ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Luanda Julião


A ária das águas e a questão temos o direito de morrer?

 

“Uma UTI é como uma vitrine dos avanços da medicina, uma exposição do poder que o homem alcançou para alongar a vida através da tecnologia. Nela um paciente pode sobreviver anos ligado às máquinas que substituem artificialmente a função dos órgãos vitais. Entretanto, é também uma exposição da fragilidade do corpo e da repulsa com que encaramos a morte. Ricos no saber técnico, tornamo-nos tolos e pobres na arte de viver”.

 

(trecho do livro A Ária das Águas, editora Patuá, 2018).

 

Se pensarmos no fato de que a morte é natural entre nós, dá pra imaginar o barulho que ressoa quando falamos em eutanásia ou suicídio assistido. O debate sobre a questão da eutanásia acontece em tons baixos, numa voz fraca, quase inaudível em nossa sociedade, sendo um tema tão ou mais polêmico que o aborto. Os que optam em não esconder suas opiniões favoráveis à prática, sussurram seus juízos. É nesse cenário que o livro A Ária das Águas, da escritora e pesquisadora Luanda Julião, recentemente lançado pela editora Patuá, constrói o enredo daquilo que os latinos denominavam de “morte digna”, se é que assim podemos nos referir em nossa atual sociedade, onde o que se reverbera é uma luta desmesurada contra a morte, o dever de enfrentá-la corajosamente ou e às vezes até ignorá-la, mesmo sabendo-se quando ela se mostra à espreita, a vitória final já está dada de antemão.

 

O livro narra o drama de Paolo Savina, um maestro de renome internacional, mas um compositor mediano, que passou a vida toda frustrado com as críticas dirigidas a sua primeira e única sinfonia, composta ainda na juventude. O significado da vida de Paolo muda completamente com a chegada de uma doença terminal. Após diversas tentativas de tratamento, todas elas infrutíferas, o maestro e compositor opta por se retirar em sua chácara, onde com seus quatro filhos ele retoma a composição de sua segunda sinfonia.

 

Antes de Paolo se conformar com a iminência da morte e se reconciliar com a sua própria vida e com aqueles que estão à sua volta, o maestro, como qualquer ser humano se revolta diante do seu destino. 

 

Por que agimos assim? Porque um sentimento pungente de eternidade nos rodeia e nenhuma inteligência, por mais delirante que seja, consegue ignorar a condição em que está acorrentada: a da morte e do aniquilamento. Saber que a nossa existência não se insere no âmbito da necessidade, mas sim da contingência, gera um desconcerto no espírito, pois há em cada um de nós um desejo prolixo de duração perene, de perseverar no ser. A assunção do descompasso entre esse desejo e o fadado destino ao nada gera em nós agruras existenciais: quem sou eu perante o mundo que me ultrapassa? Será a vida mais que um vir a ser, uma mudança contínua ou será que a vida não passa de um hiato entre o nascimento e a morte, onde cada um preenche da melhor maneira possível esse átimo na duração?

 

As trapaças que respondem a essas perguntas podem ser articuladas de diferentes maneiras pela linguagem, pela ciência, pela religião, pelo senso comum, pela arte, pela filosofia, embora o sentimento de cesura em nós permaneça, como se nós, seres humanos, não pudéssemos olvidar de nós mesmos os padecimentos da existência. Sabemos que não se pode partilhar a experiência da morte. É a experiência mais singular e irredutível que alguém pode ter. O que sabemos dela é o que se vê de fora, obliquamente, por aqueles que são ceifados por ela antes de nós. É por isso que a ressonância que se tem dela é sempre impessoal, exterior. Mas mesmo vendo-a “de fora”, ela nos morde e deixa cravada a sua marca. Nesta ressonância, A Ária das Águas é essa mordida, essa cicatriz.

 

 

Luanda Julião é Doutoranda em Filosofia Francesa Contemporânea pela Universidade Federal de São Carlos. Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Autora das obras Fiar o tempo (Clube dos Autores, 2015) e A Ária das Águas (editora Patuá, 2018) Professora de História e Filosofia nas escolas da rede pública do estado de São Paulo na capital paulista.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Janeiro de 2019:

Flávio Sant’Anna Xavier, Adán Echeverría ..., Adelto Gonçalves, Amoi Ribeiro, André Ricardo Aguiar, António Vera, Carlos Matos Gomes, Elisa Scarpa, Eunice Arruda, Federico Rivero Scarani, Geraldo Lavigne de Lemos, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jandira Zanchi, Jorge Castro Guedes, José Ioskyn ; Rolando Revagliatti, entrevista, Leila Míccolis, Lenita Estrela de Sá, Leonardo Almeida Filho, Luanda Julião, Luca Argel, Luiz Otávio Oliani, Maria Emília Lino Silva, Mariana Sosa Azupian, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Octavio Perelló, Ramón Peralta, Ricardo Ramos Filho, Salomão Sousa, Túlio Henrique Pereira


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Le marchand de bestiaux', 1912.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR