ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Jorge Castro Guedes


Testemunhos na primeira pessoa: Ésse guê guigante!

Aqui procurarei deixar alguns testemunhos, cuja forma pessoal é um estilo e também verificação da substância encerrada neles, a única coisa que interessa verdadeiramente. Nem tanto para um hoje insensível a eles, mas para memória futura, caso a Humanidade ultrapasse a curva da auto-destruição.

 

EPISÓDIO 5: ÉSSE GUÊ GUIGANTE!

 

Íamos no rescaldo do PREC, em que a palavra trabalhadores ainda nos ressoava, a nós, intelectuais, como sinónimo de uma casta superior que tinha sempre razão pelos calos da mão e, como tal, devia em todas as matérias aprovar o que fazíamos ou então não o fazermos. Eu, por acaso, em matéria de Arte era bastante relapso a tais ‘auto-doutrinamentos’, derivados de uma espécie de culpa, de matriz judaico-cristã, por não ter nascido na Classe Operária e viver sob a legítima suspeita de ocioso intelectual.

 

Mesmo assim não fugira o suficiente do estigma e, por via disso, é que passei a comprar cigarros “SG Gigante” (ainda fumava e ainda fumava cigarros), dizendo: “Dê-me um ésse guê guigante, por favor”. E perante o olhar do vendedor acrescentava: “É que senão o povo não entende”… Deixando-o de olhos ainda mais arregalados. Porque o mistério desta peculiaridade (autêntica e que durou quase um ano) residia num ensaio que fizera, seguido de debate, com sindicalistas e outros representantes dos trabalhadores, na sequência do que comecei por dizer. Antes da estreia, havia que ouvir-lhes o parecer, camaradas! Para podermos expurgar a obra dos nossos desvios e desvarios artístico-comprometedores da pureza ideológica.

 

Passo a explicar a coisa.

 

Eu estava prestes a estrear “A Ilha dos Escravos” de Marivaux no Grupo de Teatro (amador) dos Modestos, uma espécie de Conservatório de recurso, quando ainda não havia ensino do teatro, afora o Conservatório mesmo (entretanto re-baptizado como Escola de Teatro e Cinema) em Lisboa. Era, como se dizia na época, um alfobre do teatro profissional do Porto. De facto, lá se passaram espectáculos muito importantes e dali ou ali nasceram, pelo menos, quatro grupos profissionais nas décadas de 70/80 do século XX: a Seiva Trupe, o TEAR, a Cena, Os Comediantes. Hoje já nem o edifício existe. Foi, já em ruínas, demolido recentemente. Talvez para mais um Hotel, entre os muitos que irão falir quando a monocultura do comércio português perder o momento de fama para convergência turística.

 

Mas voltemos ao tema.

 

A “Ilha dos Escravos” prestes a estrear tinha encenação minha e naquela noite, algures no início de Abril de 1976, fora convocada aquela larga plateia de representantes dos trabalhadores (seguramente uns 50 ou 60 presentes) para, após o ensaio, darem a sua opinião e combinarmos ‘estratégias’ para captar públicos populares, nomeadamente, através de dirigentes sindicais. O ensaio era de fase muito adiantada (estrearia dali a uma semana ou semana e meia) com guarda-roupa, luzes, banda sonora, maquilhagem, adereços, cenário… Tudo pronto. E posso dizer que, de uma maneira geral, correu mesmo bastante bem. Tão bem como na estreia e na carreira, que mereceu distinções e aplausos da Crítica e dos muitos espectadores que o viram. Faltava, pois e antes, ouvir a voz dos representantes dos trabalhadores.

 

E começou o debate com perguntas mais ou menos inócuas, uma ou outra observação pertinente pela perspicácia da leitura do sentido social (que eu acentuara fortemente na encenação) da obra e algumas propostas concretas (poucas, mas algumas) de ‘estratégias’ para mobilizar o público sectorialmente. Mas nisto, uma das senhoras presentes, com um ar muito determinado, pede a palavra e faz um discurso ligeiramente longo, elogiando a beleza da obra nas suas várias componentes, aplaudindo os actores, realçando a importância do tema, mas… Mas concluindo que achava muito mal aquele espectáculo para os trabalhadores!

