ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Jorge Castro Guedes


Testemunhos na primeira pessoa: o nariz que ficou por morder    

Aqui procurarei deixar alguns testemunhos, cuja forma pessoal é um estilo e também verificação da substância encerrada neles, a única coisa que interessa verdadeiramente. Nem tanto para um hoje insensível a eles, mas para memória futura, caso a Humanidade ultrapasse a curva da auto-destruição.


EPISÓDIO 6: O NARIZ QUE FICOU POR MORDER


Uma das imagens mais fortes para definir a visão idealista da História, segundo os materialistas, mas em verdade, idealista ou não é, isso sim, não-determinista, foi dita por Pascal e mete narizes: ao caso o de Cleópatra. Esta, estória e nada História, embora historicamente verdadeira, também os mete, mas nada tem a ver com o sentido com que a frase pascaliana aparece: “Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face do Mundo teria mudado”. Subentendida fica a ideia das paixões que a beleza e temperamento da rainha egípcia provocaram e, por via disso, influenciaram decisões dos seus amantes e pretendentes com claro impacto político, social e até confessional. Mas os narizes destas linhas nada têm de belo. Um, o meu, porque estou a meter o nariz na imagem que a dona do outro nariz quer dar de si mesma e é ‘chato’; o outro, ainda mais feio, respeita ao nariz da própria, empinado.


Isto até aqui pode parecer que se está numa qualquer especulação filosófica misturada com ‘coisinhas’ pessoais e um pouco caótica. O que só é verdade na medida em que a História – essa outra discutida em torno dos determinismos e dos seus contrários – é (quer dizer: eu concordo que seja) “a coisa mais caótica que existe” como diz Pacheco Pereira. Porém, a coisa, que não ‘coisinha’, no que contém de implícito é bem mais banal e decorre numa camioneta de Lisboa para Évora, ao serviço da Secretaria de Estado da Cultura, a camioneta, fretada para levar convidados para a cerimónia da entrega dos Prémios Garrett no Teatro Garcia de Rezende. Entre muitos, ia eu também, obviamente VIP transitório por funções que tinha: era o responsável do Teatro e Dramáticos no então Canal 2 da RTP; mas mais do que isso, autor e apresentador de um programa chamado “Dramazine” e a quem o Vasco Correia Guedes, que assina Pulido Valente, apelidou, com graça, “dramamine” nas páginas de “O Independente”, evocando um medicamento que se tomava para os enjoos. Mas não é o nariz dele que aqui vem ao caso. Foi só uma derivação ao pensar no outro nariz, que com o do Correia Guedes, só tinha por coincidência serem ambos de pessoas que não me gramavam nem um bocadinho… Porque o do Vasco respira ódios de estimação, mas leva a mão a boa prosa na forma. O dela muito longe disso.


E então a camioneta rodava estrada fora, em pleno Cavaquistão, mas ainda sem auto-estrada.


Perdão: antes disso é preciso situar o contexto dos antecedentes. Numa das emissões desse mesmo programa, Dramazine, dei os parabéns em antena aberta ao então Secretário de Estado da Cultura Pedro Santana Lopes, que eu tenho para mim – e lho disse, aliás – como muito parecido com os Estados Unidos: tem do pior e do melhor que há. No caso referindo-me unicamente ao seu consulado na tutela da Cultura. E os parabéns dados respeitam em concreto a ele ter dobrado (sim, sim, isso mesmo, dobrado, literalmente) os subsídios a todos os grupos financiados para o que tinha como ano de transição, em que recebera a herança da sua antecessora (Teresa Patrício Gouveia) que levara o teatro a níveis muito baixos de financiamento. Tão baixos que seriam (também curiosamente) sensivelmente o dobro dos mais baixos de sempre, que são os actuais à data em que escrevo (Julho de 2018). E, além disso, ainda acrescentara outros para atribuir em concurso aos chamados programas pontuais.
Ora bem, eu fora convidado pelo Santana Lopes para fazer parte do Júri, como fui para muitas outras coisas que poderão ou não aqui vir à baila um dia, mas sem interesse para este nariz que ficou por morder. Quer dizer: sem interesse para a estória do nariz, porque a dona do nariz, se eu tivesse aceitado alguns desses convites, passaria a gramar-me aos pacotes e destacar-me nas suas crónicas jornalísticas. Isto será suficiente para a identificar no meio teatral, mas expressamente não ponho o seu nome para seguir o estilo da própria que nunca tem coragem de dizer cara a cara o que prefere dizer nas costas.


