ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Marinho Lopes


A alma está morta

 

Friedrich Nietzsche escreveu “Deus está morto”, um aforismo iluminista que anunciava que Deus não tinha de existir para dar sentido à nossa existência. De facto, o Iluminismo trouxe uma nova Filosofia baseada no poder demonstrado pela Ciência em explicar a natureza. Ilustrativo disso mesmo, Napoleão terá questionado Pierre-Simon Laplace sobre o facto deste ter escrito um livro sobre o funcionamento do universo sem contudo mencionar o criador. Laplace terá respondido: “Je n’avais pas besoin de cette hypothèse-là.” (“Não precisei de tal hipótese.”)
De forma semelhante, podemos também matar o conceito de “alma”, “espírito”, “essência”, ou o que quer que se queira chamar àquilo onde reside o nosso “Eu”!


Quais as evidências para afirmar tal coisa?

 

A questão deveria ser invertida: qual a evidência para assumir a existência de “alma”?

 

A noção platónica da divisão entre corpo e alma assenta na ignorância dos nossos antepassados. Como referi na História do Cérebro (ver edição 46 da InComunidade), Galeno de Pérgamo (129 ~ 216) foi o primeiro a propor que o nosso corpo era controlado pelo cérebro, mas, nessa altura, a Filosofia de Platão já tinha quase meio milénio… As evidências tornaram a proposta de Galeno irrefutável, não obstante, isso não impediu que se continuasse a acreditar que houvesse algo “mais”. Porque é que queríamos “mais”? A resposta é clara para todos: a noção de alma permite-nos sonhar com a imortalidade da nossa existência.

 

Contudo, a nossa existência é o que é, independentemente daquilo que gostávamos que fosse. A verdade é que não existe qualquer evidência que suporte a hipótese de que existe alma. Mais ainda, tal como Laplace disse no caso de Deus, não existe necessidade lógica de tal hipótese.

 

Em termos lógicos, devemos sempre ter presente a “Navalha de Occam”, Lex Parsimoniae (Lei da Parsimónia): não devemos assumir mais do que aquilo que é estritamente necessário. A questão nunca é “como podes provar que não existe?”, mas sim “como podes provar que existe?”. Caso contrário, poderíamos assumir a existência de unicórnios, fadas, elfos, dragões, e toda a mitologia que se possa inventar dada a impossibilidade de demonstrar a sua não existência.

 

Ao contrário das fadas, sobre as quais podemos apenas afirmar que nunca se observou nenhuma, no caso da alma podemos dizer mais do que isso. Na verdade temos imensas razões para constatarmos que é uma noção difícil de conciliar com o que podemos de facto observar.

 

Como disse antes, na alma é suposto residir o nosso Eu; ou, se se preferir, o Eu pode ser encarado como uma reflexão da alma. No Eu temos consciência da nossa própria existência e individualidade. É nele que encontramos o controlador que pensa, processa e decide. O que distingue o meu Eu do seu? À partida apenas o simples facto de o meu Eu ter acesso à informação que o meu corpo recebe através dos meus sentidos, enquanto que o seu Eu recebe informação do seu corpo. De um ponto de vista externo, podemos apenas analisar as manifestações desse Eu nas atitudes da pessoa, isto é, na sua personalidade.

 

Se o nosso Eu fosse a expressão de algo incorpóreo então estaria a salvo das doenças que corroem o nosso corpo. Não é isso que acontece, como é fácil de perceber em doenças neurodegenerativas, como a Doença de Alzheimer. Este tipo de doenças ataca as células que compõe o cérebro e com isso comprometem o funcionamento deste órgão. À medida que a doença progride, mais e mais células morrem, o que resulta não só na perda de memória, mas também em alterações notórias na personalidade do indivíduo. Se existisse alma, ter-se-ia de assumir que a mesma estava a abandonar progressivamente o corpo? Ou estaria antes a tornar-se inacessível ao corpo?

 

As doenças mentais são em geral doenças cerebrais. Se por um lado constatamos alterações na expressão do Eu do indivíduo, por outro conseguimos encontrar as causas físicas que conduziram a essa alteração.

 

Provas não faltam, caso as queiramos encarar como tal. Cirurgias cerebrais, por exemplo, podem conduzir a alterações substanciais na manifestação do Eu do indivíduo. A título de exemplo recordo o famoso acidente de Phineas Gage (ver o meu artigo na edição 67 da InComunidade), bem como o caso do paciente Elliot (ver o meu artigo na edição 75 da InComunidade). Ambos mostram uma relação inequívoca entre personalidade e cérebro.

 

 

O advento de novas técnicas para medir a actividade cerebral veio trazer ainda mais evidências que mostram que os nossos pensamentos podem ser mapeados no cérebro. Uma dessas técnicas é o functional Magnetic Resonance Imaging (fMRI), imagem através de ressonância magnética funcional. Esta técnica permite medir o fluxo sanguíneo no cérebro, o qual está correlacionado com o funcionamento dos neurónios (ver “O Cérebro” na edição 73 da InComunidade) que compõe o cérebro: quando os neurónios “trabalham”, consomem oxigénio, pelo que precisam de ser alimentados pelo sangue arterial (que providencia o oxigénio). Assim, regiões com um maior fluxo sanguíneo são as regiões mais “activas” no cérebro. Esta e outras técnicas permitem-nos verificar que certas partes do cérebro ficam activas em função dos pensamentos do indivíduo. É aliás através desta correlação entre actividade neuronal e pensamentos que se estão a desenvolver tecnologias que permitem uma interacção comunicada pelo nosso pensamento. Jogos e dispositivos para ajudar pessoas com deficiência são duas aplicações que já existem. Por exemplo, pessoas com o síndrome do encarceramento (locked-in syndrome) que aparentam estar em estado vegetativo, mas que na verdade têm o seu cérebro activo, são hoje em dia capazes de comunicar através de uma interface cérebro-computador. A ideia desta tecnologia é simples: como quando pensamos em algo o nosso cérebro reproduz mais ou menos sempre o mesmo padrão de actividade neuronal, então basta “ensinar” um computador a entender um dado tipo de actividade neuronal medida com um dado tipo de resposta ou comando.

 

Nisto tudo não precisamos de assumir a existência de alma. Seria aliás contraproducente fazê-lo. Concluindo, até que se prove o contrário, a alma está e sempre esteve morta. Ou melhor, nunca existiu.

 

 

Tradução: “(1) Primeiro postulas que uma pessoa poderia ser uma alma, e se a alma era o que tomava as decisões, então essas decisões seriam livres. (2) Depois dizes que não existe alma, que somos apenas corpos e que são estes corpos que na verdade tomam as decisões. Portanto, por alguma razão, concluís que já não somos livres. (3) No fim chegámos exactamente às mesmas circunstâncias com que começámos, mas algures pelo caminho perdemos a liberdade.”

De forma similar, já me deparei várias vezes com a noção de que se aceitarmos que somos “apenas” o resultado de uma máquina biológica que tem a capacidade de pensar de forma “consciente”, tal nos limita como seres humanos. Onde está a limitação? Aquilo que somos e sentimos não muda em concordância com a interpretação que temos de nós próprios. A natureza consegue ser suficientemente complexa para desenvolver a presunção de uma complexidade que a transcende.

 

Marinho Lopes é Doutor em Física pela Universidade de Aveiro.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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