sem verdade sem vergonha não
esse texto é outra fuga da realidade que me dedico a inventar para não

 

 

 

 

 

 

olhos livres

 

nenhuma fórmula para enxergar a contemporânea expressão do mundo

 

 

 

 

 

 

dilema ortográfico

 

meu maior medo é passar o resto da vida acentuando uma ideia

 

(foto de Lou Ayang)

 

Juliana Maffeis é escritora e arte-educadora. Mora em Porto Alegre, RS, Brasil. É licenciada em Letras, especialista em Teoria e prática na formação do leitor e mestranda em Letras, na área de Escrita Criativa (PUCRS). É autora de “Solitária Companhia de Teatro” (Editora Patuá, 2017).

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Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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