ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Túlio Henrique Pereira


Poemas

Índigo

 

Tanta gente a passar pela gente
aí a galopes de ar
vendavais desse modo
depois a saudade

 

dos anéis de Saturno
um três de espadas:
sob a linha de sombras

 

Índigo.


 

 

 

 

 

Be-erre-o-BRÓ

 

Não chove a palavra,
escassez, pipa alça linha no verão diurno.
Assombrado, a florada e o meeiro...
O gosto da cajuína com sumo, corpo intento,
com o sorriso nas mãos,
abraço a vaguear confuso.


 

 

 

 

 

Ode a Rafael

 

Ismália lia o Salmo,
Brame o mar e a sua plenitude,
O mundo, e os que nele habitam
Na casa o quarto
na quinta o largo
prefeito de Farias:
o Desembargador Antero de Farias

 

Os seus olhos viram o desejo, Ismália
Euclides Dutra a segurar Romenita
apregoados à meia luz do cajueiro
aos estalos do templo,  na corda junina
na cola branca

 

a sequidão aflita em face da não trança à carne seca
Os poucos dedos do pelo do braço de Ismália
a ler o Salmo,
infante o mar e a lua em plenitude,
O luto, e os que nele habitam
Na casa o quarto
na quinta o largo
prefeito de Farias:
o Desembargador Antero de Farias

 

Emilinha e Hélio, Jucineide Dutra
apregoados à meia luz do cajueiro
aos estalos do templo,  na corda junina
na cola branca

 

Ismália lia o Salmo.

 

 


 

 

 

O corredor de sonhos

 

Vendo alma ao destro,
a casa
possui entintagem à beira
a casa
de fala macia

 

Era uma vez um Nordeste lento
de chuva cálida no breu, quando menino arreado

 

Era uma vez, no esteio, o barulho do vento
anis correntes
alma diluída em pormenores

 

Sentiu-se fluída, em casa!

 

Era uma vez quando corria aos berros:
-  Vendo alma ao destro!
- Vendo casa ao destro!
- Vendo beira ao destro!
- Vendo macio ao destro!
- Vendo pausa!
- Vendo breu!

 

Era uma vez,
Nordeste lento
Chuva cálida
Barulho intenso
Vento
Corrente
Esteio
Vendo!


 

 

 

 

 

Vozes no retrato

 

Cedo demais,
Para dourar o pão, as pinceladas de gema
os dezembros com fins de férias alegres,
Mas, os vizinhos sabiam:
ele morreu de Aids aos vinte e quatro anos.

 

Queria sonhar com abraço,
Mas, sexo era carinho errático
Possuía fluídos e visco

 

Queria dançar a música
Mas, os vizinhos sabiam:
Ouvia vozes em retratos

 

Quando viajou à Europa pela primeira vez,
dia acinzentado na tarde, brioche com amêndoa,
escreveu postais até aos inimigos da escola.
Não viu com as mãos a sensação da neve.

 

A descobrir-se pagão,
o pão e o sangue de Cristo no rito da igreja
as paixões a flamejarem distintas, sob a túnica vazia, uns suspiros
Mas, os vizinhos sabiam:
a solidão o consumia desde a infância

 

Queria sonhar a festa,
Mas, alegrias encerravam dezembros
a destruir o tempo com o sinal das horas

 

Queria indagar lamentos
Mas, havia a premissa do fato:
atropelo sádico, dia após dia.


 

 

 

 

 

Flor de Maio

 

Ela nasceu na Bahia, no novecentos e oitenta e quatro,
Mantém-se com o sotaque de Dorothy
assenta acinte
a despertar uns modos, óculos na praia, tapioca com orégano

 

Ela cresceu na Restinga, com o sotaque de Dorothy Gale,
Diz-se a Penélope sem Ulisses correndo asfalto
americana
americana do norte / norte-americana

 

Empanadas no café com as pontinhas dos dedos
ela não quer ser americana do sul / sul-americana
Ela não quer a Bahia, o Sul, a América

 

Cresceu na Restinga, com o solado dos pés espalmados
o sotaque de Dorothy, acinte, duns modo de praia
num frio de inverno incontornável, óculos de praia, orla

 

Na Bahia, a evitar o 13 de maio,
Ela passeia no Corredor da Vitória descontraída,
possui a América a percorrer o asfalto
o sabor do orégano a penetrar as papilas.


