ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Caminhando    

Gosto de andar. Percorro diariamente, às vezes mais de uma vez, o caminho que leva até o metrô, cerca de seis quadras de minha casa, uns vinte minutos de percurso. Faço isso com certa alegria, observando tudo, atento aos pequenos acontecimentos cotidianos de quem vive na região, reparando nos verdes, aromas, jogos de sombras e, principalmente, nos coloridos das árvores, diversas, que se erguem nas calçadas. Tenho fascínio pelas julietas. Gosto do vermelho discreto de suas flores, um tom mais para o carmim, talvez, não sou lá muito entendido em nuances de cores, na hora de defini-las meu olhar geralmente revela-se tosco. O fato, contudo, é a atenção carinhosa despertada por tais plantas, comovo-me vendo-as delicadas, não tão grandes como os ipês, por exemplo, estes também deslumbrantes ao exibir amarelos e roxos, mas charmosas, insinuantes, femininas. Mesmo as brancas, mais discretas, mostram assim, vestidas de noivas, rendilhadas e ingênuas, juventude de jovem feliz, consciente da própria beleza, orgulho de princesa coberta de joias.

 

Eu sigo para o meu destino, mochila nos ombros pesada, cheia de livros, vida de professor é assim mesmo, a gente arrasta as aulas preparadas nas costas, apesar de estudarmos e termos na mente um roteiro mais ou menos resolvido a ser exposto, precisamos do apoio de nossos amigos. E como papel pesa!

 

As pessoas têm hábitos, acabamos conhecendo quem encontramos no caminho. Há uma senhora, por exemplo, e passo por ela sempre no mesmo horário, metódica ao conduzir seu cão, um desses pequenos, peludos e brancos, não saberia definir a raça. Todo dia passo por ela, o bicho preso na coleira, farejando cantos, indeciso quanto ao melhor espaço para aliviar-se. Já nos conhecemos de vista, chegamos a trocar boas-tardes. Às vezes ela se impacienta, algum afazer adiado, tenta agilizar as vontades do cãozinho.

 

- Vamos, Nelson, acabe logo com isso!

 

Passo por ela segurando o riso, acho divertidíssimo ver aquela coisinha minúscula, aflita para encontrar um “banheiro” ao seu gosto, com nome de gente importante, almirante.

 

Penso também no destino cruel do melhor amigo do homem. Não sei se conseguiria, com tanta precisão e determinação, fazer minhas necessidades cotidianamente guiado pelo ponteiro do relógio. Deveria haver liberdade de escolha para certas intimidades poderem fluir livremente. Embora seja uma pessoa afeita a costumes, vejo com estranheza a imperiosidade dos cachorros obedecerem ao desejo de seus donos e não aos seus próprios quando precisam evacuar. Imagino o desconforto de tal obrigação. Mas eles, mansos, cumprem o determinado e depois aguardam, paciente e pacificamente, suas fezes serem recolhidas em saquinhos plásticos, como se fossem troféus.

 

Sentado no banco do metrô, a caminho da universidade, delicio-me ouvindo a música ambiente, iniciativa por mim aplaudida desde o início, quando a companhia decidiu disponibilizar para os passageiros. Um solo de Miles Davis faz-me recuperar a fé na humanidade. Se alguém é capaz de tocar com tanta alma e sofisticação, talvez tenhamos algum futuro, não sejamos tão brutos, exista alguma esperança. Mas a alegria dura pouco. Lembro-me imediatamente de notícia lida ainda ontem, irão cortar aquele privilégio. Os funcionários e o público usuário não aprovaram o som nos alto-falantes dos vagões. Pergunto-me, infeliz, a razão. Por que as pessoas não gostam de ouvir chorinho, jazz e música clássica? E a resposta me ocorre com facilidade. Por serem chorinho, jazz e música clássica. O nível de alfabetização da população é muito baixo. Assim como somos, na grande maioria, analfabetos funcionais, evidenciamos sermos também analfabetos visuais e sonoros. Não distinguimos qualidade em pinturas e nem sabemos ouvir música. Pusessem nos áudios opções mais populares e quem sabe a aceitação fosse outra. Passo. Não me faria bem, seria insuportável aceitar o aperto da condução atulhada de gente ouvindo, por exemplo, um som sertanejo.

 

Fevereiro/2019

 

 

Ricardo Ramos Filho, é escritor com livros editados no Brasil e no exterior, publicados em Portugal e nos Estados Unidos. Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, doutorando no mesmo programa. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, onde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. Ministra diversos cursos e oficinas literárias na Escola do Escritor (literatura infantil, roteiro de cinema, poesia, conto e crônica). É roteirista de cinema com roteiros premiados, tendo ministrado curso de extensão na ESPM. Atua como coach literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. Cronista da revista literária eletrônica Escritablog, onde publica mensalmente. Participou como jurado de concursos literários: Proac, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Mato Grosso de Literatura, Paulo Setúbal de Tatuí. Curador do 1º Prêmio Nelly Novaes Coelho UBE de Literatura Infantil.  Sócio proprietário da empresa Ricardo Filho Eventos Literários, onde atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Quadro de Ismael Nery, 'O encontro', de 1928


Paginação:

Nuno Baptista


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