 

Não percebi de todo aquela conclusão que me parecia contraditória com o resto e perguntei-lhe porquê. Começou por me explicar que era dirigente sindical do então Sindicato das Empregadas Domésticas e aquela beleza toda (que voltou a enaltecer) podia desviar da “mensagem” os espectadores: então a mensagem era tudo! Não (ainda) a de Pessoa, mas a “social”. Lá lhe contrapus, citando mesmo Lenine - era uma assinatura óptima para emudecer os que opinavam o contrário - que os trabalhadores devem poder fruir da beleza. Coisas destas de que dou conta, hoje a rir-me, na altura muito arreliado, já Gorki sofrera e se queixara por carta ao amigo Vladimir Illitch que o sossegou: “Deixa lá, meu caro Gorki, não te preocupes. O Povo é que tem o direito de subir à Arte e não a Arte o dever de baixar ao povo” (implícito: à ignorância de onde vinham as massas antes da própria Revolução de Outubro). Mas ela insistia: “É que assim perde-se a mensagem!”. “Como?” ripostei eu, ainda com alguma ingenuidade e na tentativa de perceber o significado daquilo que me parecia uma argumentação contraditória, movido pela contenção e esforço de auto-disciplina para ouvir os legítimos representantes do povo trabalhador a dizer-me como fazer Arte.  E a explicação, finalmente, surge de uma forma exemplar: “É que ao verem coisas tão lindas não compreendem a mensagem”. E, do mais - dito no seguimento, não estou certo das palavras - queria, esforçava-se por explicar, que a beleza alienava as massas. Este termo, em torno de alienação usou, isso eu sei: também era comum na época, à semelhança da “mania do Brecht” de que já falei no 2º episódio.

 

Começando a perder a paciência (que no fogo da minha juventude também não era muita, confesso), questionei-a sobre se tinha, ela, captado a mensagem, presumindo malevolamente a resposta, que veio, absolutamente segura de si mesma: “Eu percebi, claro, mas elas não chegam lá”. Elas eram as trabalhadoras que representava e, pelos vistos, avaliava das suas capacidades cognitivas e sensoriais. Por isso levou em troca, num registo entre o irónico e um ‘ralhete’ de bardamerda disfarçado: "Ah! Já percebi! A senhora é que é culta e inteligente, mas acha que as criadas (termo que usei para a situar entre as senhoras: terminologia do anterior regime) são burras e não merecem fruir da Arte. Estou esclarecido.” E julgo que ali mesmo dei por encerrado aquele debate e igualmente encerrado o peditório para alimentar tamanhos resquícios de um populismo de esquerda travestido de não sei quê. Porque teria bastado ler a vulgata marxista ou mesmo só a leninista e percebia-se o rematado disparate daquilo tudo. Imagino mesmo que se os dirigentes bolcheviques tivessem tomado a mesma postura, em vez do Teatro Bolshoi teria nascido algures em Moscovo um Salão de Baile dos Bombeiros ao Domingo Prós Magalas! Ou em vez de conservar e abrir as portas do Hermitage aos trabalhadores, teriam arrasado a maioria das obras ‘burguesas’ sem mensagem revolucionária, que alienavam as massas trabalhadoras por serem demasiado belas! Maldito Rembrandt, maldito Goya, maldito Modgliani, maldito Cèzanne. E maldito mesmo o poeta Pushkine!

