ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


O preço de um samba

O rapaz subiu o morro aos pulos, entrou no barraco como vento desembestado e com resfolego na respiração, anunciou a novidade:


          - O homem quer comprar um samba.

 

          - Respira e conta direito. Não entendi nada.

 

         O recadeiro era um primo do Cartola – Angenor de Oliveira (1908-1980) – que estava, em uma tarde de 1929, dentro do barraco no Morro da Mangueira se escondendo da quentura, pois se “o morro está pertinho do céu”, também mais próximo está do sol. Sim, lá embaixo estava o cantor Mário Reis (Mário da Silveira Meireles Reis – 1907/1981), desejoso de negociar a compra de um dos seus sambas.

 

         “Comprar um samba meu? Pra quê?”, queria saber Cartola, para quem comprar um samba era como comprar o vento, a chuva, qualquer coisa, enfim, que jamais seria comercializada.

 

         A cena, narrada pelo compositor que não ouviu, mas entendeu a fala das rosas, foi anotada por Sérgio Cabral – o pai pesquisador e escritor, e não o filho desviador de dinheiros – e está no livro A MPB na era do rádio. Os primeiros anos da década de 30 – lembra o autor – ficariam marcados ainda pelo início de um processo de conscientização profissional dos compositores. Os dirigentes das gravadoras e das emissoras de rádio, assim como os proprietários das editoras musicais que começavam a se multiplicar, abriram os seus negócios sabendo que estes eram capazes de render lucros incalculáveis. Alguns cantores também percebiam que o ofício escolhido poderia proporcionar recursos suficientes para a sua sobrevivência. Mas os compositores ainda levariam algum tempo para se convencerem de que exerciam uma profissão que poderia ser remunerada.

 

         Daí a estranheza de Cartola, que demorou a ser convencido e nem tinha noção de valor. “Quanto vou pedir? Será que ele paga 50 mil-réis?” O primo achou pouco e sugeriu que pedisse 500 mil-réis, quantia que Cartola jamais vira em toda sua vida. No fim, fixaram o preço do samba em 300 mil-réis, que o cantor Mário Reis concordou imediatamente. O samba – informa Sérgio Cabral – era Que infeliz sorte, gravado por Francisco Alves (Francisco de Morais Alves – 1898/1952), sem o menor sucesso. Essa malandra negociação também é lembrada por Marília T. Barboza da Silva, Carlos Moreira de Castro (Carlos Cachaça – 1902/1999) e Arthur L. de Oliveira Filho no livro Fala, Mangueira, mesmo título do samba de Mirabeau (Mirabeau Pinheiro – 1924/1991) e Milton de Oliveira (1916-1986), Fala, Mangueira!

 

No início do primeiro capítulo está escrito:
         “Há todo um “folclore” do lado de cá da cidade, envolvendo a Mangueira. Um monte de histórias que falam, sobretudo, de samba e malandragem. Das músicas de Cartola compradas a 300 mil-réis pelo “Rei da Voz”, Chico Alves. Dos “porres” de Carlos Moreira de Castro, o Carlos Cachaça. Do “fulano” que era lavador de carros e agora é endeusado por grupinhos da Zona Sul.”

 

         Mário Reis – todos sabem – foi o primeiro a ser beneficiado com o avanço tecnológico no processo de gravação. Já não era necessário ter uma voz potente e se esgoelar para permitir que o equipamento registrasse a cantoria. Com a introdução da gravação elétrica foi possível captar vozes miúdas, suaves; era o fim do dó-de-peito, permitindo um tom quase coloquial nos discos.

 

         Claro, Mário Reis não foi o primeiro no time dos “comprositores”, os espertos que pagavam migalhas pelo talento alheio. Já em 1927, o consagrado Francisco Alves propôs a Alcebíades Barcelos, o Bide (1902-1975) gravar o samba A malandragem, que, até então, tinha apenas a primeira parte. Francisco Alves comprometeu-se a compor a segunda, dividindo com ele a autoria da música. Até aí, tudo bem, mas ele queria gravar outro samba, o Me faz carinhos, de Ismael Silva (Milton de Oliveira Ismael Silva – 1905/1978), mas com a condição dele assumir, sozinho, a autoria, se dispondo a pagar 100 mil-réis pelo esbulho. Bide, sabendo que Ismael, internado num hospital, enfrentava sérios problemas financeiros, serviu de intermediário na transação. No ano seguinte, o cantor comprositor gravou as duas músicas pela Odeon.

