ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Geraldo Lavigne de Lemos


Poemas

epifania na praça Cadete

 

o sol poente
      foi um tiro de canhão:
               bola incandescente
               que estilhaçou o céu como um vitral

 

estrelas caíram
sobre a praça Cadete
ao surgir a lua
no outro horizonte
ardendo ainda mais

 

era o tiro
      que voltava

 

quando vi,
                  já era tarde

 

 

 

 

 

 

a meu tempo

 

faço muito uso do quando
porque o tempo me parece inconstante

 

às vezes é água represada
por outras, atira-se como cachoeira

 

sabido desta verdade
não costumo confiar nas máquinas
pois meu tempo confunde os relógios

 

confio, sim, na linha da vida
que, tesa, dispara o carretel
e, frouxa, para-o

 

 

 

 

 

 

um céu todo branco

 

um céu de nuvem
o sol por trás

 

a nuvem arde
a chuva cai

 

cai a chuva
como a luz que sai

 

chove luz e água

 

apenas vejo os pingos
diante dos meus olhos
– a claridade esconde os demais

 

 

 

 

 

 

iluminado

 

perfeição
na terra
                 – não há

 

exceto o amor

 

peguei-me a pensar:
o nosso amor é semidivino
porque tem um quê de pecado

 

 

 

 

 

 

doze braças de memória

 

enquanto João equilibrava-se
entre ripas, ripões e peças
urdindo telhados
o garoto desbravava
o reino pitoresco
do Morro de São Paulo

 

as provisões buscava de barco
em Valença
charque, grãos e coisas mais

 

o café da manhã
pescava do mar
ainda madrugada
enganando lagostas com lampiões

 

aferventadas,
Quitéria servia com o escaldado

 

eram poucos residentes
e a exuberante natureza

 

o farol media doze vezes os braços abertos
e aquele lume guiaria Otávio
por décadas
resgatando a memória do garoto
e seu reinado

 

 

 

 

 

 

lufada

 

borbotões de vento
desfolham-nos
tombam-nos

 

rebrotamos
da raiz mais firme
do galho mais forte

 

desafiamos
a longevidade
dos ciprestes milenares

 

 

 

 

 

 

epístola da liberdade

 

a alvorada ostentou
um dia de vento, chuva
               e muitos raios queimados

 

o vendaval fazia penacho na cabeça das aves
o frêmito emudecia as cantigas do amanhecer

 

na relva
      o pássaro
            com o bico
                  apontou o céu
                        abriu as asas
                              e se lançou explosivo no ar
rasgou o vento com a ousadia do desterrado
projétil vigoroso
                     parecia querer alcançar o zênite

 

então,
           delineada a ordem
singrou austero
nos feixes de luz
           e nas nuvens que esvaeciam feito brumas

 

tutor das plumas solúveis
      pousou altivo
      no patronato
      das aves domesticadas

 

a gota d’água não se sustenta
nas asas
do pássaro silvestre

 

 

 

 

 

 

ocaso

 

revoada de andorinhas
imita monomotores
em esquadrilha exibicionista

 

vejo o sol baixar
      entre diversas matizes
no manguezal do Engenho com o Cachoeira
      o verde ressalta
            com suas mensagens

 

jandaias praguejam
escondidas na amendoeira

 

será que cupins alados
pousarão sobre o lastro
que me sustenta?

 

talvez seja mais um poente
talvez o ocaso
      seja o acaso em mim

 

 

 

 

 

 

constelações urbanas

 

a Terra brilha
no breu do espaço

 

bilhões de lâmpadas
traçam
infinitas rotas

 

as luzes das cidades
vistas do alto
formam figuras
e os astronautas inventam
constelações urbanas

 

 

 

 

 

 

atrito

 

seguro o jornal como quem apanha a notícia.

 

o movimento que faço com os dedos
mancha-os com a tinta. borro palavras
e aquela informação me suja.

 

a notícia parece volúvel, da mesma qualidade
da impressão. letras de contornos frágeis,
que qualquer fricção deforma.

 

abandono o jornal como que recusa a notícia.

 

 

 

 

 

 

chove

 

a água no vidro
tem o poder
de transformar
a paisagem
em uma pintura
impressionista
de Monet

 

borra a luz
e deixa nítido
o que dentro
               traduz

 

 

Geraldo Lavigne de Lemos. Poeta. Membro da Academia de Letras de Ilhéus. Autor dos livros “À Espera do Verão” (2011), “amenidades” (2014), “alguma sinceridade” (2014), “Massapê: solo de poesia” (2016) e “Poemas furta-cores” (2018), todos de poesia.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Flávio Sant’Anna Xavier, Adán Echeverría ..., Adelto Gonçalves, Amoi Ribeiro, André Ricardo Aguiar, António Vera, Carlos Matos Gomes, Elisa Scarpa, Eunice Arruda, Federico Rivero Scarani, Geraldo Lavigne de Lemos, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jandira Zanchi, Jorge Castro Guedes, José Ioskyn ; Rolando Revagliatti, entrevista, Leila Míccolis, Lenita Estrela de Sá, Leonardo Almeida Filho, Luanda Julião, Luca Argel, Luiz Otávio Oliani, Maria Emília Lino Silva, Mariana Sosa Azupian, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Octavio Perelló, Ramón Peralta, Ricardo Ramos Filho, Salomão Sousa, Túlio Henrique Pereira


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Le marchand de bestiaux', 1912.


Paginação:

Nuno Baptista


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