ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

André Ricardo Aguiar


A odisseia de uma vaca

Faz tempo que não tomo contato com vacas. Há muito que larguei a terra onde elas são bem capazes de, num passe de mágica, pastar.  No interior, a sensação é a paisagem. Vaca no pasto é como um design de interiores. E vacas não apenas produzem leite ou desfilam no capim fashion. A função também é dar um colorido à dimensão do campo, a singela ideia de que ali bichos e seres convivem entre si.


Com esta introdução leiteira e com o livro à mão, A vaca presepeira (prêmio Barco a Vapor 2018), da SM edições, passo a palavra ao João Paulo Hergesel, um bom ordenhador de histórias – tão jovem e com uma produção significativa. Ele começa a sua narrativa com uma agilidade visual que diz ao que veio: “Juno se concentrou, centrou o popozão com duas reboladinhas e se embolou num plano muito bem encaminhado”. Uma personagem vaca que trabalha como atriz no presépio vivo da fazenda. E que deseja, mais que tudo, trabalhar como rena de Papai Noel. Teremos, aí, em poucas páginas, uma aventura nos moldes de um  road-muuvie, um roteiro que colocará Juno numa série de peripécias rumo ao Polo Norte.
O cuidado têxtil com o texto todo empilhado de trocadilhos é uma grata surpresa. Ele parece curtir com o couro dos leitores. Não estica nem encolhe a trama, que é redonda como a personagem, e vai, de cena em cena, criando situações onde a fala dos bichos nunca é excessiva com gracejos e pirotecnias. Ainda mais, com o uso certeiro da persona de cada criação, sem forçar a barra, levanta cintilações do universo de cada um inserido no contexto funcional dos eventos festivos. A vaca Juno, de uma forma ou de outra, toma ciência do carnaval, da páscoa, das festas juninas. Em cada momento, uma série de piadas e ditos espirituosos faz crescer a ideia de uma história encenada por bichos dentro de uma lógica bastante prática: é preciso trabalhar sempre para angariar meios de conquistar as metas. E Juno não se faz de rogada, é uma vaca de além-curral: quer perseguir seu sonho, independente do abismo que parece separar vacas e renas.


Aliás, o universo de Hergesel é todo móvel, tirando o padrão das situações e movendo para outras, deixando a gente com a sensação de que nem tudo o que parece é. Nem todo capim é moita. Isto não tira o lado atabalhoado de Juno com sua força de vontade em ser o que quer ser, mesmo que mudando, por exemplo, as canções natalinas:


Vaca feliz!
Vaca feliz!
Meu marido
É um boi comprido....

 

Ou

 

Hoje a noite é bela
Sou a Cinderela
A vaca amarela
Fez eu me sujar.

 

Da fazenda para o sambódromo, Juno faz a escola de samba ganhar e é avaliada pelo coelhinho da Páscoa. Contratada, Juno prepara ovos de Páscoa, tem a atenção de João, um dos santos juninos, consegue trabalho de cozinheira (faz pipocas, canjicas, paçocas e pés de moleque) e com o que pode juntar de dinheiro, quase tem a quantia para a viagem ao Polo Norte. Mas ainda falta uma parte. Com a reentrada do amigo burro, temos o seguinte e delicioso trecho:


“O burro abaixou a crina e falou em voz de cúmplice:
- O pessoal aqui da fazenda já temia que isso fosse acontecer. Mas vimos seu esforço. Vimos que você deu o couro, o chifre, as fuças pelo seu sonho! Por isso a galera se reuniu e...
Ele esticou os cascos e mostrou o que havia ali: eram notas de dinheiro, exatamente a quantia necessária para complementar a de Juno e comprar uma passagem de avião para o Polo Norte.
- Vocês... vocês... – gaguejou ela.
- Sim, vaca. A gente fez uma vaquinha...”


E assim, de pequenos saltos e obstáculos a personagem mais simpática deste ano na literatura infantil atinge aquele patamar que todo criador, com rara sensibilidade, faz piscar de encantamento os olhos do público. Nenhuma lição didática, nem pieguice, nem personagens no pasto da mesmice. No singelo e inspirado A vaca presepeira descobrimos uma história que faz rir sem cair em facilidades. Hergesel entrega um produto de imaginação, uma pequena odisséia de uma vaca que quer entrar numa fria de propósito em busca de um caloroso final de aceitação, empatia e renas. Com as benesses do bom velhinho.
Enfim, um livro divertido em qualquer hemisfério da leitura.

 

 

André Ricardo Aguiar, escritor brasileiro, nasceu em Itabaiana, cidade do estado da Paraíba. Tem publicado diversos livros, entre eles “Alvenaria” (Editora UFPB), livro de poemas premiado em concurso. Pelo universo infantil tem livros como “O rato que roeu o rei” (Rocco) e “Chá de sumiço e outros poemas assombrados” (Autêntica), ambos selecionados pelo PNBE, o Programa Nacional Biblioteca da Escola, do Ministério da Educação. Pela editora Patuá saíram “A idade das chuvas” (poemas) e Fábulas portáteis” (contos). Criou o selo Fresta editorial com os escritores Marco de Menezes e Natalia Borges Polesso. É co-fundador do Clube do Conto da Paraíba.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Colaboradores de Janeiro de 2019:

Flávio Sant’Anna Xavier, Adán Echeverría ..., Adelto Gonçalves, Amoi Ribeiro, André Ricardo Aguiar, António Vera, Carlos Matos Gomes, Elisa Scarpa, Eunice Arruda, Federico Rivero Scarani, Geraldo Lavigne de Lemos, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jandira Zanchi, Jorge Castro Guedes, José Ioskyn ; Rolando Revagliatti, entrevista, Leila Míccolis, Lenita Estrela de Sá, Leonardo Almeida Filho, Luanda Julião, Luca Argel, Luiz Otávio Oliani, Maria Emília Lino Silva, Mariana Sosa Azupian, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Octavio Perelló, Ramón Peralta, Ricardo Ramos Filho, Salomão Sousa, Túlio Henrique Pereira


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Le marchand de bestiaux', 1912.


Paginação:

Nuno Baptista


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