 

         Um dos primeiros compositores a ter seu trabalho reconhecido no contar das moedas foi Ary Evangelista Barroso (1903-1964). Dá nela, pode-se dizer, inaugurou uma nova era para a marcha carnavalesca, dando-lhe, com o emprego de instrumentos de sopro, principalmente dos pistons, um vigor que Ary Barroso classificou de “militar”. Possivelmente – especula Sérgio Cabral – ele estava também influenciado pela dinâmica do frevo, música que começava a se espalhar pelo país. A marcha, gravada por Francisco Alves, não proporcionou a Ary apenas o sucesso carnavalesco. Sendo a primeira colocada num concurso de carnaval promovido pela Casa Edison, rendeu também um prêmio de cinco contos de réis, quantia que ele considerou suficiente para se casar com sua noiva Ivone, a quem já namorava há sete anos.

 

         Há exemplos de honestidade no mundo da música. Um deles é citado no livro No tempo de Noel Rosa, escrito por Almirante (Henrique Foréis Domingues – 1908/1980). Em 1935, Carlos Alberto Ferreira Braga (1907/2006), conhecido como Braguinha e também por João de Barro, imaginou lançar sua marcha Linda Pequena . Entusiasmado com a melodia – revelou Almirante -, Noel Rosa, seu velho companheiro do “Bando dos Tangarás”, colaborou de maneira valiosa nos versos e mesmo na melodia. Um detalhe quase insignificante (mas importantíssimo) é prova indiscutível da prioridade de autoria daquela linda marcha. Naquele tempo, numa obra musical – fosse editada em papel ou gravada – em que houvesse parceria, figurava sempre em primazia o autor da ideia. Assim, Linda Pequena apresentava, como autores, João de Barro e Noel Rosa.

 

“Lançada a marcha para o carnaval de 1936, nenhum êxito alcançou. Faleceu Noel e aproximando-se o tríduo de 1938, João de Barro, percebendo que entre mais de 300 composições (sambas e marchas), nenhuma fazia referência ao saudoso compositor, tomou a iniciativa de relembrar uma de suas melodias. Surgiu assim, com novo título, de grande felicidade, Pastorinhas, com essas simples modificações nos versos: “E as pastorinhas...”, “Linda pastora...” e “Morena, da cor de Madalena...” em substituição a “E as moreninhas...”, “Linda pequena...” e “Pequena que tens a cor morena...”

 

         E como homenagem ao seu velho amigo, os autores assim mencionados: Noel Rosa e João de Barro. Por essa razão (ao contrário do que tantos afirmam), Noel não conheceu o título Pastorinhas, nem a sua definitiva consagração popular.

 

         Sim, já houve época que em cada canto brasileiro havia um compositor de talento. Mas a safadeza dava rasteiras nas dobras das esquinas. Além de comprar músicas, muitos espertos simplesmente afanavam a produção alheia.  Lembro o que foi contado por Mário Lago no livro Na rolança do tempo, onde narra as peripécias de Benedito Lacerda (1903-1958) e Sílvio Fernandes (1908-1935), um negro de pele reluzente estranhamente apelidado de Brancura. Na manha, a dupla enfiava no bolso letra e música saída da criatividade de algum simplório em busca do sucesso.  E assim mais uma música mudava de mãos no submundo da vigarice. Alguns casos são corroborados no livro “Nem do morro nem da cidade: as transformações do samba e a indústria cultural (1920-1948)”, de José Adriano Fenerick.

 

Se Ary Barroso ganhou um prêmio, perdeu muito mais quando ele, com sua Aquarela do Brasil, foi tungado pelo esperto Walt Disney(1901-1966), que faturou em várias frentes: verbas do governo americano para engabelar os terceiro-mundistas e transformá-los em simpáticos defensores do american way of life, na comercialização beneficiada de filmes politicamente incorretos e de direitos autorais não pagos aos autores musicais. Mas isso nem é “mérito” dos estúdios Disney, pois bem antes gringos espertos já gravavam sambas de morro, cantos folclóricos, pontos de macumba e até harmonizações mais sofisticadas, que depois surgiam lá fora como sendo de autoria dos safados d’além fronteiras.

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Paginação:

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