ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


A poética contida na troca de um pneu    

“Caminhando, movia-se como uma coisa”.
Graciliano Ramos.

“O caminho nos conduz somente para onde já estamos”.
Heidegger

 

 

Sei que a época é de carnaval (já estamos próximos dele), porém, por isso mesmo, resolvi ir à contrapelo do calendário, e publicar hoje uma crônica sobre um poema de Brecht. Quem gostar de reflexão, que me siga...

 

O homem caminha de um lugar para o outro, sem parar”, afirma o Prof. Dr. de Poética Manuel Antônio de Castro ao deter-se nas atitudes do personagem Fabiano, no livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. Após a leitura desta afirmação, aflorou-me à mente, de imediato, o poema de Brecht, registrando uma cena “comum”, “prosaica”, cotidiana, embora, por trás dela, exista todo um profundo questionamento sobre a realidade construída dentro do contexto agitado e frenético de qualquer local.

 

A TROCA DO PNEU

 

Estou sentado de costas para a vala.
O motorista troca o pneu.
Não amo o país de onde venho
Não amo o país para onde vou.
Por quê olho a troca do pneu
Com impaciência?
              Berthol Brecht
                                       


Nada mais “real” e aparentemente “concreto” do que a troca de um pneu, em alguma estrada de algum país, em alguma rua de todas as cidades. Este é o desvelado, o que se mostra, o que se vê. No entanto o poeta, direcionando-se ao velado, faz emergir, em apenas seis versos, a dimensão trágica da vida pós-moderna, na pressa estressante das pessoas que, desabituadas a escutar o silêncio, entulham de passatempos o seu tempo – um tempo subjetivo, cronológico, fragmentado. Através de tais “inofensivos” passatempos, há, não o passar o tempo, mas o passar pelo tempo de forma estereotipada, sem nada questionar, indo em direção contrária a ele na “corrida contra o tempo”, chegando à angústia quando se é forçado a parar, por alguns momentos, por causa de um pneu furadp em uma estrada que leva alguém, de onde para onde?

 

No livro Ensaios e Conferências, Heidegger inicia seu texto intitulado “A Coisa” questionando a medida da proximidade entre nós e os objetos que nos cercam. Para isto, observa que o distanciamento no tempo e o afastamento no espaço estão visivelmente encolhendo: uma viagem que levava dias, agora leva horas; e, em termos de comunicação, se uma mensagem era de início levada nos lombos dos burros, agora, pela Internet, pela rede, é recebida e lida em tempo real (tempo real? tempo real virtual...). No entanto, a supressão apressada do distanciamento não nos traz proximidade, porque proximidade não quer dizer pouca distância, assim como um grande afastamento não exprime necessariamente lonjura. No poema de Brecht, o homem está diante do carro, a alguns poucos metros do pneu e do motorista que o troca, e, no entanto, está muito afastado deles, isolado, ilhado em pleno asfalto.

 

Obrigado a parar por um momento na estrada e interromper a sua trajetória, a paisagem que o homem enxerga à margem (a famosa terceira margem de Guimarães Rosa) não é mais a habitual, aquela que ele está acostumado a “ver passar”, tal como um filme. Se é então movido a sair do automóvel (que, no dizer de Emmanuel Carneiro Leão, é coisa que a sociedade em rede introduziu, “modificando toda a paisagem humana”), ele, circunstancialmente obrigado a parar para refletir sobre o momento presente, de repente indaga: a pressa para quê? Para ir aonde? Ao vazio ou ao que foi esvaziado de sentido? Incomodado, perplexo, ele passa a questionar a possibilidade de ter escolhido o atalho aparentemente mais fácil, que é o de viver compulsivamente, roboticamente.

 

Uma simples trocar de pneus, dez minutos de “perda de tempo”, pode constituir-se no que a poesia precisa para desarticular a lógica-racional elaborada por toda uma vida, e questionar a estranheza de um andar destituído de horizontes, feito apenas de um presente imediatista, extremamente volátil e transitório, e de um menosprezo pela essência das coisas, vivendo o tempo todo afastado do que lhe é essencial: a memória, a memória do tempo. “Não é a ponte que se situa em um lugar. É da própria ponte que surge um lugar”, segundo Heidegger. Seguindo esse fio condutor, volto à pergunta formulada no terceiro parágrafo: que pontos uma estrada-ponte liga, de onde para onde alguém a atravessa? Qual a trajetória de quem nela transita?

 

Por um momento, o homem sente. Sente que está sendo enganado, ludibriado, e que está consentindo neste boicote. Sente/pressente que criou um tempo impessoal baseado apenas em suas tarefas, compromissos, ocupações e rotinas, delegando o ontológico (sua linguagem-memória-morada real) ao esquecimento – e como poetou Quintana, “a eternidade é um relógio sem ponteiros”. Porém, quando precisa necessariamente viver o já (o momento presente plenamente), sem ter como fugir dele, visceralmente exilado na própria ausência de sentido existencial, o homem à beira da estrada sente a inutilidade da impaciência, da ansiedade, da afoiteza, do nonsense que lhe fazem companhia, e é quando consegue vislumbrar uma outra dimensão: então desconstrói o tempo enquanto temporalidade, habitando, afinal, sua verdadeira morada enquanto ser-no-mundo, mesmo que só por uma fração de segundo e através de uma simples indagação lançada ao vento.

 

Bibliografia referencial:


CASTRO, Manuel Antônio de. As faces do trágico em Vidas Secas. In: Travessia Poética. Rio de Janeiro / Brasília: Tempo Brasileiro/MEC - INL, 1977.
BRECHT, Bertold. Poemas. Portugal: Campo das Letras, 1998.
HEIDEGGER, Martin. A coisa. In: Ensaios e Conferências. Petrópolis/RJ: Vozes, 2002.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo.  Petrópolis/RJ: Vozes, 2006.
LEÃO, Emmanuel Carneiro. Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, Universidade Veiga de Almeida, 2004.
HEIDEGGER, Martin. Construir, Habitar, Pensar. In: Ensaios e Conferências. Petrópolis/RJ: Vozes, 2002.
QUINTANA, Mário. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 2006.

 

Leila Míccolis, escritora de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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