Mas retomemos. Eu declinara esse convite pelas razões que lhe dei aquando da formulação do mesmo: não faria parte de um júri de atribuição de subsídios, uma vez que eu mesmo (ainda que naquele concurso não fosse apresentar qualquer projecto e por essa razão, segundo o próprio, é que me fazia o convite), fora e seria (hipoteticamente) um candidato. Estaria e estou disponível para órgãos e organismos, oficiais ou não, que se proponham discutir em geral medidas para o teatro, como de resto o fiz integrando o anterior e extinto Conselho de Teatro e algumas outras coisas que, agora, também estão de fora do alcance deste texto. Porque pessoas ou cores partidárias nesta matéria são-me tão indiferentes quanto isto: faço-o para expor os meus pontos de vista como contributo para o que repito até à exaustão sobre a inexistência de um (seja qual for) sentido estratégico de uma política cultural nesta III República. Agora ir decidir sobre o trabalho artístico dos meus pares (mesmo quando penso o que penso sobre a maioria deles e que já aqui deixei claro como muito negativo) em sede de subsídios do Estado jamais (leia-se em português, pas en français). E, além desse princípio basilar de quem tenha carácter e/ou não seja apanhado muito distraído, discordo em absoluto desses júris pretensamente técnicos e isentos, efectivamente sistema de encobrimento e ‘airbags’ de decisões políticas que cabe ao Ministro ou Secretário de Estado assumir. Até porque os jurados acabam por ser sempre, mesmo se na melhor das intenções (de que está o Inferno cheio), por tomar partido: partido por preferências de gosto, proximidades, teias de interesses ou espécie de câmara de compensações do Banco dos Favores (mais uma feliz expressão brasileira); partido de quem está no Poder e indica, mesmo que subtilmente, a quem se deve dirigir obrigatoriamente este ou aquele apoio. Aliás, muito mais do que o contrário: na generalidade protegem, raramente excluem. As exclusões – muitas delas escandalosas – vêm dos jurados ou de organismos intermédios como a actual ‘DSAstres’, para melhor me explicar.


Porém, a dita senhora do seu nariz fizera parte do júri, desse mesmo júri. Mas fingia-se muito de esquerdas – ainda era incontornável ser de esquerdas na Cultura sob pena de ser marginalizado pelos mais que ou eram mesmo – e sectários - ou eram não sendo, como na célebre Assembleia Geral do Salgueiros que conto rapidamente a talhe de foice: o salão estava cheio e um sócio toma a palavra e diz qualquer coisa como “Há sócios que não são sócios e estão sentados e há sócios que são sócios e estão de pé. E eu, que sou filho das ervas daninhas…”, quando é interrompido por uma voz a ironizar “Então é grilo”, conclui com um ribombante “Grilo, a puta-que-o-pariu. Tenho dito, Sr,. Presidente”! Mas retomemos o fio à meada, embora a coisa pouco se diferencie desse tipo de narrativas ou mitos urbanos, outrora chamados fábulas. Com a diferença que aqui não há nenhum La Fontaine, muito menos um Esopo, e o que se narra passou-se mesmo. Porque vai daí, aproveita a circunstância para travar, tentar travar, um diálogo ‘crítico’ comigo a propósito dos parabéns que eu dera, merecidamente, a Santana Lopes. Porque ele era de direitas e eu não o devia elogiar em circunstância alguma... Por acaso, se contasse o depois do depois posto em carta que vi com estes que o fogo há-de cremar, perceber-se-ia aquele prefácio: o Luís Miguel Cintra subiria ao palco dizendo que só aceitava o Prémio que lhe fora atribuído em memória do recém-falecido director do Fundo de Teatro (entidade que intermediava, nessa altura, a atribuição dos subsídios) porque não reconhecia em Pedro Santana Lopes qualidades para o avaliar. Mas o depois deste depois não conto. Da mesma maneira que, felizmente, a bomba atómica teve, durante a Guerra Fria, um papel de dissuasão entre os dois Blocos sem explodir. Mas como não digo, direi só, inspirado em Maria José Nogueira Pinto virada para Paulo Portas, declinando a coisa à medida do que ela é, virado para quem escreveu a tal carta: “O senhor não sabe que eu sei que o senhor sabe que não sabe que eu sei”. Mas sei.


