ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Celso de Alencar


A Poesia de Celso de Alencar: uma retrospectiva e dois poemas inéditos    

O poeta Celso de Alencar lança a partir de fevereiro O Primeiro Inferno e outros poemas, terceira edição – edição original de 1994, e Desnudo, pelas editoras Penalux e Quaisquer, no dia 07 de fevereiro aconteceu o primeiro lançamento em São Paulo, na Casa das Rosas.

 

A MÃE

 

Disseram que ela havia
morrido de tristeza.
No carrinho do bebê
não havia ninguém.
Os sapatinhos cor de rosa
que ficavam pendurados no carrinho
ela havia comprado na loja de roupas
para criancinhas recém-nascidas.

 

O bebê nunca tomou o sol da manhã.
Lembro-me bem dela empurrando o carrinho
sempre encoberto por um véu bem fino, delicado.
Um véu próprio para recém-nascidos.
Eram constantes os passeios com o bebê
pelo parque perto da rua onde morava.
Disseram-lhe que não havia bebê.
Ela então beijou o filhinho
e disse adeus

 

 

 

 

 

 

A ÚLTIMA NOTÍCIA DE TIA ETHEL

 

 
Foi de médico a notícia do desvio                                 
vaginal de minha tia Ethel.                                 
Foi figura popular em nossa cidade.                                 
A mulher da buceta torta.                                
Teve ela, ainda assim, uma dúzia                                 
de filhos, entre os quais, cinco estão mortos.                           

 

Tia Ethel já não vive.                                
Carregou na névoa uma absurda história                                
de lábios de madeira de lei,                                
pombos que não conheciam a arte do segredo
e longas feridas entre os dedos das mãos. 

 

Não se sabe ao certo a sua dor. 
Discreta, confinou-se no campo,                                
colhendo arroz, feijão, entremanhãs,                                
marcas de velas e cinzas da vida

 

 

 

 

 

 

A VELHA SENHORA BLASCHKE

 

Ah! Lá estava à janela, a velha senhora Blaschke.
Sobre o batente, dois novelos de lã e as agulhas.
Ficava ali observando os passantes, as conversas,
o movimento dos carros, as brigas dos cachorros de rua,
os galhos das árvores balançando.

 

Vivia assim.
Descansava agora.
Já não lembrava dos antigos amantes
nem das companheiras de alcova.
Já pouco lembrava da vida.
Bem menos, bem pouco, de mim.
Vivia triste e só, sem maquiagem no rosto,
sem pintura nos cabelos
e peles sobrando-lhe nos alvos braços.

 

Lá estava quando caiu debruçada
sobre o batente da janela.
As pessoas moradoras da rua chamavam-na
gritavam seu nome, senhora Blaschke! senhora Blaschke!
Por Deus, levante-se! levante-se!
Foram em vão os apelos para que se levantasse.

 

De repente pela janela saíram centenas
de canários belgas amarelos
numa revoada desordenada
numa cantoria confusa.
De seus corpos caíam penas
e foram se afastando, se afastando,
e desapareceram no meio das nuvens de chuva.

 

 

 

 

 

 

MULHERES

 

No grande interior do país
há mulheres que ainda constroem
suas próprias calcinhas.
São feitas sempre de algodão
e as mais belas trazem bordados
de florzinhas coloridas.
Elas cortam, alinhavam, costuram, com delicadeza
e as amam como se amassem a si.
Há mulheres que ainda usam pedaços de pano
para absorver o sangue da menstruação noturna
e há aquelas que têm corrimentos amarelados
expostos nos varais onde são secadas as roupas.
Ainda há aquelas em que não há gozo porque são ignorantes
e seus companheiros também são ignorantes
e veem as mulheres como depósito de seu lixo.
Não há mulheres que se beijem
nem mulheres que toquem seus sexos.
Há mulheres que matam suas próprias vaginas.
No grande interior do país
ainda há mulheres criando
suas calcinhas.

 

 

 

 

 

 

AMANHÃ

 

Que amanhã
mamãe não pise sobre
os grãos de arroz cru
bem menos
acenda velas no rodapé do corredor.
Que não ponha nenhuma
pedra vermelha na minha boca
e não me fale das tardes
em que o chão afunda
com todas as facas da cozinha.
Amanhã eu consertarei seus ossos
que se desarrumam à noite
e a levarei ao jardim
para lhe dizer
que os viajantes se tornaram maus
e que despedaçaram toda a claridade do dia.
Amanhã tudo será escuro profundamente.
Tudo será levemente morto.
Vou comprar, amanhã, uma blusa de lã
para minha mãe.

