ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Eunice Arruda


A obra poética de Eunice Arruda, uma homenagem.

Retorno

 

Esse turbilhão que grita
agita
é gente
De coração
de mais tristeza - quem sabe - do que
nós
E a gente não ouve
não quer ouvir
Quer esquecer
quer não pensar
Mas a gente pensa

 

a gente envelhece muito quando volta

 

   [É tempo de noite. São Paulo: Massao Ohno Editora, 1960.]

 

 

 

 

 

 

Predição

 

Fazer da
busca o
ideal

 

Rasgar o ventre de
todas as noites
para encontrar
a aurora

 

O que não somos hoje
é o que há de nos
esmagar
            amanhã

 

 

 

   [O chão batido. São Paulo: Coleção Literatura Contemporânea, nº 7, 1963.]

 

 

 

 

 

 

Cantiga de ninar

 

Dorme
embora seja
sempre tarde
que a gente adormece

 

Mas ao som da noite
existe uma canção
fina e
triste
existe
para embalar o sono

 

Não o sono criança de
criança

 

 

 

 

 

 

Duas preferências

 

Isso
de você reconhecer
entre outros
o meu rosto
é que me faz feliz

 

De preferir dentre
todas as almas
a minha
para tornar infeliz

 

   [Outra dúvida. Lisboa: Panorâmica Poética Luso-Hispânica. Antologia,1963.]

 

 

 

 

 

 

As coisas efêmeras

 

Olho a tarde
a tarde
acaba

 

O amor o
amor
acaba

 

A vida
sim
é que é imensa

 

   [As coisas efêmeras. São Paulo: Brasil Editora, 1964.]

 

 

 

 

 

 

Invento

 

Invento poesia
porque não
existe poesia
e com
minha voz
lavro
essas terras áridas

 

Invento o sorriso
quando há rostos
em pânico e à
tarde que
morre invento o sol

 

Os mares recuam
navios abandonam
os portos e
passos solitários
habitam as
ruas
Mas é voz meu silêncio
meu sono vigília
porque invento
Ao tempo que
apaga da areia
rastros que um
dia foram passos
e apaga de mim
cicatrizes e lágrimas
invento a constância
com minha tristeza

 

Invento e
invento com
tal
esperança
que as flores desabrocham
se invento primavera
e meus ombros suportam
os caminhos que invento
Com as pedras de hoje
invento o amanhã

 

Assim invento
invento sempre
invento tudo o que faz reter em minha boca o
grito

 

   [Invenções do desespero. São Paulo: Edição da autora, 1973.]

 

 

 

 

 

 

Infinamente bom

 

Olhe o
céu
deste pedaço de
tarde

 

Lembra das nuvens
sombreando
as estradas de Minas

 

- Deus é infinitamente bom

 

Concede sono para
o cansaço
Lágrimas
para o desespero
Nem nos abatem suas
mãos de destino
Nascem das trevas
as visões coloridas

 

Continuemos
tateando

 

- Deus é infinitamente bom

 

   [As pessoas, as palavras. São Paulo: Editora de Letras e Artes, 1976, 1ª edição. São Paulo: Editora do Escritor, 1984, 2ª edição.]

 

 

 

 

 

 

Aspecto

 

a maturidade
chega

 

com a maturidade

 

 

 

 

 

 

O amigo

 


um caminho
certo: o
da
casa

 

 

 

   [Os momentos. São Paulo: Nobel/Secretaria do Estado da Cultura, 1981.]

 

 

 

 

 

 

Inicial

 

mudar a sombra e a árvore
da terra do mar mudar
ser par
mudar o risco e o cabelo
o lado de dormir e o de sonhar

 

 

 

 

 

 

Indispensável

 

Inventar com
passos
caminhos

 

Furar as águas

 

 

 

   [Mudança de lua. São Paulo: Scortecci Editora, 1986.]

 

 

 

 

 

 

Você
profundamente
lembra do
tempo

 

Em que nós fomos irmãos

 

 

 

 

 

 

Sulco fundo de arado
A terra aberta ferida
No entardecer vejo a vida

 

 

 

   [Gabriel. São Paulo: Massao Ohno Editora, 1990.]

 

 

 

 

 

 

Engano

 

afinal
construímos prédios
casas jardins rosas
desabrocharam
trêmulas, afinal fomos
submissos às ocupações do dia
         às estações do ano
         à rotação da terra

 

Pensávamos ser esta a nossa pátria

 

 

 

 

 

 

Quando

 

Quando eu
ia morrer
olhamos o mar

 

Os navios ancorados

 

Montanhas rodeavam
o calor atravessando
cortinas
quando

 

eu ia morrer

 

Li livros de sua
estante
folheei domingos
jornais
Respirei seu fôlego

 

Eu ia morrer

 

 

 

 

 

 

Lendas

 

Naquele verão
o amor brilhou
como um sol
coloriu minha pele
e meu corpo
ágil pássaro
redimido
averiguou o que foi plantado
                  o que foi colhido

 

O amor mostrou a face
em sua face
naquele verão
fortes chuvas molharam a terra
e a colheita se fez farta exata
harmonia
entre o que é fome e o que sacia

 

Naquele verão
o amor apertou minhas mãos
suavemente
o amor apertou minhas mãos
com as suas mãos
fortemente
me revelou a vida. Profundo
foi o encontro. Na despedida

 

 

 

   [Risco. São Paulo: Nankin Editorial, 1998. (Prêmio Fernando Pessoa da União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro/RJ).]

 

 

 

 

 

 

Agora vos

 

Agora vos reconheço
irmãos de tribo

 

Distribuindo
colares

 

Agora vos reconheço e
quero

 

O calor das faces coradas
o ao redor e a fogueira
- a comunhão
mastigando carnes - trêmulos
animais

 

Agora vos reconheço
irmãos
no úmido instante de ser

 

ninguém

 

   [À beira. Rio de Janeiro: Editora Blocos, 1999.]

 

 

 

 

 

 

Esqueci

 

o meu
caminho de casa

 

o sono úmido
útero

 

o nome dos sentimentos

 

as mãos
dadas às praças

 

as flores
as estações, esqueci
o rosto de minha mãe

 

   [Memórias. São Paulo: Escrituras Editora, 2001. (Poemas sobre xilogravuras de Valdir Rocha).]

 

 

 

 

 

 

Inverno

 

1.
Solidão no inverno
O velho aquece as mãos
com as próprias mãos

 

2.
Sobre a folha seca
a formiga atravessa
uma poça de água

 

3.
As águas - tão rasas -
mal cobrem os pés do menino
Córrego de inverno

 

 

 

   [Há estações (haicais). São Paulo: Escrituras Editora, 2003 - selo Programa Nacional do Livro Didático.]

 

 

 

 

 

 

Primavera

 

1.
Pausa na tarde
Pela janela entreaberta
aragem entrando

 

2.
Cabeça erguida
passos lentos para trás -
O menino e a pipa

 

3.
Dia tranquilo
Rompe o silêncio da tarde
o zunzum de abelhas

 

4.
Majestoso ipê
Um dia já foi semente                 
nas mãos de meu avô

 

   [Olhar (haicais). São Paulo: Dulcineia Catadora, 2008.]

 

 

 

 

 

 

Assim

 

Nada
devo pedir
Sei o que quero
não sei o que me
quer. Então
ergo o rosto ao sol
e sigo - visível - ao
destino

 

 

 

 

 

 

Então

 

As forças me regem

 

Me põem em um caminho
me afastam deste caminho

 

E eu vou provando o mundo
todos os lados
todos os gostos
até que rota exausta exata
as forças me entreguem

 

À outra roda

 

[ Debaixo do sol. Cotia/SP: Ateliê Editorial, 2010.]

 

 

 

 

 

 

Seguimos

 

Seguimos esta
viagem
Mas não sabemos o
nome
da próxima
estação

 

 

 

 

 

 

Nostalgia

 

Amo
os
casais
Ombro
a
ombro
Pisando a mesma calçada
Amo os casais que
atravessam
ruas
estações
Seguram as
mãos
não
o tempo
Amo
os
casais
Que permanecem

 

   [Tempo Comum. Ed. Pantemporâneo – 2015. Livro finalista do Prêmio APCA – 2015]

 

 

 

 

 

 

Felicidade

 

Chuva
forte

 

Os filhos dentro de casa

 

  [Poema inédito]

 

 

Eunice Arruda (1939-2017) nasceu em Santa Rita do Passa Quatro (SP), radicada em São Paulo, Capital. Publicou, em 2012, a sua "Poesia Reunida", pela Editora Pantemporâneo. Vem desenvolvendo atividades relacionadas à literatura como: oficinas de poesia, leituras públicas. Integrou a chamada "Geração 60" (SP, Capital), ocasião em que lançou seu primeiro livro "É tempo de noite", pela Massao Ohno Editora.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Janeiro de 2019:

Flávio Sant’Anna Xavier, Adán Echeverría ..., Adelto Gonçalves, Amoi Ribeiro, André Ricardo Aguiar, António Vera, Carlos Matos Gomes, Elisa Scarpa, Eunice Arruda, Federico Rivero Scarani, Geraldo Lavigne de Lemos, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jandira Zanchi, Jorge Castro Guedes, José Ioskyn ; Rolando Revagliatti, entrevista, Leila Míccolis, Lenita Estrela de Sá, Leonardo Almeida Filho, Luanda Julião, Luca Argel, Luiz Otávio Oliani, Maria Emília Lino Silva, Mariana Sosa Azupian, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Octavio Perelló, Ramón Peralta, Ricardo Ramos Filho, Salomão Sousa, Túlio Henrique Pereira


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Le marchand de bestiaux', 1912.


Paginação:

Nuno Baptista


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