ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Tânia Diniz


Contos Fantásticos    

I.
Passar do Tempo

 

O redondo relógio na parede marcava as horas de tédio que ele teria ainda que passar no casarão isolado. Pensou em algo diferente para se distrair e decidiu-se por um passeio pelo relógio antigo.

 

Esperou o momento do tic para subir por ele pois o tac parecia mais longo. E entrou no Tempo.

 

Encontrou-se em grande praça bastante movimentada. Pôde reconhecer em displicente bate-papo as Horas de Folga e as Horas de Lazer. Cumprimentou o Horário de Almoço que passava apressado com alguns Segundos Atrasados e caminhou ao lado do Momento Presente com satisfação. Este apresentou-lhe o Horário de Médico e a Hora Marcada, que o impressionaram pela sua loucura. Mais doido que eles só lhe pareceu o Tempo Contado. Se encantou com os Momentos Românticos. Sentiu a força da Hora da Verdade. Escondeu-se discretamente atrás de um ponteiro, deixando passar ligeiras as Horas Difíceis, pois não as queria conhecer nunca.

 

Acenou para as Horas Agradáveis e sentou-se num barzinho com a Hora do Lanche, figurinha interessante. Até ensaiou alguns passos com a Hora Dançante, ao ouvir o Soar das Horas. Conheceu ainda o misterioso Minuto de Silêncio, a sofrida Hora do Parto, que chorou ao partir, a fresca Hora do Banho e muitos outros. A todos indagou sobre a Vigésima Quinta Hora, mas ninguém soube informar-lhe com precisão.

 

Disse-lhe então, o Momento Presente, que era hora de trabalhar e empregou-o na Fábrica de Fazer Hora.

 

Divertiu-se muito a princípio, mas quando o Momento de Transição repreendeu-o por perder muito tempo, achou que já deveria ir-se embora. Pegou algumas perspectivas do Tempo Futuro, abriu a porta e empalideceu ao perceber que não iria mais a lugar algum. Pois, nesse meio tempo, atravessando a rua, inexorável, chegava a Sua Hora.

 

 

 

 

 

 

 

 

II.
Rico

 

Ele desejava as maiores riquezas do mundo. Construíra um grande museu as deixaria expostas a todos que quisessem conhecê-las. Já havia preparado tudo.

 

Tinha, em belas molduras, o perfume de frutas maduras, o cheiro da mulher amada, o voo de uma bailarina, o gosto do pecado e mil outras preciosidades. Uma redoma do mais puro cristal holandês onde colocara um coração amante. Estojos de veludo contendo constelações de estrelas das mais variadas formas, onde se destacavam as figuras do Zodíaco. Noites de lua, ventos e sombras frescas, contos de fadas. Uma sala inteira para a música e o prazer da dança. Um cantinho especial para as serenatas de amor. E tantas e tão belas riquezas, que não caberia enumerá-las. Faltava apenas completar o grande aquário, que ainda permanecia vazio, para a inauguração em badalada festa, que planejava.

 

Pegou então uma grande rede, tecida com todas as redes dos pescadores daquela praia e, no finzinho da noite, entrou no pequeno barco. Remou em direção à tênue claridade que indicava a chegada do novo dia, e quando as águas se tingiram de dourado vermelho, lançou a longa rede com destreza. E ali, onde ele nasce no mar, pescou o Sol.

 

 

 

 

 

 

III.
Tango

 

Andava inquieto, insatisfeito. Queria um prazer diferente.

 

Desde que acordara naquela manhã sentia-se assim. E andou por todo lado, procurando não sabia o quê.

 

Quando a viu, soube que seria com ela! Olhou cobiçoso sua formas fartas, de carne branca. Macia massa de doces águas, podia adivinhar.

 

Chegou com ela em seu quarto e preparou o ambiente, desarrumado pela sua insatisfação anterior. Jogou os jornais e revistas de cima da cama para o chão, colocou-a ali, desligou a tv, ligou o som bem baixinho e deitou-se nos sedosos lençóis azuis.

 

E pegando-a sôfrego, avaliou-a inteira com as mãos. Incontidas carícias.

 

Ansioso, mordeu-a com volúpia, dentes amorosos e suave língua-flor. Suspirava extasiado a cada pequena mordida, embora a vontade fosse dar-lhe grandes dentadas.

 

Ela derretia-se em delícias na sua boca. Sua carne sumarenta escorrendo-lhe excitantes sucos pelos lábios, pelo queixo, melando e perfumando sua barba.

 

Ele, voraz, não se cansava de lambê-la, mordê-la, quase que a engolindo. E arfante e sedento, busca-lhe o curto cabo no cimo da arredondada forma – seio frutífero em prazer – e bebe-lhe todo o sumo, suga-lhe todo o gosto e morde-lhe com mais tesão aquele cabinho ereto que se solta, enfim, e fica-lhe na boca como único vestígio da mais gostosa pera argentina que ele já comera.

 

Tânia Diniz é poeta e editora brasileira, reside em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Tânia Diniz. Graduada em Letras, pela UFMG (português, francês, italiano e espanhol). Poeta, contista, editora, promotora cultural, professora de idiomas, palestrista, oficineira , editora-idealizadora do mural poético Mulheres Emergentes, em 1989_ publicação trimestral de circulação internacional_ pelo qual já organizou 07 Concursos Internacionais de Poesia, Contos, Lendas e Ilustrações. Livros de contos: “O Mágico de Nós”, “Rituais”. Poemas:  “Mulher EmBalada”, “Bashô em Nós”, “Relato de Viagem à Marmelada”, “Flor do Quiabo”, “Série Preciosa”, entre outros. Trabalhos publicados em diversas antologias, revistas e jornais nacionais e estrangeiros, impressos e virtuais. Diversos trabalhos premiados em concursos literários no Brasil e exterior. Embaixadora Universal da Paz, Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix - Suisse / France, Poeta del Mundo. www.mulheresemergentes.com

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Paginação:

Nuno Baptista


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