 

                                            

 

 

 

 

HOJE NÃO HÁ MORTOS

 

Hoje não há mortos.
As portas do velório estão fechadas.
Na calçada estão murchas as violetas.
O prédio todo se encontra às escuras e um
bem pequeno grupo de morcegos sai para os voos noturnos.
Sobre o telhado grasnam os pássaros
de penas cinzas, amarelas e pretas.
Hoje o velório está triste.
Não há nenhum movimento,
exceto o dos pequenos insetos nos banheiros
e o das árvores que jogam suas folhas delicadas no jardim.
Lá fora há um funcionário da guarda municipal sentado
numa cadeira de braços escutando o noticiário no radinho.
As lagartixas correm pelas vidraças.
Hoje o velório está triste.
Não há mortos.
Às vezes é assim.
Não há mortos.

 

 

 

 

 

 

A PEQUENA FLORESTA DA RUA KOPKE

 

É na noite profunda
que chega aos meus olhos
a pequena e densa floresta
da antiga rua kopke,
com seu velho carvalho florido
e sua ventania de polén.
Ninguém me ouve quando falo
da floresta da rua kopke.
Sobre o chão seco do carvalho
há uma mulher nua
com o rosto todo cortado.
Eu nunca entrei na floresta
da rua kokpe.
Sei que é pequena e densa.
Meu pai me diz:
Acalma-te. Não quero te levar ao doutor.
Ando tenso.
Sempre fico tenso quando escurecem as vidraças.
O quarto está abafado.
E eu vejo os seios cobertos com folhas secas,
os braços com as veias salientes,
as coxas brancas com um forte
arranhão de unhas na esquerda,
os cabelos loiros enfeitados com gravetos,
a vagina coberta com pano branco de limpeza de paredes.
Não vejo o rosto.
Sei que há uma mulher morta
na pequena floresta da rua kopke.
Os mortos andam comigo sobre as águas.
Eles buscam refúgio em mim.

 

 

 

 

 

 

JOSEPHINE COLLINS

 

Josephine Collins dormiu.
E dormiu duas vezes comigo.
Uma, quando o mar se agitava
e gritava com fúria de tubarões.
A outra, quando o rio corria
banhando e cortando as pedras.
Eu lhe disse
estão falando alto na sala.
Estão engolindo baseados,
rindo e bebendo vodka.
Mas dormiu duas vezes comigo.
Os morcegos comiam as frutas
das árvores que protegiam
a velha casa de madeira
e dormimos na cidade grande
e na cidade pequena
onde os campos eram protegidos
pelos santos discípulos de Cristo.
Não éramos discípulos.
Nunca fomos discípulos.
Agora, Josephine Collins dormiu.
Dormiu só.

Disseram-me.

 

 

Celso de Alencar, poeta brasileiro, paraense, radicado em São Paulo desde 1972. “Sobre Celso de Alencar, o poeta e crítico Claudio Willer, afirma que se trata do mais enfático poeta contemporâneo brasileiro. Escreve com furor messiânico, com a veemência dos profetas. Enquanto, o compositor e poeta, Jorge Mautner, o considera profeta da quarta dimensão, escandalizador e libertador de almas. Já o cineasta Carlos Reichenbach sintetiza: Celso de Alencar é, sem nenhum exagero, um dos maiores poetas brasileiros em atividade. Sua poesia blasfema e despudorada é da estirpe de Pasolini, Rimbaud, Leautréamont, Sousândrade, e todos os nossos malditos maiores. O artista plástico Valdir Rocha é taxativo: loquaz, perverso, mordaz, contundente, imprevisto, surreal, etc., e o poeta e crítico Carlos Felipe Moisés decreta: diabolicamente angelical ou angelicalmente diabólico. É reconhecido entre os grandes talentos da Geração de 1970. É autor de Salve Salve, Arco Vermelho, Os Reis de Abaeté, O Primeiro Inferno e Outros Poemas, CD A Outra Metade do Coração, Sete (com 25 xilogravuras de Valdir Rocha), Testamentos, Poemas Perversos, O Coração dos Outros, Desnudo.”

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Fevereiro de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Alicia Salinas, Ana Romano, Avelino de Araujo, Caio Junqueira Maciel, Calí Boreaz, Celso de Alencar, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Edivaldo Ferreira, Eduardo Rennó, Fabiano Silmes, Fernando Andrade, Fernando Sorrentino ; Rolando Revagliatti, Hermínio Prates, Inês Lourenço, Jorge Castro Guedes, Juliana Maffeis, Leila Míccolis, Leonora Rosado, Lisa Alves, Marinho Lopes, Meire Viana, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Nagat Ali, Octavio Perelló, Paulo Nilson, Ricardo Ramos Filho, Ronaldo Cagiano, Tânia Diniz, Ulisses de Carvalho


Foto de capa:

Quadro de Ismael Nery, 'O encontro', de 1928


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR