ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Elisa Scarpa


Rio de azeite

Persiste uma claridade na manhã, a luz confunde-se com a do rio, o rio não tem nome, as chuvadas têm sido fortes, as margens estão almagradas, foi um dia de tempestade.

 

O céu parece um leque de aço, a aragem é fria, deixa os narizes irritados, o rio visto de longe parece, é, um fio de azeite pesado. Parece azeite e é, não do leve que alimenta as candeias e faz bruxelear tenuemente as chamas, mas do outro, que faz das chamas línguas audazes de garganta limpa e as leva a fazerem preces capazes de arrancarem ao esquecimento os mortos.

 

Este azeite é mais pesado e no entanto sobe da terra e rasa o céu quando tocado pelo vento. Toca  a terra e o céu, pisa firmemente o antes e o depois. A cada toque do vento altera-se, eleva-se, raspa o firmamento, dá-lhe cores e tons que cegam momentaneamente. Uma paleta de lenços de seda fina sem força para se manterem inalterá-veis, entrelaçam-se uns nos outros. Os sopros do vento vindo do nada desaparecem no rio perante os dedos de azeite que os colhem. Nem sombra de bonança! O declínio das encostas não é aparente, é evidente e exacto, uma multidão de grãos de terra foi deslizando e desliza a todo o momento, o desejo de se segurarem é fugaz, serram-se uns de encontro aos outros, procuram a consistência de um muro. Mas o sol sem força, apagado pela fúria da água, deixa uma luz calada e sibilina que não aquece e apenas permite ver o deslizar das margens sobre o leito de azeite.

 

Pedaços de taças de barro vêem-se no rio, sobem e descem desfeitos em toques suaves. Era bom que nevasse, que o rio congelasse, que o azeite catapultado das montanhas aos rebolões cessasse. Que o eco, coro, alarme de toda aquela gordura encontrasse um veio de respiração debaixo do gelo, e deixasse as pessoas recobrarem da ânsia de fugir às rudes provas da vida que se despegam do imenso céu que todas as manhãs irradia sobre as nossas cabeças luz, luz para que se olhe tudo: o azeite subindo as margens lavando os pés de algumas casas, já lavando os pés de algumas casas! Era bom que nevasse, que o rio congelasse, é bom que neve, que o rio congele, para que as pessoas olhem umas para as outras, e se aborreçam de morte com os focinhos próprios e alheios. Não não é o céu que dá a luz, é o riso que desce e sobe que vai alumiar as candeias, um mundo simples escondido atrás de complicações e horrores de pressupostos: ramos de azevinho no Natal, estrangulamentos na noite mais longa do ano, a imensa noite de Natal em que todos suspendem o bom-senso para poderem levar a noite a bom termo, uma pirâmide de asneiras, um chorrilho de risos e sorrisos de conserva motivados pelas mais diversas angústias para além dos maus estares gástricos provocados pelas empazinadelas de comida da grande ceia anual, que se torna também, num grande banquete anal, isto para aqueles que têm um bom e desimpedido trânsito intestinal, os outros sofrerão ainda durante mais uns dias de dores abdominais e cólicas que podem quase chegar à garganta, e poderão eventualmente tornar-se insuportáveis para os seus amados familiares e correlativos amigos do coração, que são quase sempre amigos de doação.

 

Nas casas respira-se o cheiro das belhoses inflamadas por aquele azeite tão espesso, inala-se a canela quente que as consome.

 

Para além das janelas está a escuridão, os vidros são ilustrações mecânicas que ganharam vida, veios e veios de gordura envolvidos por terra, pó e folhas que a tempestade lançou arbitrariamente no espaço. Não há espaço para alegorias, o céu está tomado! As folhas dos bosques, que se seguem à aldeia estão coladas aos galhos, a gordura não quer saber da saúde pública, sem sentimentalismos cai e cola as diversas matérias, uma luxúria plena de superfícies deslizantes a convocar uma nobre e transcendente dissertação sobre a adoração da infância.

 

O cheiro das belhoses é agradável assim como as chamas das lamparinas que aquecem. Mas o cheiro de tanto azeite aquecido oprime a respiração e traz o som das pegadas-torchas, traz o som delas até aos domicílios. As pegadas-torchas, aquelas coisas de que todos conhecem a existência mas das quais ninguém quer viver a existência.

