ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Ronaldo Cagiano


Histórias sobre o desconforto do existir    

 

Pródiga em revelar ao país e ao mundo um cenário musical que a destacou no ambiente artístico a partir dos anos 80 (com a explosão de bandas como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude), Brasília ainda está a merecer o devido destaque também como a Capital onde desenvolve-se uma produção literária do mais alto nível, desde os primórdios de sua fundação. Não é demais afirmar que a literatura brasiliense nada deve, em quantidade e sobretudo qualidade, ao eixo Rio-São Paulo, sempre hegemônico, monopolista e excludente, que só enxerga vida inteligente sob as hostes de seus holofotes. Vale destacar que, entre ficcionistas, poetas, tradutores, ensaístas, críticos etc, o potencial literário de uma cidade cuja identidade ainda vai se consolidando em 59 anos de existência, há inúmeros e destacados autores, do maior quilate estético, muitos deles premiados nacional e internacionalmente.
      
             Nessa galeria de escribas que honram as melhores tradições da prosa brasiliense, André Giusti, jornalista e escritor, é uma das vozes mais representativas da nova geração. Carioca radicado na Capital da República há mais de duas décadas, acaba de lançar seu oitavo livro, “A maturidade angustiada” (Ed. Penalux, 2017), um volume de onze contos em que está presente o olhar inquieto de um autor mergulhado na intensidade dos dramas e dilemas individuais e coletivos, centrando-se nas dicotomias da sociedade contemporânea. Inventaria questões e temas muito presentes nesse mundo e nesses tempos de re(l)ações descartáveis, sentimentos negligenciados e em que a virtualidade e os fetiches do deus mercado e de uma geração premiada pela alienação ou a falta de engajamento parecem determinar o rumo dos dias ou da vida.

               A realidade vigente, com todas as suas inquietações, mazelas, problemas e paradoxos, torna-se matéria e circunstância para um profundo (mas ao mesmo tempo bem-humorado e cáustico) mergulho crítico do autor. São histórias que, não obstante mapearem situações distintas, corriqueiras e humanas, são  encontradiças nos ambientes doméstico, urbano, funcional de qualquer tempo e lugar. Por isso mesmo comunicam-se ou dialogam com nossos fantasmas e obsessões, pois revelam atmosferas e ambientes muito parecidos em suas tensões e contradições, presentes na alma e no espírito dos personagens, porque dizem respeito a que nos é comum, com sua carga de verdade e ancestralidade.

                 Em “Lost”, conto paradigmático que abre o volume (diga-se de passagem com uma capa caprichada, sugestiva e simbólica a nos indicar um arquivo sensorial e existencial), o autor passa em revista a um sintoma contemporâneo: o mundo da virtualidade, da insularidade geográfica e íntima, essa doença do século provocada pela trágica ditadura da vida eletrônica, que criou uma geração de zumbis, em que o social e o humano escapam-lhes sem qualquer oposição. Um conto radical e que faz o leitor pensar no mundo que resultará dessa espécie de galáxia regida pela tecnologia, na linha do que já nos havia dito há alguns anos, com inegável propriedade, o saudoso escritor José Paulo Paes, que antevia o surgimento de uma outra realidade (a virtual), em que estaríamos condenados a um tempo de “vidiotas e internéscios”.

                  “O corredor”, por outro lado, contempla-nos com outra situação muito peculiar em nossos dias, a da tentativa do ser de compatibilizar o quotidiano exigente, corrido e competitivo com a saúde e o bem-estar a todo custo. Na expectativa de conciliar o mundo material com o físico e o espiritual, na busca de uma espécie de compensação para nossos esforços para vencer na vida, a tentativa de se fazer um meio-de-campo entre o corpo e a mente nem sempre resulta profilática ou satisfatória. No fim, restam infrutíferos os esforços para se alcançar o desiderato “mens sana in corpore sano” como resposta aos desafios da realidade, quando somos colhidos de surpresa pelas contingências e o inominável, ainda que a propaganda e os programas sinalizem recursos para driblar o stress de cada jornada.

                  Noutro texto que evoca, à maneira magistral de um Nelson Rodrigues, “a vida como ela é”, Giusti nos colocar diante de personagens comuns em suas vidas miúdas, em seu ser-e-estar imutável, gente que encontramos nas ruas, nas portarias, nos elevadores, nas compras, muitas vezes intangíveis, mas que compõem esse rico mosaico existencial. Nesse texto singelo, mas de uma poesia, crueza e humanidade a toda prova, “Gente como a gente”, o autor nos chama a atenção para a simplicidade (e também o lirismo) de tudo “isso que é comum a todos nós” e que tantas vezes olvidamos por culpa e obra da “insistente angústia da vida”, que oblitera a alteridade e lança uma capaz de invisibilidade aos que nos cercam. Em ‘Colégio Rosário”, uma típica história em que o conflito etário se estabelece em meio a uma insinuante relação professor x aluna, quando a mitologia que envolve duas épocas conduz a um flerte com valores e expectativas dissonantes, que só mesmo “a maturidade angustiada” de autor e personagem consegue espelhar(se) (n)os contrapontos e realizar uma coerente catarse.

                Despiciendo analisar cada conto, para não retirar do leitor a satisfação das descobertas e o prazer da leitura, porque em sua dimensão escrutinadora da condição humana, André Giusti soube trabalhar, com atmosfera e com linguagem, com repertório imagético e vocabular, um mundo repleto de situações. Uma sondagem do que é realmente essencial e profundo em nossas experiências, seja como escritor, seja como ser social ou político, transitando pela distopia, pela desertificação, a coisificação e o alheamento que tanto vitimam a vida nessa tumultuada aldeia global. São experiências e ocorrências ficcionalizadas a partir de seu registro das vivências do Rio e de Brasília, mas em cujos quintais o autor percorreu o universal de que nos falava Tolstói.

                 Nenhuma resenha cobrirá a amplitude que desponta dessas histórias, porque cada leitor diagnosticará a dor e a delícia que compõem a intricada natureza humana que aqui foi competentemente explorada, com a incisão ficcional de André Giusti. Um autor antenado com as demandas que nos atormentam e pleno domínio dos recursos narrativos, semânticos e metafóricos. Sua mirada cirúrgica disseca o “mondo cane” que nos cerca com suas perplexidades e toca-nos, crítica e reflexivamente, porque, como afirma a apresentação de Gerado Lima, nesses contos a  vida se faz “pulsar intensa através de narrativas que fluem com naturalidade e precisão”.

 

Escritor mineiro-brasiliense, vive em Portugal

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Paginação:

Nuno Baptista


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