ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Henrique Dória


EDITORIAL: GREVES EM PORTUGAL    

 Portugal atravessa um período tão intenso de greves como só há memória nos tempos mais agitados após a revolução de 25 de Abril de 1974.


E, no entanto, o período difícil de ataque aos direitos elementares dos trabalhadores, nomeadamente a baixa dos seus salários imposta pelo governo do PSD/CDS, entre 2011 e 215, já está há muito ultrapassada. O salário mínimo em Portugal aumentou 20 % em três anos, quase sem inflação. Os próprios salários médios têm vindo a crescer em termos reais cerca de 3%  ao ano. Alguns direitos dos trabalhadores, nomeadamente à contratação coletiva, foram repostos, para além da reposição dos próprios salários.


O que se passa então para este enorme surto de greves que em mês e meio ultrapassou todas as greves durante o último ano de governo da direita do PSD/CDS com Passos Coelho? O que aconteceu para que a CGPT, central sindical liderada pelo Partido Comunista e outras forças de esquerda, se unisse à UGT, central sindical onde o Partido Socialista e as forças de direita, PSD/CDS, estão aliados?


A resposta é só uma: a luta política através dos sindicatos.


Aproximam-se eleições legislativas, e a CGTP  está agora a ser a arma de arremesso do Partido Comunista contra o Partido Socialista, cujo governo apoiou, com reticências, ao longo desta legislatura. Não basta ao PC mostrar as suas diferenças. O PC quer mostrar ao PS e às restantes forças políticas que pode não ter muita força no parlamento, mas que tem muita força na luta sindical até à paralisação do país, se necessário. E quer mostrar que se por um lado apoiou o governo, por outro lado está contra porque este não cede a todas as suas exigências.


Para fazer prova de vida e não perder filiados, Carlos Silva, o representante do poder do dinheiro nos sindicatos ( sempre apoiou o dono disto tudo, Ricardo Salgado, autor da grande fraude do BES) é também o ponta de lança do PSD e do CDS nesta luta cínica, levada a cabo por estas forças políticas que tudo fizeram para destruir os sindicatos, nomeadamente impedindo a contratação coletiva, onde reside a maior força sindical.


Há que por termo a todo este cinismo, e fazer com que os sindicatos desempenhem as suas funções que é a defesa dos direitos dos trabalhadores contra todo e qualquer poder, seja ele de direita ou de esquerda.


Para isso há que legislar em três sentidos:
Primeiro, tornando incompatíveis as funções partidárias e as funções sindicais, para que os sindicatos não sejam dominados por comissários políticos.


Segundo, limitando o número de mandatos nos dirigentes sindicais, para que o sindicalismo não se torne uma profissão e os sindicalistas  percam o contacto real com os trabalhadores que representam.


Terceiro, exigindo um número mínimo de filiados para que se constitua um sindicato, número esse que não deve ser muito inferior ao número de cidadãos necessários para constituir um partido político, impedindo que se criem sindicatos ( como, por exemplo, na Polícia de Segurança Pública) que existem só para que os seus pretensos dirigentes sindicais se furtem ao trabalho profissional.


Só assim o sindicalismo, tão necessário à defesa dos mais frágeis da nossa sociedade, poderá ser dignificado, respeitado, e ter a força que os trabalhadores e o país precisam que tenham.


HENRIQUE DÓRIA

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Paginação:

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