ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Lisa Alves


Com armas sonolentas ou o realismo mágico em solo brasileiro    

 

“Mas a filha não entendia que a vida toda
era toda uma vida e que se não sentisse falta disso
não sobraria mais nada para sentir falta.”

 

Carola Saavedra é uma escritora e tradutora brasileira nascida no Chile (Santiago, 1973). É autora de cinco romances e um livro de contos: Com armas sonolentas (Companhia das Letras, 2018), O inventário das coisas ausentes (Companhia das Letras, 2014), Paisagem com dromedário (romance, Companhia das Letras, 2010) ganhador do prêmio Rachel de Queiroz, Flores azuis (romance, Companhia das Letras, 2008) ganhador do prêmio APCA de melhor romance, Toda terça (romance, Companhia das Letras, 2007) e Do lado de fora (contos, 7Letras, 2005).  Além disso, a autora traduziu para o português autoras como Herta Müller e Cornelia Funke.

 

 Com armas sonolentas (Companhia das Letras, 2018), quinto romance da escritora, conta a história de quatro mulheres: Anna, Maike, uma personagem sem nome e a avó. A obra é dívida em duas partes: O lado de fora e O lado de dentro. E dentro dessa divisão também há outras subdivisões que levam o nome de Anna, Maike e Avó. Algo que me fez lembrar do movimento de tirar e pôr das Matrioskas – aquelas famosas bonecas russas que guardam em seu interior versões menores de si mesmas podendo habitar tanto dentro quanto fora dessa figura maior; dessa grande mãe-abrigo.

 

“Acordei com uma antiga canção de ninar na cabeça, dessas bem comuns. Minha mãe cantava para mim. Talvez a minha avó tenha cantado para ela, e talvez minha bisavó para minha avó e a minha tataravó para a minha bisavó...”

 

“(...) gente ignorante, dizia a avó, (...) não entendem que vocês ainda são uma única alma, e que a alma de uma filha só acaba de separar da mãe quando por sua vez pare ela também, a sua própria filha ...” 

 

Por outro lado, a divisão da obra também me remeteu à entrada e saída de territórios, os movimentos de migração e todo o aspecto simbólico de como somos para nós mesmos e de como somos quando nos apresentamos ao mundo.

 

“(...) gostamos de imaginar que somos livres, completamente livres, mas isso não passa de ilusão, somos a nossa herança, uma herança gravada nas palavras de nossos ancestrais...”

 

“(...) fingi que não era comigo, como se a notícia me dividisse em duas, e eu pudesse, a meu bel-prazer, transitar entre uma e outra, a que sabia e a que não sabia...”

 

É belíssima a arquitetura de Com armas sonolentas, a autora transita entre mundos fascinantes, universos conscientes e inconscientes que indicam certos aspectos e elementos do realismo mágico – gênero batizado por críticos hispano-americanos como Arturo Uslar Pietri, Ángel Flores e Luis Leal. Sim, Carola Saavedra apresenta com suas armas sonolentas o “realismo mágico” ou “real maravilhoso” tão bem conhecido e reconhecido nas obras da chilena Isabel Allende, do colombiano Gabriel Garcia Márquez, do cubano Alejo Carpentier, do brasileiro Murilo Rubião, do argentino Jorge Luis Borges e que se tornou uma marca das tragédias latino-americanas narradas com realidade e tendo em algum momento a famosa quebra abrupta da mesma; com a presença de fantasmas, loopings temporais e situações que na vida real residem no campo da impossibilidade, da imaginação, da superstição e da fé.

 

“(...) ela teve vontade de perguntar para onde a avó iria se já estava morta, mas teve medo da resposta, ruim isso de falar de morte com os mortos...”

 

E mesmo que na obra de Saavedra as tragédias possam ser identificadas como “de dentro” por rodear uma trama familiar, há uma experiência humana – uma vivência coletiva, um destino que ronda milhares de mulheres e não exclui a questão da luta de classes, a exploração do trabalho, do corpo e a escravidão contemporânea, levando a obra “do lado de dentro” para “o lado de fora”, facilmente.

 

Segundo Heloísa Buarque de Hollanda, no texto da quarta capa, o romance aborda sentimentos silenciados e contraditórios, trata a relação de afeto entre mulheres e temas que sempre habitaram nossas vidas e ainda lembra aos leitores que a obra leva em seu título um verso do poema “Primero Sueño” de Juana Inés de la Cruz (freira, poeta e dramaturga mexicana do período barroco hispano-americano do século XVII), conhecida como a “Fênix” da América Latina por tratar o sonho de liberdade como principal tema de seus poemas.

 

Pesquisando descobri outro ponto interessante do poema cujo verso inspirou o título do romance de Carola Saavedra: os versos de “Primero Sueño” relatam as etapas de uma alma em um passeio pelo mundo dos sonhos à procura do conhecimento, da compreensão do universo e de onde retorna desiludida e derrotada pelo mistério.

 

Leiam, viagem e sintam essa obra fantástica.

 

 

 

Lisa Alves (Brasil, 1981) é autora de “Arame Farpado” (2018, Penalux) 2ª. Edição.
Faz parte do conselho editorial da revista Mallarmargens, é coeditora da Liberoamerica (Espanha). Tem textos publicados em diversas revistas, jornais e páginas literárias no Brasil, Espanha, Inglaterra, Moçambique e Portugal. Tem poemas e contos publicados em doze antologias lançadas no Brasil, Argentina, Chile, Espanha e País Basco.
Contato | lisaallves@gmail.com

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Paginação:

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