ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Octavio Perelló


O segredo de Simônides    

Não faz muito tempo, no século passado, o mundo conheceu duas grandes guerras, e desde então vive aterrorizado pela próxima ameaça.

 

As terríveis consequências – destruição e morte – fizeram com que o homem desenvolvesse uma verdadeira obsessão pela memória. O que, por sua vez, evoluiu para uma genuína vocação para a memória, que por seu lado o fez desenvolver a vocação arquivística que permeia conjuntamente a cultura e a evolução tecnológica, como bem observou o italiano Fausto Colombo em seu estudo “Os Arquivos Imperfeitos – Memória Social e Cultura Eletrônica”.

 

Numa percepção certeira o autor enumera as formas como o homem enfrentou essa obsessão.

 

Em primeiro lugar, a gravação, ou seja, a memorização de um fato em um suporte por meio de um registro (visual, acústico, audiovisual), que, quando transmitido, restitui o ícone do próprio fato. Em segundo lugar, o arquivamento, ou seja, a tradução do evento em informação cifrada e localizável dentro de um sistema. Em terceiro lugar, o arquivamento da gravação, que é a tradução de um registro, de uma imagem-recordação, de um ícone mnemônico em um signo arquivístico localizável no sistema. E por fim, a gravação do arquivamento, que é a produção de cópias dos signos já arquivados a fim de se evitar o “esquecimento”.

 

Portanto, por meio de técnicas e procedimentos que permitam o registro e a organização das informações, o homem vem dominando o desafio da perda da memória, que abrange a história de todas as manifestações culturais que se relacionam à sua vida, do sistema de dados administrativos, econômico-financeiros e de cidadania que regem sua vida em sociedade. Pois que, guardando sua memória pessoal e social, o ser humano parece sentir-se protegido do esquecimento.

 

Como é muito importante entender questões por certas relações comuns entre as coisas, aqui vai um relato deixado por Cícero no De Oratore, sobre a lenda de Simônides, mítica crônica do nascimento da mnemotécnica, a arte de desenvolver a memória através de exercícios apropriados ou métodos específicos:
“Chamado ao banquete do nobre Escopas para compor e recitar uma ode, Simônides canta hinos em louvor dos Dioscuros. Ressentido, Escopas, no momento de pagar ao poeta a recompensa prometida, entrega-lhe somente metade (...) para que peça o restante a Castor e Pólux, filhos de Júpiter. Pouco depois, um servo chama o poeta e convida-o a sair, dizendo que duas pessoas o procuram. Simônides sai da casa e não encontra ninguém, mas salva sua vida porque a casa desmorona, soterrando Escopas e os convidados. Os cadáveres estão estraçalhados, e o reconhecimento das vítimas parece impossível. Simônides, porém, lembra-se da colocação dos comensais no banquete e pode, portanto, restabelecer-lhes a identidade que há pouco parecia incerta”.

 

O segredo de Simônides é colocar as lembranças nos lugares exatos, para daí tirá-las nos momentos de necessidade. E qual é o nosso recurso? Qual o grau de preocupação e as providências que tomamos para lidar com a nossa memória pessoal e social? Como cidadãos e como sociedade, estamos preparados para incêndios, desorganização de dados e esquecimentos?

 

Octavio Perelló é escritor, jornalista e produtor de conteúdo. Autor do romance “Nem toda humanidade está perdida”, autopublicado em e-book para Kindle, pela Amazon, integrou a coletânea “Espanha”, publicada pela Niterói Livros, com o conto “Memórias de um Mouro”.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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