 

 

 

 

 

Acordes

 

Ao dia o sol claro
moscas tilintam ao calor
no chão que os empurra
os pés presos, amarrar os flancos

 

faz-se festas
ao bailar dos insetos,
Ogivas.

 

Na memória esmaecida
ofusca olhos sobre a protuberância da barriga

 

Era os anos oitenta e uns
de uns meninos fugazes
a correr descalços o passeio
ao dia claro o sol
o saber intenso.
Vespas não fazem mel!

 

Ogivas não tocam vitrola,
não possuem fome de gente,
às moscas!

 

A lepra a caminhar sobre as unhas
num dia manchado em Catete
a traduzir festas o rixento vilarejo
a diluírem humanos cotejados no tempo presente. 

 

 


 

 

 

La tête en fête

 

O homem branco de areia, ao sentar-se nu na esquina da Lisandro Nogueira e outra rua qualquer, uma canção de Roberto, um lero lero distante. O homem de areia balouça.

 

Não há emoções vividas num instante,
impressões sobre a cabeça a girar em festa,
o homem branco de areia ao sentar-se.
A rua Lisandro Nogueira de esquina,
de costas para a avenida canta.

 

Sur la tête, dans la fête,
O homem branco de areia would like to know
O homem branco de areia would like to go
O homem branco de areia would like to be
O homem branco de areia would like to see
O homem branco de areia.

 

 

 

 

 

 

Indolências

 

A Rua Coelho de Rodrigues tem vasinhos de cerâmica e terra vegetal,
asfalto cinzento e contornos geométricos ogivais.
É prudente acompanhar-se ao atravessar a praça!
A rua tem faixas para pedestres em duas extremidades,
policiais e passantes,
árvores e floriculturas ambulantes,
com musgo esponjoso,
um moço flácido com estômago alto e barriga sobrepujada.
Certo dia o motorista do táxi desconheceu a Rua Coelho Rodrigues,
não percebeu a grama e o asfalto com contornos ogivais,
ou a praça dos ceramistas do Poty Velho.
Enxergou as belicosas faces entintadas dos passantes,
as extremidades,
a rua,
o esponjoso moço alto sobrepujando-se.

 

 

Túlio Henrique Pereira escreve desde a adolescência. Aos dezoito anos venceu concurso de literatura com o conto “Mundo azul cor de fel”, e aos vinte e seis publicou o livro de poemas “O observador do mundo finito” (2008), a partir de um convite. Anos depois publicou a dramaturgia “Atos de paixão” (2012), e o livro de poemas e prosas “Nomes à margem” (2017). É autor que escreve periodicamente, de modo a conciliar a escrita literária com os estudos na área da História, e isso o tornou um escritoriadoreta, ou seja, um historiador que também escreve criativamente poemas, romances, contos e dramaturgia. Já participou de antologias coletivas no Rio Grande do Sul e Portugal. Dessas parcerias se destacam o grupo português de literatura Amante das leituras e a revista “Ovo da Ema” da editora Escola de Poesia.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Janeiro de 2019:

Flávio Sant’Anna Xavier, Adán Echeverría ..., Adelto Gonçalves, Amoi Ribeiro, André Ricardo Aguiar, António Vera, Carlos Matos Gomes, Elisa Scarpa, Eunice Arruda, Federico Rivero Scarani, Geraldo Lavigne de Lemos, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jandira Zanchi, Jorge Castro Guedes, José Ioskyn ; Rolando Revagliatti, entrevista, Leila Míccolis, Lenita Estrela de Sá, Leonardo Almeida Filho, Luanda Julião, Luca Argel, Luiz Otávio Oliani, Maria Emília Lino Silva, Mariana Sosa Azupian, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Octavio Perelló, Ramón Peralta, Ricardo Ramos Filho, Salomão Sousa, Túlio Henrique Pereira


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Le marchand de bestiaux', 1912.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR