ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Eduardo Rennó


Crónicas    

A menina e as águas

 

Ela era uma menina sabida. Lia, reparava nas pessoas, passava o dia a observar. Ressabiada, andava para um lado e para o outro da casa e ficava zanzando a noite inteira, buscando ter o que fazer. Conversava com bonecas, jogava baralho consigo mesma, arregalava os olhos quando comia algo bom nas refeições em família. Não deixava de notar nada.

 

O olhar dela era, de fato, algo intrigante. Se ela reparava nos outros, sempre estava com os olhos voltados para si mesma, mais do que no mundo à sua volta. Tudo a ela importava, tudo a ela era como o mar, e ela, um peixe imerso n’água. A correnteza podia estar puxando forte para um lado e ela remava contra, ou o mar podia estar manso e ela deixava se banhar nas águas. Talvez não fosse como um mar. Talvez fosse um rio, e ela o leito que deixava as águas transcorrerem sem pressa, ou com a exatidão da pressa necessária para alcançar o delta. Ou então, às vezes, ela talvez fosse a própria margem, que estava parada ali, a contemplar, e onde ela própria se deitaria e ficaria a contemplar as águas que corriam e borbulhavam nas pedras, ora se banhando, ora apenas tocando-as.

 

Quiçá, a menina, como todos à sua volta, fosse apenas mais uma. Ressabiada, de certo modo, mas honesta. Que sabia observar, sabia esperar, e sabia ir atrás do que quer. Ela, no meio da família, ouvia calada, mas sempre aprendia. A família era seu porto.

 

E como navegava. Assim crescia. Só sabia que amadurecia. Aprendia. Já não era mais calada. Continuava observadora, aprendiz. Mas sabia de seu lugar no mundo. Agora o mar já não era imenso, o rio já não era infinito. O céu já não era inalcançável. Ela podia mais. Podia ser uma mulher. E de fato, era. E sua família sabia.

 

...

 

 

 

 

 

 

O marulhar das águas

 

Certa criança, ao nascer, viu o luar, o vento, a brisa e foi banhar-se nas águas dos rios. Os rios eram poucos naquela época, e a criança ficou à distância, ouvindo o marulhar das águas. E toda noite ela passava na varanda e ouvia o marulhar. As águas a acordavam. Toda noite. Luar após luar. Sentindo o mesmo vento, da mesma brisa. Esse marulhar: as águas, mexia com ela.

 

Passavam os anos. A criança, adolescente. Saía pela varanda a caminhar na floresta, procurando as águas. Voltava saciada, de brisa, de vento e de sede.

 

Passaram mais anos. A criança, agora adulta. Ia de árvore em árvore, ouvindo o marulhar, o barulhinho de assovio a chamar pelas águas, que ela finalmente iria encontrar.

 

Anos depois, chegara a velhice. A criança, idosa e cansada, de tanto mergulhar nas águas, busca e acha a cachoeira para, finalmente, repousar em sua nascente e voltar ao rio e ao seu primeiro lar.

 

...

 

 

 

 

 

 

Intempéries da paixão

 

Ela era ainda uma adolescente de 18 anos quando se apaixonou por um homem mais velho. Talvez não tão velho assim, já que contava sua idade por volta dos 45. Mas, certamente, tinha mais que o dobro da idade dela, quase o triplo.

 

E ela, cega de paixão, amava com todas as forças aquele homem, que, em troca, não lhe correspondia à altura. E todos os dias, ela perguntava, pedia, suplicava:
- Você me ama? Por favor, diga que me ama!

 

O homem, com o semblante fechado, permanecia sem dizer uma palavra.

 

Até que um dia ele ousou responder à pergunta.

 

- Não. Não a amo.

 

- Mas por que não? Se tudo que faço é pensando em ti. Você não sente o mesmo por mim?

 

- Sinto, mas não a amo. Não a amo, simplesmente porque não quero vê-la iludida de paixão, e sofrer mais do que suportará quando chegar a hora da minha partida e eu vier a falecer.

 

E por mais 30 anos aquela garota amou-lhe sem ser correspondida da forma como queria. Até à sua partida, que ela soube superar, graças a seus profundos sentimentos. O amor nem sempre é eterno ou imortal, mas é infinito no seu momento.

