ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


Da inutilidade das boas intenções

Uma banda brasileira de rock deu o título de “Cemitério das Boas Intenções” a um dos seus trabalhos. Alguns dos títulos são elucidativos da inutilidade de contrariar a realidade: “A Gente Morre Sozinho". Pois é. Um outro, que não consta, mas bem podia constar é, ou seria: "À espera de um homem de bom coração”.

 

O Natal e as passagens de Ano são épocas de nos vermos caídos no cemitério das boas intenções. Num Todos os Santos de boas intenções, apresentadas com a melhor das intenções. Como as flores dos cemitérios.

 

Esta época de todas as boas intenções recordou-me o livro que Freud planeou escrever. Uma obra a que daria o título “O Livro de Cesário”.  Seria um livro que relataria o encontro entre poucos seres humanos questionadores dos chamados bons propósitos, bons valores, boas intenções, boas pessoas, enfim. Os participantes deste encontro seriam céticos, mas não tristes. A sua alegria viria da conclusão de que a crítica seria uma inutilidade.

 

O livro não criticaria guerras, nem fome, nem as misérias do costume por serem podridões evidentes, que se explicam por si. Não se pode falar mal do sagrado e para a humanidade o sagrado é o mal. Frases feitas e elogios são tão repetidos quanto inúteis. Não se luta contra o sagrado.

 

Segundo o planeado “livro do Cesário”, a nossa espécie nada mais é do que um fenómeno da natureza. E aquilo a que esta nossa espécie chama a sua consciência é uma excrescência não só inútil, mas perigosa. Uma mensagem de Ano Novo de um qualquer dignitário civil ou religioso é um riso de hiena. As únicas boas intenções que não são inúteis têm por objectivo destruir pátrias alheias, bens alheios, o lucro e o ódio.

 

Atrás das boas intenções sempre presentes nos habituais e rituais elogios à dignidade, ao respeito, à sinceridade e felicidade, as citações pomposas à liberdade, altruísmo, justiça, imparcialidade, generosidade, autenticidade, bondade ocultam-se na prática a desumanidade e barbaridade dos que as formulam.

 

A única utilidade que vejo nas declarações inúteis é a de cada um dos céticos, dos Cesários, desvendar, desnudar as intenções secretas dos homens que as proferem, dos que compõem as instituições ditas meritórias.

 

Freud nunca escreveu “O Livro do Cesário”. Era inútil. Os cegos e os surdos serão conduzidos ao abismo pelos pastores que há milénios lhes cantam hossanas e lhes prometem o paraíso. 

 

Um Ano Novo cheio de Felicidade (avulso), de Paz que não afete o negócio de armas, e de Saúde que não necessite de médicos nem enfermeiros.

 

 

Carlos Matos Gomes

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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