E avancemos.


Como o assunto não merecia grande motivo de diálogo, após ter posto preto no branco porque dera os parabéns por um acto dele merecedor, na continuidade da argumentação politiqueira, mais ou menos de nível doméstico-paroquial, da senhora do seu – seu, dela – nariz, disse-lhe que eu não fizera parte de um júri que se constituíra na base de convites do SEC, mas ela sim. E, portanto, não lhe reconhecia sequer condições para estar para ali a dar-me lições de acção política quando ela é que estava comprometida com o titular da tutela, enquanto eu só estava comprometido com a decisão que tinha por meritória. Encarnada que nem um pimentão, da cor da faixa dos campinos do Ribatejo, explica-se: “Só o fiz para defender os grupos dos meus amigos”… Perante a confissão nem era preciso eu acrescentar fosse o que fosse, mas o impulso levou-me a responder-lhe de imediato: “Bem me parecia. Esteve lá para defender os amigos e não para avaliar os projectos. É o seu costume, exactamente como nas crónicas jornalísticas que faz”. Desarmada inesperadamente, furibunda, sentada sobre o assento da camioneta e virada para trás (por mera coincidência eu ia num lugar da fila a seguir à dela) arremete, continuando tipo faena de campino do Ribatejo, dedo em riste e voz esganiçada, que isso é a que Deus lhe deu: “Olhe que eu corto relações consigo”. Ao que lhe respondi, subindo então a mim a mostarda ao nariz, assim: “Não corta nada. É impossível porque eu nunca terei relações consigo. Intelectualmente não me interessa nada; fisicamente ainda menos”.


Ela ainda tentou introduzir o marido (que nada tem a ver com teatro) ao barulho, mas ele – que é um senhor e não regateira diplomada, sabe-se lá como – disse logo que não se metia nessas polémicas, que nada tinham a ver com ele. Mas teve o condão de me inspirar semelhante episódio e repeti-lhe o que uma vez dissera (e concretizara) a um outro cronista teatreiro que era belfo e acusava um director de uma Escola de o perseguir pelas ideias, a carreira de actor: “Olhe que eu mordo-lhe o nariz, se não se cala”. Felizmente para ela, o Varela Silva, que ia num lugar por ali próximo diz-lhe: “Vire-se, vire-se, Fulana, que ele é ‘maluco’ e morde mesmo”.


Assim ficou aquele nariz por morder. O que foi um duplo bem. Às vezes até chego a pensar que o Varela foi mais um instrumento dos Altos Desígnios para evitar que ela ficasse deformada no rosto de grão-de-bico que ainda hoje mantém e eu sem algum paladar, porque ainda mais azedo do que este testemunho, tal era, e será, o azedume que a senhora (me) tem. Ai dos que não pertençam à sua Côrte da influência! Coitadita, ainda nem percebeu que está reduzida à sua própria condição tão equivalente à de uma regente escolar. Que eram umas senhorecas de aldeia com a 4ª classe que, ao tempo de Salazar, davam aulas na Escola Primária aos meninos do interior para fazerem a escolaridade obrigatória de então: a 3ª classe. Coisa que também havia, então também, nos comboios: os assentos eram ripas de pau, como se dizia, tal como as palmatórias que caíam sobre as mãozitas dos meninos que não papagueavam a Tabuada. E ficavam de mãos a arder, chorando até o moco do nariz cair. Porque os narizes - seja nos meninos pobres ou ricos, seja nas meninas espertas ou burras – têm todos moco. Até o de Cleópatra o tinha.
Safa! Do que me livrei!

 

Jorge Castro Guedes é encenador

 

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