ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Ulisses de Carvalho


Poemas    

dos devires

 

nada é.
tudo está.
o corpo que habito,
as chagas, as árvores,
as fachadas das casas,
das igrejas,
os lençóis sujos
dos puteiros,
a saliva dos monges,
as línguas bifurcadas
das cobras,
dos seres vivos
à matéria inorgânica,
tudo denuncia
a passagem do tempo:
existir é transmutar.

 

***

 

 

 

 

 

 

(im)permanência

 

meu corpo, a minha voz
meus tropeços, tudo em mim
será até quando,
um somar anuários
- de carne e osso
sou sujeito a durar pouco
(o que vinga a existência,
acesso ao infinito, é pedra:
em silêncio impondo sua forma, não murcha sob - ou sem - a água)

 

***

 

 

 

 

 

 

gataria

 

no vão daquela hora
em que a noite desaba
sobre o dia enegrecido
resta um outro segundo
para o tempo do mundo
guardar todos vocês
noutra madrugada
no meio do nada
pelas ruas vazias
encharcadas de sereno
sobre alguns gramados
em todos os telhados
um deles é branco
outro é preto
todos pardos.

 

***

 

 

 

 

 

 

rumo

 

não bordo com lantejoulas
as pontas dos meus pés
não penduro constelações
nas minhas extremidades
para continuar a viagem
nesta esfera rutilante
(rotunda a girar)
sob minha carne fraca
não bebo da água
de um deus do céu
nem apascento demônios
à luz dos raios das manhãs
só carrego mais ao fundo
a poeira das sujeiras
dos submundos das bagagens.

 

***

 

 

 

 

 

 

pareidolia

 

assisto ao final desta manhã:
sob o mesmo céu
os mesmos galhos
dessas mesmas árvores
balançam as mesmas folhas
(presas à vida)
e enquanto um velho
que fala ao telefone
carregando rugas
e sacolas
nas mãos
vai sem pressa
sei lá para onde
(uma cara de:
"Ivone, vou me atrasar
para o almoço"), penso:
nesta cidade do Sul
da América do Sul,
onde o velho e eu
dividimos o mesmo céu,
há um cavalo gigante
sobre as nossas cabeças
- sim, sou desses
que veem desenhos nas nuvens.

 

***

 

 

 

 

 

 

paradeiros

 

alguns caminhos
são tortuosos:
levamo-nos
(ou nos trazemos)
com lentidão ou urgência
- de tão labiríntica a vida,
nós nem sempre sabemos
onde (e quando) vamos parar.

 

***

 

 

 

 

 

 

antimatéria

 

antes de tudo, escrevo.
do contrário, apenas rabiscaria
papéis em um escritório.
contaria cédulas e moedas
em um banco.
ou trabalharia em uma repartição pública.
chegaria em casa às vinte horas,
faria a janta e assistiria
à novela,
a um filme ou ao jogo de futebol.
depois, sem pensar
em nada de mais,
sem chance para as lucubrações,
apenas esvaziaria da mente
o longo dia,
números, contas, asfaltos, obrigações.
veria a cama,
que seria somente uma cama,
fecharia os olhos e dormiria.
no outro dia, calçaria os sapatos,
escovaria o cabelo, os dentes,
tomaria o café da manhã
lendo o jornal,
que seria somente um jornal,
e voltaria ao local de trabalho,
talvez depois de brigar
com o relógio,
talvez pontualmente.
viveria assim, burocraticamente.
e enchendo-me de cotidiano,
até o limite onde eu transbordaria,
haveria o risco de em mim
ainda caber um novo hábito:
entre o céu e a terra,
enxergar apenas o que é palpável.

 

***

 

Ulisses de Carvalho nasceu em Torres, no RS, é geminiano com ascendente em escorpião, nunca soube o que queria ser quando crescesse, mas teve algumas certezas do que não queria depois que começou a cursar Letras, há muito tempo que sente a necessidade cíclica e ao mesmo tempo infinda de escrever, sobretudo poemas, alguns de seus poemas já foram publicados em blogs, jornais e revistas.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Foto de capa:

Quadro de Ismael Nery, 'O encontro', de 1928


Paginação:

Nuno Baptista


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