 

* Livremente inspirado em contos e peças de Tchekov.

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Sedento por livros

 

Desde que aprendeu a ler se apaixonou pela leitura. E começou a devorar palavras. Primeiro foram os anúncios publicitários na rua: cartazes, outdoors, placas; lia até indicações de locais nas placas de trânsito. Achava algumas palavras muito engraçadas. Depois foram as revistas em quadrinhos, as HQs, gibis, muito incentivado pelo pai. Adorava a leitura com personagens desenhados, que passavam a lhe ser íntimos, e ainda mais, os balõezinhos. Daí, para passar seu hábito de leitura aos livros foi um pulo, nem tão grande assim. Ainda se lembra do primeiro que ganhou, de aniversário, de uma tia estudiosa das letras.

 

Primeiro a leitura infanto-juvenil, já que de infantil lhe bastavam os quadrinhos. E, ainda no colégio passou à literatura adulta. Devorava cada página, curioso com o que viria na seguinte. Sempre leituras literárias. Histórias que pareciam criar imagens em sua cabeça de menino, adolescente, jovem, adulto, pai de família, até de avô depois. Iria gostar de ler para os netos.

 

Porém, algo o angustiava, de forma agridoce. A última página de um livro. Aproximando-se do final daquele livro que estava lendo, nem tanto pela narrativa, mas algo começava a lhe dar um aperto no coração. Gostava de ir prolongando a leitura, lendo aos poucos e vagarosamente. Saboreando as palavras. Chegava a abrir o livro para ler apenas um parágrafo. Era um prolongador de prazeres. E quando alcançava o último parágrafo? Aí não tinha remédio. Lia cada palavra, degustava o sabor de seus sentidos, das metáforas que imaginava. E, chegando ao “fim”, fechava a quarta capa, e um sentimento, misto de melancolia e insaciável saciedade, apoderava-se dele. Ficava assim, talvez por uma hora, imóvel, onde quer que fosse que a última palavra houvesse sido lida, normalmente em sua cama, deitado.

 

Não tendo mais o que fazer, corria para a estante, às vezes para alguma livraria, e selecionava a próxima leitura, o próximo livro. Foi assim aos 10 anos, foi assim aos 20 e aos 30. Seria assim aos 70, até quando os olhos lhe derem condição.

 

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Questão de escolha

 

Chegou e já foi logo atirando os livros e cadernos na cama. Mãe, tô indo jogar bola! De jeito nenhum, menino! Você tem que fazer primeiro o dever-de-casa. Mas, mãe... Nem mas, nem meio mas. Já pro banho, tirar essa roupa imunda, que o almoço tá quase saindo! Entrou direto no banheiro. Sai sapatos, meias. Camiseta, calças curtas, todo o resto no chão. Liga o chuveiro. É só o tempo de ler um gibi... Dá uma entradinha pra molhar a cabeleira. Sai, correndo, enrolado na toalha. Menino, veste roupa! Tá na cama! Roupa impecável, sem esquecer o sapato especial. Chega no almoço, sorridente, parece faminto, e um cheirinho de comida caseira, que acabou de sair do fogão. Pra que tanta pressa, menino? Come devagar! A comida não vai sair correndo. Nem precisa tirar o pai da forca, que esse já ta com Deus... É vontade de ir logo estudar, mãe! Mais duas garfadas, e um gole no refresco, o prato já tava limpo. Pediu licença e saiu correndo pro quarto. Não esqueceu de trancar a porta, não queria ser incomodado. Abriu os livros na escrivaninha. Até luz de abajur. Deu dois minutos. Abriu a janela e pulou pra fora. Bora pra bola!

Eduardo Rennó nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1979. É bacharel em Letras e Comunicação Social pela UFMG. É professor, revisor, tradutor, escritor e poeta. Já publicou o livro Eu & ti em Portugal (Corpos Editora, selo Worldartfriends), e possui alguns poemas publicados em Antologias. Já fez trabalhos também com curtas-metragens, especialmente Super-8, e fotografia. Acadêmico da ABEPL, da ALG e membro dos PoetasdelMundo. E-mail para contato: edurenno@yahoo.com

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Colaboradores de Fevereiro de 2019:

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Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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