ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Fabiano Silmes


Poemas    

O GALOPE INCERTO

 

Às vezes, me falta voz
E minha palavra não é ouvida
Morre em mim numa renúncia
Um desejo de sol e um passo além.

 

Às vezes, não saio de mim
E o dia todo me sinto preso
Como um prisioneiro triste
Na solidão de sua cela.

 

Às vezes, o meu olhar
Não revela o que sinto
E minhas lágrimas correm
Sem que eu as sinta

 

Galopo a tristeza das coisas
- Animal indócil e arredio-
Às vezes eu caio e sangro
Mas levanto, limpo a poeira
E sigo em frente, sempre!

 

O que eu posso fazer?
É a vida! É a vida correndo...

 

 

 

 

 

 

DISTÂNCIA

 

Quando olho pra mim
Vejo outra pessoa
Me olhando
Vejo-me
Olhando
Uma paisagem
Distante
Onde pássaros
Tristes sobrevoam
Silenciosamente
Dentro de minha memória

 

 

 

 

 

 

OS ADORMECIDOS

 

os homens dormem tranquilos
em suas casas provincianas
os animais e as coisas dormem
subjugados pelo cansaço da lida
e da vontade das mãos apressadas
o concreto e o abstrato dormem
numa convenção de silêncio e entendimento mútuo
o dia a noite e a eternidade dormem
debruçados no parapeito do universo
deus e seus anjos dormem no infinito...
(da noite além da noite)
só os sonhos estão acordados.

 

 

 

 

 

 

TARDE BUCÓLICA

 

O tempo corre no pulso
Impulso de artérias
Coração batendo
No peito acelerado
A música da vida
Ressoa pelas horas
O desejo mais puro
De cessar a cantoria
Das cigarras estranguladas.

 

                

 

 

 

 

O POEMA

 

não terá descanso este poema:
    terá a imagem estudada
           o verso exposto
      a metáfora analisada
       será anjo e será fada
e muito, muito além de nós
         ele será um deus
         que se (re)inventa
       por falta de milagres.

 

 

 

 

 

 

JOGO SUJO

 

Eu queria ser honesto
Sei que é difícil
Às vezes a barra pesa
                  de verdade.

 

Eu queria ser honesto
Pelo menos uma vez
E dizer o que sinto
E não sinto, de fato.

 

Queria ser honesto e mandar
À merda aquele sujeitinho pulha
Que destila venenos sob os bigodes
E compra a lei à preço de banana

 

Queria ser honesto e não apertar
A mão do filho da puta que diz
O que é certo e errado no púlpito
Todos os domingos e, à noite,
Trepa com a mulher do vizinho
Na terça, quarta e às vezes na sexta.

 

Queria...juro que queria! Pelo menos
Uma vez e nada mais do que isso
Entender o ódio dos que carregam
Bandeiras e até a Cruz de Cristo
Em nome de um amor que eles
Evidentemente  não sentem

 

Oh, como eu queria ser honesto e bom
E doce e triste como aquele que apanha
E ainda oferece a outra face pra bater.

 

Queria ser honesto e não ter que
Que bater palmas para o candidato
Que asfaltou a minha rua
Com um indisfarçável interesse político

 

Queria ser honesto e não elogiar
Os textos mal escritos do artista sensível
Que chora quando ninguém aplaude.

 

Queria esconder as minhas lágrimas
Quando a dor aperta e o grito escapa

 

Queria não ter que mentir tanto
Para ser honesto no modelo
Ideal de honestidade projetada

 

Às vezes, muitas vezes
Eu queria jogar limpo,
mas honestamente, irmão,
A vida joga pesado.