 

As pegadas-torchas apontam para as casas e dentro as mentes acabrunhadas pensam que gostariam de ter futuro. O futuro é difícil de designar, há que ter cuidado porque há futuros que se podem, e até se devem ansiar, e outros, colossais, figuras de frontispício que se devem esconder, mesmo dissimular em trabalho calmo sobre o abismo.

 

O que é que vai acontecer a tanto azeite quando chegar o Verão? Vai aquecer, quem sabe mesmo incendiar-se. Vai ser difícil convencer alguém a vir trazer água às pessoas que vivem nas casas, e ninguém pode sair delas, mal ponham um pé na soleira da porta, escorregam até ao rio em menos de um ápice-átimo. E caem nele.

 

Pode um ser nadar em azeite?, à estimulação do medo, esse grande orgão sensorial, dar-se-á a contracção dos músculos, seguida da descontracção que permite comandar o corpo e conseguir chegar à margem? Mas para conseguir a acção desejada de subir a colina e chegar novamente a casa, não é necessária uma resistência heróica? Sem pevide de fadiga? Sem pevide de pânico?

 

Quando o medo passa a pânico, adeus à ponte necessária da sobrevivência. A contracção dos músculos torna-se uniforme e encontramo-nos perante um postulado sem feed-back. A velocidade da queda é vertiginosa, optimal, os resultados são óbvios.

 

A acidez do azeite ataca os olhos. Não há originalidade nesta cegueira dolorosa, nesta adaptação unilateral: o leito do rio adapta-se àquele corpo estranho, o corpo brevemente deixará de apresentar sinais vitais, nem respiração, nem movimento, nem bater do coração. Resultado: actividade nula. Não há isopatia que os salve! O azeite mata o azeite salva! Não há oportunidade de modificação espiritual ou, mesmo, apenas biológica. Os que quiseram experimentar tornaram-se tubos de ensaio, matéria inerte, sem poder de simulação, sem ânsia de ressuscitar, sem lampejo de out-put. Este Natal é uma teoria. Todos juntos porque não podem estar afastados, todos no ninho do lar, porque foram expulsos do exterior. Espaço concreto Y espaço abstracto Y.

 

Deduzem que o Natal vai ser até Março. É possível pensar que os mais abastados consigam sobreviver às pegadas-torchas. Que a dispensa deles esteja mais recheada, que as reservas de água que têm sejam mais abundantes. Mas ninguém esperava um Natal assim! É difícil calcular as reservas de sobrevivência desta gente. A singularidade desta terra faz dela uma presa fácil das pegadas-torchas, e ainda por cima são poucos, não parece que o sistema democrático tenha possibilidade de funcionar aqui. Eles são uma minoria, vinte, talvez, talvez vinte e cinco.

 

Havia uma família que estava para partir, não se sabe se o chegou a fazer. Tinham uma destilaria de álcool, na última casa, já próximo do bosque. Mas uma das crianças havia cortado um tendão do braço a brincar, e eles pensaram que seria melhor não viajar com ela assim. Eram conhecidos pelos desterrados, porque embora fizessem parte da povoação, estavam uns cinco quilómetros dela afastados. No quintal uma fila enorme de aduelas mal se via sob a camada imensa de gordura, que adstringindo à madeira e enchendo o espaço entre elas criara uma espécie de zimbório pobretanas. O zimbório de aduelas dá ainda mostras de um equilíbrio algo periclitante. E se ele tombar sobre a casa arruiná-la-á, e se os desterrados não tiverem partido teremos um zimbório de aduelas e carne!

 

A consequência deste Natal pode ser não haver outro Natal. Isto é o que pensam já algumas cabeças encerradas dentro das casas. O começo absoluto conheciam-no, tinha começado no dia 20 de Dezembro pela hora do almoço, a terminação-absoluta talvez a viessem a conhecer, mas não poderiam falar dela. Problemas senso-motores, diremos assim, os impediriam! Cada etapa de equilíbrio a viver nestas retretes gigantes, em que se iam transformando as casas a pouco e pouco eram etapas que deixavam adivinhar como seria a derradeira.

 

As janelas não se podiam abrir, porque se o azeite entrasse e empapasse o interior das casas, o perigo de fogo seria imenso, pois para se manterem aquecidos tinham que manter acesas centenas de lamparinas, o ar era oprimente, viciado pelo respirar de cada um. O lixo, o pó acumulavam-se, nem valia a pena tentar limpar. Enquanto os sacos dos aspiradores não ficaram cheios, ainda se foi limpando, mas depois, mais valia estar quieto, como destruir os sacos dos aspiradores cheios de cotão? Empilhá-los num canto não era solução. A atmosfera já sobrecarregada não poderia assimilar tanta porcaria. Ir à retrete era um nojo, para limpar os cagalhões que ficavam colados à bacia, usava-se azeite, mas por mais cuidado que se tivesse, a gordura saltava para o tampo, para o chão, e um ranho oleoso acomodava-se pelos aposentos em geral. Sentar o rabo na abertura da retrete era uma tarefa adúltera, difícil respeitar a conjugalidade: o rabo escorregava, as mãos iam em socorro e escorregavam também, e quantas vezes acabavam por obrar fora do buraco próprio.

 

O corpo era limpo com algodão e azeite, para que não cheirasse mal, o que tornava extensível a todos os objectos uma certa camada de gordura e um rasto subjacente de nódoas. Os lençóis da cama pareciam condimentos para ir ao forno, as toalhas eram adstringentes.
Uma melancolia sem filiação instalava-se.

 

Fome de secura e fartum de racionalidade. Conheciam a sua patologia, sem água 4 meses, sem o resto o resto do tempo.

 

As pegadas-torchas tornam-se mais audíveis à medida que os dias passam. Sabe-se que os dias passam pelo aumentar das manchas e pelo número de objectos que caem das mãos das pessoas cada vez com mais assiduidade. Ao retumbar das pegadas aproxima-se a música dos objectos que tombam a cada passo, que caem a cada toque. E à chuva que cai junta-se um léxico absoluto dum arqui-conhecimento de finitude. Não se ouvem estes azeitados!, estão calados, estarão a fazer instrospecção? Ou a queda dos vagalhões de azeite sobre as casas cobre as conversas?

 

A afasia feriu esta gente. Percebem o que os barulhos interiores e exteriores querem dizer, mas não são capazes de dizer uma palavra, nem mesmo de soltar um gemido, afincam-se nas poltronas e tentam não deslizar, enrodilham-se em mantas para ver se não ouvem o cair da chuva.

 

As crianças apresentam um hálito pouco fleumático a que os adultos respondem de forma igual, um hálito azedo. Os seus frágeis estômagos e fígados não aguentam tais percentagens de azeite, de azeite frito. Não se podem fazer cozidos, não há água. Só mesmo fritos. A saliva dos mais pequenos é uma réstea de gordura pardacenta. Os progenitores afastam-se deles apoquentados, anojentados. No íntimo esperam um torpedo libertador. São funestas as suas ambições? Sufocam de aflição perante tal saliva dos filhos, e as epidermes deslizantes não ajudam às carícias. Pegar uma criança ao colo é uma tarefa que carece de fixador. Os braços do pai ou da mãe deslizam do corpo dos filhos, deslizam, é pior que estar num bote com o mar encapelado. É uma fuga constante. As roupas estão de tal modo ensebadas que já não provocam atrito, são agasalhos de sebo, apertados contra massas escultóricas de manteiga. Os cabelos tiveram que ser cortados porque garroteavam os pescoços, fios, cordas resistentes que se emaranhavam nas gargantas e as apertavam até se deixar de ouvir a respiração.

 

Naquele sítio só havia privacidade dentro dos igloos de azeite, as pessoas canibacoabizavam-se, esmigalhadas por aquela intimidade sem pausas. O desfazer de se verem a todas as horas minava o estar. Gostariam de renunciar a tudo o que tinham, mas como abrir a porta? Sair? E deixar tudo para trás?

