ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Leonora Rosado


Prosa poética    

1.

 

O estímulo era uma sebenta fechada em tons nocturnos. Inspirada na nostalgia que deixa sempre uma flor caída. Já não nos é possível amar, já estamos impossibilitados de esquecer lançar as redes às estrelas. Já não nos é possível morrer para sempre. Uma morte flácida que nos deixe rígidos, uma morte de ébano e calafrio. Do espelho espreitava-me um certo abandono, um Inverno granítico onde mergulhar o rosto. As notas finais oriundas, afinal de um acorde dissonante. A escrita hiberna nos nossos dedos, até refulgir. Abrimos as mãos para o nosso próprio vácuo, para a nossa própria miséria. Das palavras coube-me a ínfima gaiola dos meus sonhos. O pássaro, evadira-se e morrera. Como a penumbra transversal a que aceno, as mãos meticulosas guardam as suas crias (os versos). Será um Outono lento, que apressará a iminência da queda (das folhas, dos delicados cabelos, da esperança inteira de um mundo que se devora). Será um pássaro célere com folhas mortas no bico, serei eu exposta ao vento a acotovelar a melancolia. Serei eu só, num universo fechado a palavras. As flores morrem nos subúrbios, sem que isso tenha qualquer importância, as horas reacendem mitos, bem como os evaporam. Há que olhar as flores, esses temíveis instantes da sua morte, há que não deixar morrer as aves. As árvores, as folhas. Há que degolar os poemas (animais famintos e perigosos). Sentir o relento das sílabas, da sombra e do silêncio. 

 

 

 

 

 

 

2.

 

Entram e saem todas as coisas do mundo que passam e tocam-me de raspão, num frenesim incendiário, moribundo, mas convicto. Quantos espelhos dormem por detrás de um espelho, dentro do útero da palavra, quanto renascemos para voltar sem esperança, que livro deixámos aberto à espera das pupilas, do toque de seda das mãos e dos olhos. Regressamos ao palato das coisas feridas, que se insinuam sem dar tréguas. Somos cárceres livres à espera do punhal. Sei do meu nome a sua infinitude finita, derrubada, sensível e inútil. Uma rosa ilumina a manhã que se esvai, para dar lugar a uma semente feroz. Crescem para dentro as flores sem entendimento, sem acompanhar esta estranha luminosidade. As mãos são a sede que um rio colore, o corpo vil forma um desejo ancestral, embutido nas sombras, no riso de quem esquece a mortalidade iminente. Entram e dilaceram todos os sonhos do mundo as coisas tangíveis e nefastas. Sinto o sabor de sangue nos lábios, alguém apressa-se a dizer que não regressa, conforta-me sabê-lo. Há que cair na escuridão, sentir o seu húmus, a sua humidade inquietante. Saem de mim as palavras, aflitas e terminais. De que manhã falo, agora que me perdi nos cristais impuros do meio-dia? 

 

 

 

 

 

 

3.

 

Hoje prometi que não escrevia, mas a sinceridade veio-me às veias. O ardor povoou as minhas sílabas. Estou inteira na metade da palavra, estou na película oblíqua da minha pele. Hoje prometi não escrever, não gastar a seda das cedilhas, deixar intacta a minha sede, o meu écran violável. Vais deslocar-te neste texto, vais desconstruir uma barragem de nuvens, vais avançar sobre a fenda. A fenda dolorosa do nosso coração. Vou omitir a tua presença aqui. Vou fechar as mãos, sublinhar os olhos. Os meus. Os teus. Vais retroceder. Vais ficar desatento. E isso vê-se aqui na amplitude das minhas palavras. Um aplauso mudo. Uma oração descrente. As lágrimas de um amolador de sílabas, o fecho de uma estação pungente. Voltar atrás, num regresso à primeira ideia, a sinceridade banida do meu, do teu léxico. Um idioma difícil, o de um amor inexpressivo. O vício dos sintagmas, o da escuridão. O da solidão, fechada num labirinto, o corpo. A viagem. Hoje inauguro a tua ausência e tu acorres veloz ao seu encontro. Hoje o oxigénio é uma exaltação dos brônquios, está hoje o mar mais distante. Vais atravessar a escuridão, e no seu seio vais procurar o nome irredutível da sombra, da tua sombra posta em silêncio sobre as asas incandescentes de um sopro. Vais ferir de morte os holofotes da indiferença. Eu curvo-me ante um pássaro e um jazigo de luz. Tenho ainda a ideia ténue de um regresso ao útero. A sinceridade volátil do meu seio. E esta pequena imagem, deformação do meu ritmo. A escrita, um mal menor com que saciamos as horas.

 

 

Leonora Rosado - Nasce no concelho de Sintra em 1971. Desde muito cedo revela interesse quer pela leitura assim como pela escrita, poesia, sobretudo.
A escrita é a sede que ávida tenta saciar incessantemente em eterno retorno. Insaciedade de Tântalo. Em vertigem constante.
Tem publicados seis livros de poesia, “Dias Horizontais Noites Assim” (2012, Nu Limbo Edições), “O Ocaso e as Horas” (2013, Nu Limbo Edições), “Argila” (2014, Nu Limbo Edições), “A Voz Subcutânea” (2015, Nu Limbo Edições), “Impurezas” (2016, Temas Originais) e o ainda tão recente, “Ruptura” (2016, Nu Limbo Edições).

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Paginação:

Nuno Baptista


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