 

 

 

 

 

 

FISSURA

 

os meus amigos ficaram burros
empobrecidos em meio à nevasca
ficaram só
com o olhar perdido
batendo fugas impossíveis
no espelho quebrado
tão loucos de tudo
que nem me reconhecem mais

 

dilatadas narinas e um filete de sangue
escorre por entre os dedos deles agora
a máscara desfeita
o pó dos sonhos e a dor das eras

 

os meus amigos ficaram burros
entregues à monotonia das coisas
pobres naus perdidas e abandonadas
em portos abarrotados de solidão

 

os meus amigos ficaram burros
já não sabem distinguir
se é dia ou noite ou poesia
(pais, filhos, família, trabalho)
escrito nas dobras do tempo
os meus amigos não sabem ler mais nada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POEMA PRA NÓS DOIS

curioso é colocar voz nos versos
bastante silêncio nas palavras
consertar os erros que sequer
sabíamos erros quando errávamos
por aí, incautos, mundo a fora
deserto aqui dentro – sempre-
um pensamento me consola
enquanto outro me consome
lentamente como um cigarro
aceso ao acaso dos instantes
entre a pressa cega de seguir
e dessa vontade louca de ficar
olhando você dormindo, rindo
quem sabe sonhando comigo
indo te encontrar nos teus sonhos.

 

 

 

 

 

 

AUSCHWITZ

Quiseras que as luzes todas da razão
Incidissem nas noites em Auschwitz

 

Quiseras que todas as mãos unidas
Desfizessem as paredes de Auschwitz

 

Quiseras que as portas e muros caíssem
E revelasse a liberdade em Auschwitz

 

Quiseras nunca mais haver Auschwitz.

 

 

 

 

 

 

O livro e a traça

 

A vida é o livro
Que se escreve
Quando vivo:
Livro romance;
Agre-sabor de literatura.
Livro drama;
Sem fins nem meios
Ao alcance de todos.
Livro-infantil;
Mundo de fantasia
Nas linhas do nada.
Livro-médio
Ou máximo livro
Que encante
Ou que dele
Seja encantado,
Mais que a vida
Do livro que
Somos mas não lemos:
- A morte; traça implacável
Que vai roendo
Silenciosamente
As fantasias
Os dramas
Os romances
E tudo o mais que se
Escreva dentro
E fora do livro
Até deixar em ossos
O próprio entendimento.

 

 

 

 

 

 

O QUE FICA

 

Desvestir o corpo
Colocar pra fora
O essencial de dentro
Centro urbano do caos
Versejar o silêncio
Em flor fogo e água
Poetizar o puído
Da alma constrita
No peito doído
Do poeta doido
E varrido de si
E em cada olhar
Que dele se salve
Ao menos o grito
Feito de imagens
Dissolvidas em lágrimas
Na folha de papel
Que o tempo
Há de esquecer
Dentro do livro.

 

 

 

 

 

 

O ABISMO

 

Debruço-me sobre minha própria borda
E o que vejo no escuro que não se sente,
Porém, que se toca sem se tocar de fato
Espreita-me como bicho ferido e acuado.

 

A minha essência, eterna verdade dos fatos,
Despida, noto-a triste e desprovida de tudo
Sou fogo, mas cobre-me o frio do incerto
Sou frio, mas aquece-me todo o universo.

 

Os meus olhos, em silêncio, rasgam o breu
E o que não vejo lá em baixo não se move,
No entanto, faz mover o mundo e as coisas...

 

Ah, desesperado para ver o limite dos sonhos
(Olho com igual franqueza d’espírito o amplo)
Arremesso uma pedra, mas não ouço o fundo.

 

 

 

 

 

 

O VAZIO ALÉM DA SAUDADE

                        In memória a Dinda

 

Meu riso é só um ruído na casa vazia.
Minha saudade é um grito ecoando no escuro.
O meu olhar é simples e claro em sua tristeza.

 

Ausente a alegria e perdida toda a esperança
Choro rios de dores profundas e silenciosas

 

E retenho todas as lágrimas de angústia enquanto
                                   [morro afogado por dentro].

 

 

 

 

 

 

POR UM FIO

 

dois pássaros distraídos
no fio de alta tensão
a morte passando por eles.

 

 

 

 

 

 

A PINTURA NA PINTURA

 

o quadro gritando cores
na parede da sala
ganha asas e se move
como um pássaro ferido
para dentro do globo ocular
e tristes cavalos entre flores
feitas de cansaços e luz
ganham novos contornos
entre a forma e a perspectiva
alcançada pelo vislumbre
do sonho traduzido em cores
pelo traço forte dos pincéis.

