ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


Ócio não é preguiça    

Ocioso rima com preguiçoso, mas é só, mesmo que os dicionários me contestem. Os dicionaristas perderam a memória dessa distinção semântica, é o que penso. Não se deve ficar preso aos limites de uma palavra. A língua, principalmente a nossa, é muita rica e oferece nuances outras que vão além do óbvio. A atividade e não o trabalho intelectual demanda estudo, investigação, até mesmo a tensão, mas igualmente necessário é o ócio que, para muitos, é condição fundamental para que os neurônios dêem fluência à criatividade. Contemplar, devanear, são verbos que puxam o fio da criatividade. Por isso substituo trabalho por atividade; trabalho é obrigatório, atividade nunca. Ou não deveria ser.

 

 Estarei argumentando quimeras? Não, não estou. E se estiver, o faço muito bem acompanhado. O escritor Viana Moog, por exemplo, fez bem fundamentada defesa do ócio como condição sine qua non para o bem produzir do intelecto. No livro Em busca de Lincoln ele deixa claro que a lei de Newton não ocorreu a Newton num momento de intensa ocupação, mas num instante de ócio à sombra de uma macieira. Arquimedes quando saiu nu pelas ruas de Siracusa a proclamar a relação existente entre o peso do seu corpo e a água extravasada na banheira, não vinha propriamente de um sítio de trabalho; saía, ao contrário, de um lugar muito apropriado ao lazer.

 

Se no plano utilitário da ciência, cuja utilidade é “conhecer, para prever, a fim de prover” as coisas se passam desta maneira, com mais forte razão hão de passar no mundo não utilitário da arte e do pensamento puro. De fato, com a Odisséia, a Divina Comédia, Os Lusíadas e o Dom Quixote ocorreu outro tanto. 

 

      O caso de Dom Quixote é típico, esclarece Viana Moog. A idéia do livro acudiu a Miguel de Cervantes na cela de um cárcere, lugar tão propício ao ócio quanto a cela de um monge. Enquanto se agitou como cavaleiro andante e se bateu em Lepanto, onde perdeu um braço e ganhou o apelido de “Manco de Lepanto”, a genialidade não veio à tona. Foi na inação e não como ativista, no silêncio e no ócio fecundo da prisão que lhe havia de acudir a idéia do seu imortal Dom Quixote. O que vem provar que, do ponto de vista do ócio, a cela de uma prisão como a cela de um mosteiro, quando desacompanhadas da obrigação de trabalhos forçados, têm sido extremamente propícias às obras primas. E aí temos ainda a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino para confirmá-lo.

 

Outra obra nascida no ócio carcerário? Memórias do Cárcere, que Graciliano Ramos escreveu enquanto esteve preso como réu sem crime durante a ditadura de Getúlio Vargas. Com ele sofreu penúrias no inferno da Ilha Grande, ambos punidos pelos esbarrões com a censura nazi-fascista cultural e depois dividiu espaço em apertado quarto de fundos, sem banheiro privativo, em uma pensão do Catete, o jornalista Vanderlino Nunes, meu tio, que também foi cerceado durante a ditadura iniciada em 1964. A amizade do escritor e do jornalista revive nas páginas do livro O velho GraçaUma biografia de Graciliano Ramos, escrito por Dênis de Moraes.

 

Mais um que, entre as grades, muito escreveu: Marques de Sade. Aprisionado pela monarquia decadente, pelos revolucionários de 1789 e até por Napoleão, o ateu pregador de estranhas teorias produziu algumas de suas obras dentro da Bastilha. E escandalizou o mundo pensante.

 

      Ócio não é descanso, indolência ou preguiça. Pode ser lazer, como prefere chamá-lo o filósofo Josef Pieper, na publicação Ócio, base da cultura. Só no ócio é possível a penetração e a compreensão e, com ambas, a ruminação de que falava Nietzsche. Em uma entrevista ao polêmico jornalista e escritor inglês Kenneth Tynan, o genial gorducho Orson Welles confessou que seu maior defeito era a accidia – palavra latina medieval para designar melancolia e preguiça. No catolicismo, a preguiça é um dos sete pecados capitais, mas o ócio foi isentado por Santo Tomás de Aquino, que citou a accidia e a definiu como “triste o bem divino, capaz de induzir a inércia agindo em bem divino”.

 

      Vamos à bíblia? Os que só enxergam dignidade na labuta diária não aceitam que Marta - prática e ativista -, não tenha sido a preferida de Jesus, que escolheu sua irmã Maria, propensa ao ócio e que ficava de alma atenta e receptiva aos ensinamentos do mestre, enquanto a operosa Marta fazia todo o trabalho da casa e preparava uma boa refeição. “Marta, Marta – disse Jesus, percebendo-lhe o ressentimento – estás ansiosa e afadigada com muitas coisas. Mas uma só é necessária; e Marta escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”. Marta e Maria, ambas de Bethania, mas Maria foi chamada de Madalena e até hoje discutem se ela foi uma fiel seguidora do Cristo ou se ainda deve ser apontada como prostituta. Já ouvi falas feministas que a citam como precursora na libertação das amarras femininas. Terá sido? 

 

      Não há margem para erros: o ócio só não é perda de tempo se houver embasamento cultural. Sem isso não há cultura, produção artística, nem filosofia, nem nada. O ócio só é fecundo quando precedido de formação educativa. Se apenas o nada fazer produzisse saber ou dinheiro, de há muito seríamos talvez o povo mais sábio do mundo e teríamos ascendido financeiramente ao topo das nações; mas nem com dinheiro nem com ociosidade extrairemos autêntica cultura de um país com tantos analfabetos, que se julgam sábios apenas por terem acesso aos tatibitates da internet.

 

Por isso, para o bem ou para o mal, advogo que o máximo prêmio que se concede a uma vida bem vivida é o ócio cum dignitate, se me permitem a presunçosa erudição.

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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