ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Meire Viana


Os anti-heróis do romance brasileiro da década de 70    

Apesar da censura nos anos de chumbo (ditadura militar no Brasil, de 1964 a 1985), a arte - em particular a literária - esteve em efervescente ebulição. No caso específico do romance dos anos 70, os autores foram além da vertente estética: buscaram se aproximar da referencialidade histórica. Esboçaram criar personagens envolvidos com a causa socialista. Uns protagonistas resistiram até o fim, entregando-se à morte, outros se perderam na reclusão ou na loucura. Os anti-heroís da história fazem um percurso contrário ao do pensamento burguês, típico do herói tradicional, com sua visão fechada de família, religião e Estado. O sistema é confrontado pelos ideais utópicos (e até românticos) desses militantes que querem mudar o país, mas acabam se perderam pelo caminho, como peças de um jogo de armar. 

 

        Como romance emblemático dessa geração destaco o Em Câmara Lenta. É de longe o livro que mais sofreu com o período ditatorial: foi censurado e o autor Renato Tapajós preso. Veio a público em 1977, em um momento de rigorosa censura aos meios de comunicação. Os protagonistas, ainda jovens e cheios de sonhos, integram um movimento subversivo, mas morrem pela polícia autoritária. A história fragmentada, repleta de elementos extraídos da linguagem cinematográfica, revela, por meio das ações dos personagens, sentimentos de impotência e inutilidade da luta, frente à máquina repressora. 

 

        O enredo transcorre em dois cenários simultâneos. Um mostra a guerrilha rural, comandada por um jovem estudante venezuelano. Último a ser capturado durante a fuga em plena Amazônia, resolve entregar-se à polícia. O outro ambienta a guerrilha urbana, centrada nos protagonistas "ele" e "ela" (para mostrar que viviam na clandestinidade, não são nomeados pelo autor). São namorados e parceiros de luta, até a jovem desaparecer, ser torturada e morta nos porões da ditadura. Personagens secundárias, como Lúcia, Fernando e Marta aparecem como peças de um jogo que vai se desfazendo ao longo da narrativa. A morte da anti-heroína faz com que “ele" perca todas as esperanças de continuar a acreditar no movimento (no caso o MR8). Em uma cena digna de cinema neorrealista, “ele” acaba morrendo também no final, como último sobrevivente, simbolizando que todo o gesto foi inútil.

 

        Os monólogos desalentados desse personagem se aproximam do herói trágico, no momento em que busca uma aprendizagem adquirida na queda. Seu discurso é o de um condenado. É o homem problemático mergulhado em um mundo também problemático, que sonha transformá-lo (conceito de Georg Lukács, no livro Teoria do Romance), mas é vencido pela força esmagadora do poder militar linha dura.   

 

        A trajetória de lutas de "ele" começa cedo. Recém-chegado a São Paulo para prestar vestibular, já sentia a necessidade de mudar o mundo dentro da escola: “A agitação era intensa, cartazes espalhados pela parede e colunas. Procurou algum colega. Ele pretendia se engajar em alguma coisa.” "No colégio todo mundo achava que eu era comunista. Eu não sabia muito bem o que era isso, mas achava bom". Com o tempo seu engajamento político começou a ser levado a sério: "a brincadeira se transformou em vida, a disponibilidade em compromisso". Aos poucos passou a ser um ideológico convicto: “Eu não quis permanecer na superfície da vida. A única ambição legítima é a de mudar o mundo. Todas as outras são mesquinhas". Palavras de ordem como "liberdade", "revolução" e "socialismo" despertavam a um só tempo fascínio e medo. Os movimentos estudantis foram os primeiros passos para entregar-se à causa revolucionária.

 

        Mais tarde, ao sentir o peso do fracasso da revolução, "ele" passou a questionar o sentido da luta de classe. Após saber da morte da companheira desaparecida, o anti-herói sofre sua morte interior: Agora estou aqui diante das verdades sangrentas, das verdades ácidas, da única verdade que destrói, que corrói, que desmembra e esmaga. A verdade de uma única palavra: falhamos.

 

        As passagens no texto em que “ele” a descreve assumem um ar de lirismo, que se equilibra com a dureza das cenas de tortura, mostradas em detalhes para o leitor. O conflito entre vida e morte deixa transbordar, na narrativa, uma forte carga pessimista, mas também poética: "Será que você sabia o que queria, companheira? Ou procurava tão-somente o carinho, a ternura negada?" 

 

        A tomada de consciência da aprendizagem se mistura ao tom de revolta: Não admito e não permito que ninguém admita que todos os gestos foram sem sentido, que todas as mortes não serviram para nada, que a morte dela foi inútil. Eu sei que o gesto estilhaçou-se, não se completou, ficou a meio caminho. Não pode ser apagado, tornando-se inexistente, esquecido. Mesmo errado, valeu a pena.

 

        A morte dela o conduziu ao definhamento físico e moral. O destino dos outros companheiros - peças já dispersas do jogo de armar - também passou a sinalizar para a inutilidade da luta. Despreparados e imaturos, talvez não conhecessem o medo até se depararem com o inimigo: Onde estão todos aqueles que começaram? Alguns estão na cadeia. Ela não teve chance. Fernando está morto. Lúcia exilada.

