ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Octavio Perelló


Metáfora

Ela sempre passa aqui em frente. Desfila! – isso sim. É um momento do dia em que sinto que há beleza na vida. Beleza e elegância. E, de alguma maneira, o tempo parece parar.

 

Não tenho relógio para conferir se o tempo para mesmo, mas lembro de que estudei essa forma de uso das expressões. É o que se chama de metáfora, uma figura de linguagem em que uma palavra ou expressão dá sentido à outra, uma ferramenta linguística muito importante na comunicação humana. Por exemplo: quando ela passa eu sinto uma vontade de ferro. Isso quer dizer que a minha vontade é forte, forte como o ferro, o que passa a ter sentido comparável.

 

Gosto muito de saber regras da nossa língua. Falo um português correto, o que surpreenderia muita gente se eu tivesse voz. Eu quase não falo, ou não me deixam falar, tanto faz. Mas sei falar muito bem. Se eu tivesse estudado mais, se eu tivesse feito melhores escolhas eu seria professor e ensinaria muita gente a falar melhor, a escrever corretamente. Em nosso país isso é uma aberração. Gente para todo lado em posição de comando que mal sabe escrever e falar.

 

Quando tem crianças brincando por aqui eu fico observando o que falam entre si. Essa é a melhor fase para educar, quando notamos a repetição do que se escuta no ambiente em que se vive. Algumas vezes não me contenho e corrijo uma palavra ou outra. Elas até que se interessam. Não se incomodam com a minha interferência. Quem não gosta são as babás, as mães, as avós, que logo me olham atravessado e vêm tirá-las de perto de mim. Eu reajo a isso com educação, e é um dos poucos momentos em que posso tentar me comunicar humanamente. Digo a elas que fiquem ali com as crianças e eu saio. Vou para outro canto, quem sou eu para posar de dono do chão da praça ou nesga de calçada. O que não falta nessa cidade é canto para me jogar. Sigo meu rumo ou a minha falta de rumo e carrego o mundo em meus ombros, outra metáfora.

 

Mas não vou para muito longe. Fico na rota da minha musa, para vê-la passar de volta. Mal me acomodo e lá vem ela, carregando consigo muitas atenções. Mas ela não dá trela, passa sem sucumbir à sedução barata das ruas. Segue seu caminho pelas calçadas encardidas como se pisasse num lastro de estrelas em direção às galáxias mais inacessíveis e lá se fixasse para a minha contemplação. Quanta metáfora nesse parágrafo! Eu podia - e sempre penso nisso - disparar a frase mais linda que ela jamais ouviu por ali entre tantos paqueradores desqualificados. Tenho vocabulário e criatividade para tanto. Mas ela nem se dá conta da minha existência. O que não é de se estranhar, eu sou mesmo um farrapo humano, e isso já deixou de ser figura de linguagem e passou a significar sinônimo da minha condição de mendigo. Sou uma metáfora encarnada.

 

Octavio Perelló é escritor, jornalista e produtor de conteúdo. Autor do romance “Nem toda humanidade está perdida”, autopublicado em e-book para Kindle, pela Amazon, integrou a coletânea “Espanha”, publicada pela Niterói Livros, com o conto “Memórias de um Mouro”.

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