 

A colina até ao rio era um escorrega gigante. E o rio uma poça de azeite cada vez mais espessa. Despojados do exterior confrontavam-se com o seu próprio despotismo, a sua inflexibilade, o medo de perderem a autoridade. Não havia diferença entre os que viviam sozinhos ou acompanhados. A afasia que os acometera não os impedia de serem tirânicos. Os gestos eram surdos, desprovidos de graciosidade, a partilha dos alimentos desigual, a utilização dos melhores sítios da casa negligenciada, os que mandavam neles usufruiam, os outros obedeciam.

 

O rio ao receber a terra que deslizava da colina fazia foles, parecia que minúsculas bocas se erguiam e comiam rápidas uma terra completamente engordurada. A chuva parou durante uma madrugada, e veio um vento fétido forte. Às casas deixou-as intactas, mas o bosque foi caindo a cada rajada, sacudido com constância absoluta na terra empapada e lassa, o bosque soçobrava e foi deslizando, engordurado que estava, para o rio.

 

Lavínia vivia com a mãe numa das casas da povoação. Aquele cerco de dois meses e meio acordara-lhes a brutalidade outrora semi-adormecida. Agora que se viam aperreadas por quatro paredes  sentiam a maré da brutalidade a imergi-las. Sem mais nada para ver, além dos tecidos empilhados a um canto da sala, pegajosos e empoeirados. Sem mais nada para ver, além da máquina silenciosa, repleta de agulhas quebradas, que haviam sucumbido à gordura. Mesmo as usadas no cabedal haviam sucumbido. Sem mais nada para ver repoltreavam-se na brutalidade.

 

Aquelas duas costureiras consideravam-se uma à outra como excrementos da natureza, ansiavam a liberdade de não terem que se ver sempre, e quase tinham receio que os seus olhos pudessem matar, tão perturbadas se encontravam as suas mentes. Lavínia no início das chuvadas prendera um bocado de cabedal a uma das janelas, uma faixa com dez centímetros. Quando abrandava a chuva, abria a janela, a tira de cabedal soltava-se, ela apanhava-a depressa, antes que caísse no chão ou se enchesse de gordura por detrás. E olhava através daquela faixa, de dez centímetros por dez, via como estava a encosta e o rio. E depois tornava a pôr a faixa de cabedal grossa, porque ela cosera diversos pedaços para criar um cabedal espesso, que mesmo assim dava mostras de começar a amolecer.

 

Quando Lavínia nesse dia, por volta do meio dia, olhou a encosta, encontrou um rio diferente, estava escuro e parecia ter uma consistência dura, e sobretudo irregular, como se o leito estivesse enxameado de altos e baixos, dever-se-iam estar a formar as pegadas-torchas, não tardaria muito e as chamas irradiariam do rio, o volume de azeite deveria ter aumentado, e o próprio  rio resolveria essa saturação entrando em combustão. O fogo alargar-se-ia em auréolas fazendo de toda a colina uma grande bola de decoração natalícia, uma bola que desrespeitaria as leis da gravidade, e subiria, subiria até enegrecer as casas e arrebentá-las, ondas perturbantes de calor chegariam primeiro, e depois as chamas arderiam naturais e implacáveis, obsidiantes na sua necessidade de arder.

 

Uma torpe languidez invadiu-a, não a deixava pensar.

 

Uma destas manhãs, um destes dias, nesta espera que nada tem de tranquila, na languidez peganhenta que atravessa a casa, no espectro singular de um copo de água que vai ter que falar até ao fim a sua sede, e olha, olha para as paredes, para o tecto, olha para o tapete e vê nesta lânguida espera tão tranquila um silêncio entontecedor, e uma leve poalha quente e febril que vai pousando alegre, como música para tomar chá, sobre a gordura tão perfeita, sem atmosfera, sem terra , uma poalha que poisa sobre a pele e faz esquecer todas as carícias que o copo já conheceu, uma destas manhãs o copo estalará, e será o primeiro indício do aumento substantivo da temperatura.

 

O vento voltou, um chinfrim ensurdecedor envolve o bosque restante, os ramos crescem dobrados e partidos para o solo, raízes mais adiante e ramos novamente. No círculo desta árvore e daquela outra árvore, perpétuas e novas e fiéis aragens arrancam mais folhas, destroçam mais raízes. Caem ao solo e sobem folhagens destroçadas, o vento encapela-se, poças de azeite infiltram-se nas raízes, a gordura entoucinha os ramos, as árvores imensas perdem as suas carnagens, um cheiro a chumbo invade o vento. Lavínia está branca, olha a mãe no outro canto da sala, enrodilhada num cobertor. A mãe parece um cavalo velho deixado a pastar junto a uma velha estrada, e cujo dono não vai voltar.

 

Esqueço que ela existe, pensa Lavínia. Lembra-se de mim quando lhe convém. Mas não é essa a suprema habilidade da natureza, combater o inútil? Para quê lembrar os outros se os outros não se lembram. Reciprocidade, encanto máximo de estabilidade, energia orientada, combate a qualquer espécie de desperdício.

 

Não te metas onde não és chamada! Não hesites perante qualquer tipo de perplexidade. Não percas a tua coluna vertebral. Como te podes manter sem ela?, um monte de carne a pedir ordem, uma porção de orgãos amontoados uns sobre os outros? Impressos das sensações dos orgãos alheios, derivadas dores? Quem é o reflexo de quem? Eu sou o reflexo da minha mãe? Não, perder a coluna vertebral não é bom, humilhações dispendiosas, atributos perdidos, integridade física em desperdício. E a  malevolência que uma tal perda provoca! Convulsões e convulsões de línguas, e saliva, em despique, na avaliação da tua vida. Espera pelo que dá sentido! Como  se pode dizer uma coisa destas, quando o sentido é um processo em transformação. Acredita Lavínia, o sentido é a mais aleatória das merdas. Um bocal jardim de poias. Uma etérea flatulência eterna. Um diospiro de diarreia para comer em jejum e cagar a seguir. Nada sobre nada igual a nada. Pertences ao grupo dos escolhidos, envolto em trajes brancos ou púrpuras, conforme a escolha da cor, fostes escolhida! Parabéns! Parabéns Lavínia, na próxima década estarás nas paredes das salas, dos quartos, das entradas. Não precisarás de publicidade, serás a essência do chique – serás o essencial. Não desdenhes dessa fortuna, antes durante algum tempo do que nunca, também não querias morrer? É um desejo pouco original!

 

A mãe parece mesmo um cavalo com lepra! Por causa de poderes morrer é que desejas ser a escolhida. Escolhida antes da escolha definitiva. Escolhida por algo que vês, que conheces e que admiras. E não por um antipático buraco de escuridão e silêncio. Em apoteose brinda-se com champanhe, no outro sítio não há sinais escolhidos! A divergência é total, mesmo quando anseias ir para o buraco negro por cansaço e dor, mesmo quando o Natal pode ter quatro meses, e aí onde é que fica a coluna vertebral? De repente passas a ser uma labrega com alma, uma astuta criatura cheia de predicados de compreensão. Compreendes que tens de acabar, abanar a cabeça a cada palavra sobre os mitos das últimas sensações, das últimas palavras, floresces para o fim da tarde, fitas o além de frente, com olhos apagados mas cheios de vibrato existencial e alguém dirá nas tuas costas – pelo menos não sofreu.

 

É tão bom compreender os outros, ler o indizível, ter um raio X incorporado e ver o esqueleto das coisas. Desvanescermo-nos em reflexões sobre a finitude, sobretudo quando a nossa ainda nos parece um mito. Só a finitude nos redimensiona!, muito bem!, aplausos! Sapatos de veludo com pom-pons e aplausos. Bolachas de chocolate para adormecer, calor, beijos, quero beijos, enquanto ainda estou quente!

 

Há circulação dizem os especialistas, há coração, há pulmões – temos que nos desvanecer com estas entidades, ainda que elas já não tenham treinador, e que nada as convoque para serem um todo, pertença daquilo que pensámos ser a nossa única propriedade: o corpo. – Pelo menos não sofreu, como é bom ser bondoso, talvez assim um dia possamos também não sofrer.

