ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Luiz Otávio Oliani


Niels Hav em dança entre a Dinamarca e o Brasil

 

A editora PENALUX cresce no mercado editorial brasileiro e também internacional. Trata-se, evidentemente, de uma casa editorial que abriga a literatura de qualidade. A prova disso é que vem a público agora “A alma lança em seu berço”, do dinamarquês Niels Hav, com tradução do inglês para o vernáculo, por Matheus Peleteiro e Edvaldo Ferreira.

 

No prefácio da obra, assinado pelo próprio Niels Hav, o dinamarquês salienta que só a poesia pode salvar os homens deste mundo desordenado, conforme se lê em: “A tarefa da poesia é reconstruir a linguagem e impedir que fiquemos malucos.” Isto porque, diante da impossibilidade de se viver, vinte e quatro horas, o caos, a miséria, a dor, a exploração do homem pelo homem, o poder da palavra literária promove um plus, um estar num mundo além da própria realidade opressora, por excelência. Niels Hav acentuou ainda, que “O desafio da poesia é ultrapassar esta zona de silêncio e falar sobre o que não pode ser falado.” Ou seja, o grande paradoxo está em trazer a tona as entrelinhas, o escondido que se revela por entre a leitura subjacente do texto, eis a beleza da poesia e da literatura.

 

Partindo da concepção de arte do dinamarquês, pode-se dizer que estamos diante de um grande poeta. Defini-lo em um estilo é tarefa das mais difíceis, porém, ao analisar o todo deste volume, algumas linhas mestras podem ser traçadas. No que concerne à estrutura do texto, tem-se uma poesia livre de amarras que transita entre o poema em prosa e a prosa poética. O que ratifica a tese exposta é o texto “Mulheres de Copenhague” o qual traz à tona um olhar lírico sobre as musas que encantam o eu lírico. Porém, para decepção dele "continuei por mais duras paradas antes de desistir./ Sempre termina assim: você sozinho / no meio-fio, sugando um cigarro, /derrotado e um pouco infeliz”. Sendo assim, os poemas mantêm uma intensa carga de coloquialidade, e a impressão que se tem é de que o autor está num bar, acompanhado de leitores, contando todas as percepções pessoais sobre o mundo através da arte da palavra.

 

A segunda linha mestra da poesia de Niels Hav consiste num intenso jogo imagético marcado por figuras de linguagens e intenso trabalho com as camadas fônicas, porém, é importante citar que o livro em voga consiste em uma tradução de outra tradução. E em que pesem os méritos de Niels Hav na elaboração da poesia imagética e sonora, cabem aqui as loas aos tradutores Matheus Peleteiro e Edvaldo Ferreira que, com grande conhecimento do vernáculo, souberam transpor para a língua portuguesa toda esta riqueza de detalhes. Basta a estrofe inicial de “Visita de novembro” para perceber a incidência da vogal “i” em jogos sonoros na formação de ditongos, como se nota em: “ Ele tinha começado a morrer. / Visitei meu pai no hospital, / ele estava deitado numa cama branca, limpa e / sinistra”.

 

As figuras que desfilam no texto são diversas e algumas colhidas aqui, entre metáforas, antíteses, prosopopeias, aliterações nos versos:
"O autoelogio geralmente é genuíno" (“Irmandade da panelinha”); "(...) na zona silenciosa / (...) anjos e demônios falam em coro" (“Diga algo”) ; "(...)a vida é totalmente / sem sentido" (“Todas as religiões são hipóteses”); "A dor gritava através dos ossos de meu pai" (“Visita de novembro”) e “A alegria é uma matéria tão frágil” (“Argumentos”), entre outros.

 

A terceira e última linha mestra consiste na abordagem humana dos grandes temas universais da literatura de sempre: o amor, a morte, a solidão, o fluir do tempo, tudo esta em Niels Hav, como se observa em alguns poemas, ora destacados a seguir.

 

A bestialidade, o se achar superior ao outro, a prepotência, podem ser vislumbrados em"A mentalidade humana", poema no qual Niels Hav se vale da metáfora de um hotel místico para caracterizar  todos que andam nele. A linguagem de alta voltagem poética encanta:"À noite tudo é administrado / por um Neanderthal"e o texto cresce com a figura de um gerente por quem não há o mínimo respeito, como se lê em: “Os demais habitantes do hotel não dão a mínima / para a autoridade dele.”

 

"Minha caneta fantástica" revela que a poesia é para os fortes, para os que se aventuram em meio ao nada. Se "Poesia não é para maricas", pergunta o poeta: "O que resta fazer com a nossa sensibilidade?" Só lhe resta escrever fantasticamente com a caneta que"cheira / levemente a mijo de cachorro"

 

"Poesia. & dinheiro" mostra o grande paradoxo do intelectual que não se vale do aspecto financeiro. No verso: "E isso dá dinheiro? Meus tios perguntam sorridentes" mas a resposta vai além da materialidade com que os não poetas se preocupam. E também no poema “Palavras no papel”, com cunho metalinguístico, às vezes, as reflexões sobre o ofício poético fazem o artista refletir sobre até que ponto isto seria positivo. Se antes disse: “Escrever é uma atividade totalmente fútil”, mais adiante observa a importância do ato para o próprio reconhecimento em: “Escrever livros é apenas uma / das muitas maneiras de entender a própria vida”.

 

O belo "Em defesa dos poetas" remete à expulsão dos poetas na república por Platão, como se Niels Hav buscasse uma justificativa para o poeta ser tão desprestigiado na sociedade. Se "Poetas são como crianças loucas/ que foram afugentadas de suas casas por toda a / família. / Reze por eles / eles  nasceram infelizes /(...) mas pode salvá-los."

 

Já em "Silêncio", fica evidente como os indivíduos se agarraram a conceitos, fazendo deles uma tábua de salvação, a ponto de crucificar quem pensa diferente. Nos tempos virtuais a prosopopeia dos versos finais resume a tônica do poema: "(...)nossos olhos falam / atravessando todo rancor e solidão".

 

         A sensação de estranheza, como o não pertencimento a um grupo, por conta de um idioma estrangeiro a um turista. Eis o mote do poema "Estamos aqui", quando se vive uma "grande comédia" na busca de informações não ofertadas, mas que geram uma gargalhada geral. Niels Hav debocha da própria postura de quem está fragilizado. Eis o papel da poesia: gerar reflexão, ainda que ironicamente.

 

A grandeza de um poeta está na forma, como ao dizer o que  todos sabem, julgam saber, ou  desconhecem. Os versos de "Amargura" ratificam a tese. Se o título é um substantivo abstrato, o poeta finaliza a primeira estrofe com uma metáfora/prosopopeia quando escreve: "amargura (...) é tóxica e tem uma cor desagradável", podendo-se fazer a alusão de uma sensação sinestésica ao final. E, num jogo de antíteses, há a genealogia de um sentimento humano com a qual se deve ter muito cuidado, porque"a amargura pode /crescer até um certo tamanho".

 

Ao tratar do grande tema da literatura de todos os tempos, Niels Hav imprime um ar original: "Amor é uma terrível / e fatal felicidade / quando chega com catástrofe, / luzes piscando e sirenes soando. / O tráfego para com apreensivo respeito." Ou que tal o poema"Amor", em que a indagação do sentimento abre o texto: "É uma palavra tão grande. / Ou me  engasguei com ela?/ Amor,o que é isso / afinal?"

 

E voltando a falar de afeto, através da figura paterna, o poema “Relógio de pulso de meu pai” traz à tona o lirismo que, ao mesmo tempo, enternece, traz uma saudade, mas é belo, por mostrar aos leitores o “carpe diem”. Em uma das estrofes, nota-se o ciclo permeado pelo amor a um objeto passado de geração a geração em: “Quando meu pai tinha minha idade, passava oito / horas por dia / no cemitério da igreja. Agora ele está lá / permanentemente. / Deixou para trás algumas pedras de lápides, cinco / filhos  / -e este relógio.”

 

Diferentemente do poema já analisado acima, em cujos versos se nota um traço saudosista, em “Encorajamento”, o que se percebe é um contrassenso ao título que engana o leitor. De início, poderá imaginar algo positivo, mas a leitura mostrará a consciência da efemeridade do tempo e da chegada da morte, independente dos seres. Ao final, a interjeição “Hurrah” soa como um brado diante da inutilidade de mudar o status final da cena humana: o fim.

 

 Um fluxo de consciência, à moda de Virgínia Woolf, em "Uma moeda" faz o personagem que cuida de uma idosa para ir ao banheiro o leva a imaginar vivendo tal situação no futuro. Ou ainda em "O sonho de andar de tamancos de madeira",no qual o simples é o desejo mais cobiçado. Ou em “Argumentos”, poema filosófico no qual se discute os rumos para uma sociedade melhor.

 

Assim é a poesia de Niels Hav, verdadeira, humana, genuína, capaz de fazer o leitor sensibilizar-se diante aos dramas da vida.

 

 

Luiz Otávio Oliani é professor e escritor. Em 2017, a convite da escritora e ativista cultural Mariza Sorriso, integrou a equipe de poetas que representou o Brasil no IV ENCONTRO DE POETAS DA LÍNGUA PORTUGUESA, em Lisboa, Portugal. Publicou 13 livros, sendo 10 de poemas e 3 peças de teatro. O título mais recente é: “Palimpsestos, Outras Vozes e Águas”, Penalux, 2018.

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