 

         Outros também desistem por medo e insegurança: Eu não quero morrer, entende. Ou você se enquadra ou ... [...] Eu tenho vontade de explodir o mundo, pôr uma bomba no viaduto do Chá, qualquer coisa. Mas eu tenho medo, sei que não adianta. O que é que eu posso fazer? (...) eu, Ricardo, sou um pequeno-burguês medroso, desesperado e sem perspectiva.

 

        Falhar foi o reconhecimento do gesto inútil: Mas será que o gesto feito foi o gesto certo?, gesto esse repetido à exaustão, a cada companheiro perdido. Morrer soou como o último ato e uma resposta aos que oprimem, torturam, matam. O gesto significa Um movimento de milhões de mãos que sabem para que é e para que serve o gesto e então tem força necessária para derrubar, destruir, arrasar tudo e construir.

 

        E o discurso desalentado do anti-herói, última peça de um pequeno quebra-cabeças que não faz mais sentido-  segue até o final. O gesto derradeiro de morrer servirá de legado aos que virão: o último sobrevivente de um exército derrotado e vitorioso porque nossa derrota mostrará o caminho e esse caminho conduzirá os outros.

 

        Ao ver os companheiros morrerem, resolve homenagear os vencidos, acolhido também pela morte:

 

        Mesmo que não acredite mais, é a eles que pertenço. A eles, aos heroicos, generosos, honestos combatentes da derrota. A morte na derrota, o combate inútil até o fim, tem a grandeza desesperada de todos os gestos definitivos. A única escolha aceitável é a luta e quando não se pode lutar, a morte. (...) Estou marcado pelo sangue, marcado pelo compromisso de ser fiel aos que acreditaram como eu e talvez eu seja o último daqueles que começaram isso e por isso eu irei até o fim, qualquer fim.

 

        A história se encerra com o discurso final, às portas da morte iminente, quando está em um determinado ponto e sabe que será seguido por um policial:

 

        A vida é apenas, hoje, um adiamento da morte próxima, uma pausa entre quem sobrevive e aqueles que já morreram, porque eles levaram o que havia de futuro.

 

        É na morte que o anti-herói encontra uma espécie de conforto moral: Cada pessoa tem sua morte familiar, aquela tão próxima que não pode ser esquecida, nem consolada, nem substituída.

 

        O presente é o auto-registro da morte anunciada pelas lentes de seus próprios olhos, como uma câmara a guiar seus passos: Acabou o passado e acabou o futuro e existe apenas uma esquina a ser transposta. O ódio se transformou numa decisão fria e o cérebro é apenas uma máquina para registrar imagens e ordenar movimentos. Os revólveres estão aqui, sob a japona, prontos e fiéis. A esquina. O ponto é no meio do quarteirão, em frente ao bar. E eu já os vejo. Sei onde estão, animais estúpidos.

 

        A deserção definitiva se transforma em ato heroico, agora pelas lentes do narrador-observador:

 

        A rajada da metralhadora o atingiu no peito lançando-o contra o muro. Uma outra bala calibre quarenta e cinco acertou em sua boca, saindo pela base do crânio, jogando sangue no muro. Ele caiu para a frente, sobre a calçada, os braços abertos, as mãos ainda apertando a coronha dos revólveres. Diversas rajadas atingiram seguidamente o corpo, picotando-o e fazendo com que ele estremecesse ao impacto das balas. O sangue, como um rio, escorreu pela calçada em direção à sarjeta. A deserção definitiva tinha sido realizada.

 

        Para “ele” o jogo de armar está montado e forma uma figura ou jamais fará sentido.         Seu compromisso com os mortos, e com os que irão morrer, sela o cerco fechado a que se sujeitou esse tipo de herói dos anos 70, que soçobrou em seu fatalismo romântico.

 

       O autor, ao proporcionar uma dimensão lírica na sua história, faz uma reflexão acerca da vida e da morte. A referência do protagonista militante à amada morta faz transbordar a emoção contida, que a dureza do momento equilibra. O lirismo presente visa a realçar as qualidades estéticas do romance, em meio a cenas fortes de tortura. Essa técnica requintada faz com que o texto fuja de outros gêneros que tiveram êxito na época, como o documental O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira, de 1979. É na posição de vencido que se concentra a força poética do livro e se extrai a grandeza interior. O discurso do personagem carrega o gérmen dos heróis trágicos, porque conhece o fracasso e dele procura extrair alguma lição de vida que possa servir para os que também se encorajem a lutar.

 

        Outros romances que abordam - diretamente ou não - a atmosfera pesada da época podem ser vistos também em Bar Don Juan (1971) e Reflexos do Baile (1976), de Antônio Callado, Sinos de Agonia (1974), de Autran Dourado, Os Que Bebem Como os Cães (1975), de Assis Brasil, A Festa (1976), de Ivan Ângelo ou o romance neo-picaresco Confissões de Ralfo (1976), de Sérgio Sant'Anna. Vale a pena revisitar a trajetória individual dos personagens. A seu modo cada um arrasta o dilema trágico e o destino final dos vencidos.

 

MEIRE VIANA- Professora de Português e Literatura, com Mestrado em Letras, na Universidade Federal do Ceará e Doutorado em Língua e Literatura, na Universidade de Murcia, Espanha. É poeta experimental neoconcretista. Dialoga com o Concretismo, o Neoconcretismo e a poesia marginal brasileira dos anos 70. Autora da página Palabirintrusando. Tem poemas publicados em algumas revistas literárias eletrônicas e outros tantos inéditos para publicação em livro.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Paginação:

Nuno Baptista


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