 

A mãe afundou-se mais no cobertor, Lavínia correu para a janela, abriu-a, uma corrente de ar fez estremecer a casa. Lavínia tirou a faixa de cabedal. O rio era um maciço de altos e baixos e a cor era difícil de definir, nem negra, nem verde, nem cinzenta, nem castanha, nem pérola. Olhou e tornou a olhar, divisava-se algo branco entre aquela miscelânea de cor. Era uma pessoa a olhar. Era uma pessoa, uma pessoa sentada no cimo de um dos picos, a cabeça era muito pequenina, mas via-se o traçado de um braço, dobrado em cotovelo. Devia ser um dos filhos dos desterrados que viviam ao pé do bosque. Um tinha-se ferido. Como era possível ele estar vivo e ali sentado, em cima do rio?, qualquer coisa que nele caísse afundar-se-ia. Uma criança era mais leve e podia aguentar-se?! Não, que estupidez! Era o bosque, desorganizado, partido e repartido, acostado e semi-acostado nas suas diversas partes. O bosque deslizava inteiro empurrado pelo vento, Lavínia pensou que gostaria de estar bêbeda, podre de bêbeda, para sair naquele preciso instante, virar as costas ao cavalo com lepra e deslizar até ao bosque que pairava sobre o outrora rio de azeite. Chegada a viagem ao fim da povoação saltaria para o outro rio, para o de água, e nadaria quilómetros e quilómetros até ficar absolutamente limpa. Era simples, a razão porque só aquela povoação tinha um rio de azeite, é porque ela funcionava como um tapete rolante, dava a volta por baixo, e as coisas surgiam do outro lado iguais.

 

O bosque passeava num passeio com retorno, e o azeite ia demorar muito tempo a consumi-lo. Porque é que o miúdo dos desterrados não havia saltado para o rio de água? Se calhar não podia!, com o braço ao peito devia ser difícil saltar! A mãe de Lavínia avizinhara-se da janela, enrodilhada no cobertor – Fecha isso, está aqui uma guieira que não se pode.

 

Ela fechou e tornou a colocar a faixa de cabedal.

 

Aposto que o cavalo com lepra vai esconder a cabeça debaixo do cobertor, depois de se deitar no sofá para dormir um pouco. Já nem a luz atura, já não me pode ver.

 

Lavínia pegou num gorro e numas luvas, abriu a porta. Viu-se envolvida por um érico-dófito-ígino-ópio fabuloso de bem estar, abriu a boca e viu o vento entrar e lamber-lhe a faringe. As excrecências gordurosas saíram de uma golfada, caíram, deslizaram como um feto fresco e verde pela colina, falaram como um papagaio, grasnaram sem sentido, um érico-dófito-ígino-ópio líquido percorreu-a, não havia picos naquela rosa! A mãe adormeceu debaixo do cobertor. Lavínia aterrou no bosque deslizante, não se magoou, as árvores eram suaves, o seu rabo fez POCULUM, PACLO, PUCLO, PUCRO, ela riu-se por causa do  som ser tão risível. Corou de pudor por tudo ter corrido tão bem. Levantou-se, ouviu-se um PU. E ela viu a alguns quilómetros a água  e a luz clara que a adormecia. O miúdo dos desterrados aproximou-se, encostou-se aos joelhos dela. Ela fez-lhe uma festa nos cabelos com a mão enluvada.

 

O miúdo estava a sangrar do nariz. Com a outra mão enluvada usando o polegar e o indicador ela estancou o sangue.

 

Ritaca, ruana, disse o miúdo.

 

E ela respondeu:

 

Não tem de nada.

 

 

Elisa Scarpa

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Flávio Sant’Anna Xavier, Adán Echeverría ..., Adelto Gonçalves, Amoi Ribeiro, André Ricardo Aguiar, António Vera, Carlos Matos Gomes, Elisa Scarpa, Eunice Arruda, Federico Rivero Scarani, Geraldo Lavigne de Lemos, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jandira Zanchi, Jorge Castro Guedes, José Ioskyn ; Rolando Revagliatti, entrevista, Leila Míccolis, Lenita Estrela de Sá, Leonardo Almeida Filho, Luanda Julião, Luca Argel, Luiz Otávio Oliani, Maria Emília Lino Silva, Mariana Sosa Azupian, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Octavio Perelló, Ramón Peralta, Ricardo Ramos Filho, Salomão Sousa, Túlio Henrique Pereira


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Le marchand de bestiaux', 1912.


Paginação:

Nuno Baptista


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