 

 

 

 

 

 

DECLARAÇÃO

 

nas linhas da vida
o amor é um equívoco
a palavra que faltava

a declaração mais completa.

 

 

 

 

 

 

COLÔNIA

 

a (in)sanidade que faz gritar todo o hospício
que separa filhos recém nascidos de suas mães
que tortura com choques e incisões celebrais
que desnuda o corpo e alma dos pacientes
que abastece as faculdades com cadáveres
e encerra a liberdade à força atrás das grades
é a mesma que zela pela lucidez dos normais.

 

 

 

 

 

 

NO POEMA

 

de tudo
um pouco
se faz
de tudo
um pouco a mais
de tudo
que se faz

 

 

 

 

 

 

LÍNGUA DE FOGO

 

a língu
a do fo
go lam
beu a
encosta
do morro

 

sem so
corro
o morro
gritou a
noite inteira

 

quando
o sol  deitou
sobre as cinzas,
pela manhã

 

no  silêncio
seco do mato
queimado

 

a fumaça

 

ainda dançava
sobre os des
troços das
árvores nuas
de folhas

 

e de frutos
perdidos

 

no contato
quase
sexual
das chamas
Insaciáveis.

 

 

 

 

 

 

Amy Winehouse

 

A voz de veludo
O tom perfeito

 

A mansa transição
Entre os espaços
Complexos do ser

 

Jaz aprisionada

 

Definitivamente
No interior da boca
Da cantora morta
E enterrada

 

Sob o silêncio das flores.

 

 

 

 

 

 

Licença poética

 

A mosca pousa sobre a página do livro;
Parece querer extrair seiva das palavras.
(Paixão, desencanto, crime e castigo).

 

Peço desculpas a Dostoievski
E subitamente fecho o livro:

 

E como num passe de mágica
A mosca passa fazer parte da história.  

 

 

 

 

 

 

A longa objetividade das coisas

 

Breves são as flores,
Misteriosa é a resistência das pedras,
Indiferente é o vento que passa,
Despreparados são os homens.

 

Breves são os homens,
Indiferentes são as pedras,
Misteriosa é a resistência do vento frio que passa
Beijando de leve as flores despreparadas.

 

 

 

 

 

 

Cinzas do crematório

 

O fogo consumirá,
Tão logo aceso,
O corpo imobilizado,
Crestará os pêlos das axilas,
Das virilhas e das pernas,
Queimará os olhos
E todas as possíveis visões de beleza.

 

O fogo queimará a memória
E o coração já apagado.

 

Desnudarão o selvagem peito,
As chamas milimétricas.
Derreterá todos os contornos
De impossíveis perfeições
O hálito quente das labaredas
                            Incandescentes. 

 

O fogo queimará a pele,
Os músculos e os sentimentos,
 E se espalhará até acabar
Com as últimas vaidades...

 

Nem poder e nem riqueza
Tudo jazerá igual nas cinzas:
- O mais, por certo, se dissolverá
No tempo e na fumaça.

 

 

 

 

 

 

Frio e gelo

 

Ontem risos
              Hoje eu não sei.

 

Ontem abraços e beijos
Hoje gestos improvisados
Ontem uma vontade acesa
Hoje discurso de lágrimas

 

Ontem chamas pelo corpo
Hoje alguma coisa fria
Amanhã...
                        ... Nem isso.

 

 

 

 

 

 

Ao certo

 

Toda mão acaba presa
Pra escrever o verso livre.

 

 

 

 

 

 

Herzog

 

Em silêncio medito...

 

A revolução
Dentro do meu peito
Não foi sufocada:

 

Mãos
Grades
E amordaças
Não puderam me calar.

 

Um dia sei, e acredito,
Que em algum lugar
Alguém há de ouvir
O meu grito na história.

 

FABIANO SILMES é escritor, poeta, artista plástico, graduado em Produções Publicitárias e Marketing, pela Universidade Estácio de Sá-RJ. Em 2011, lançou seu primeiro trabalho literário: Comida para Bicho-Cabeça, livro de poesias, pela editora Multifoco. Atualmente, colabora em blogs alternativos e também participando de eventos culturais pelo Rio de Janeiro.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Paginação:

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