 

Por isso, com receio da estupidez do povo, que me informaram ali através daquela representante de um sector, passei a pedir, então, o tal “ésse guê guigante”. E debates idênticos só muito mais tarde, a pedido de um director artístico, que me convidara para encenar na sua própria companhia e me disse que era hábito juntar alguns líderes de opinião para darem opinião (pleonasmo ou sinapismo nunca saberei). Já não era o tempo dos trabalhadores, mas o provincianismo vertera-se na ideia de que uma meia-dúzia de auto-nomeados líderes de opinião (porque opinavam uns com os outros no café central da cidade) tinha a nova legitimidade representativa da comunidade em geral e fazia o favor de ver os erros a corrigir antes que a obra estreasse estragando tudo. Por cortesia acedi a estar presente, mas avisei que não acalentaria aquele jogo. E lá estive. Mas felizmente, com aquele costume deste tipo de pessoas, os próprios faziam a pergunta a que respondiam eles mesmos ou levantavam uma questão que nos explicavam porque estava no espectáculo, como se tivessem sido eles a fazê-lo, penetrando na nossa consciência com a sua inteligência e saber em parada de cauda de perdiz a fingir de pavão. O único incidente foi quando um deles, após ter feito uma palestra sobre o espectáculo, conclui: “Não é?”. Respondi: “Vejo que para si obviamente é”. Ao que me contrapôs: “E para si? O que quis dizer? Não foi isto tal e tal e tal?”. Limitei-me a dizer, como penúltima resposta nestas coisas: “Eu exprimo-me com o que faço. Se tivesse alguma coisa a acrescentar estava no palco. Não sei. Se ‘lê’ assim é porque é assim para si.”. Foi o gelo e a desmobilização.

 

Mas, como não há duas sem três, ainda caí numa terceira ‘idioteira’. A vereadora da cultura e educação da Câmara Municipal de Viana, onde eu dirigia nessa época o Teatro do Noroeste, comentou que os professores se queixavam de não os ouvirmos antes de apresentar espectáculos que tinham temas referentes ao programa escolar. A vereadora fizera-o com boa intenção, estou certo. Por isso decidi convidar todos os professores da disciplina de Português do Secundário para assistirem a um texto sobre “Os Maias” do Eça, que, na altura ainda não tinha ascendido à eça fúnebre onde os pedagogos do epicurismo vão pondo o nosso património cultura. E, desde logo, começaram por só aparecer quatro e uma senhora professora comentou no fim: “Acho mal que a Maria Eduarda (a personagem, claro) vista um xaile cor de salmão”. Perguntei-lhe se havia (eu sabia que não, mas podia ter-se-me escapado alguma recôndita e oculta subentendida referência na obra) uma parte do romance em que fosse referida a cor do xaile da Maria Eduarda. Disse-me que achava que não, mas que ela não via a Maria Eduarda a vestir-se de cor de salmão. Os próprios colegas se insurgiram contra o disparate daquele comentário, mas ela – provavelmente confidente do espírito do José Maria – insistia que tinha a certeza de que o Eça também nunca imaginaria o xaile em salmão.

 

Como não fumava (cigarros há muito, e o charuto e cigarrilhas deixara há pouco) não pude pedir mais “ésse guê guigante”. Aliás, mesmo que fumasse não havia tabacarias (penso que nem do Álvaro de Campos) naquela escola onde a senhora lecionava as cores dos romancistas, que ela determinava serem ou não as que eles teriam na cabeça quando as não diziam. E, assim, concluo esta paleta de debates sobre o que faço em palco. Porque em verdade o que quero dizer resume-se ao que lá está. E a leitura dos espectadores, não tendo de (e nunca podendo) ser uniforme (felizmente), também uma outra coisa nunca será: a de, por panfletos ou conversa de café, por visões pessoais ou em visões talvez ‘mesa-pé-de-galo’, substituir-se à indiscutível liberdade da criação e opções estéticas em Arte. Na verdade debates deste tipo são tão inúteis e fúteis, agora com alguns espectadores ‘special one’ lá do sítio, como aquelas ceias no Ginjal de que falei no 1º episódio.

 

Nesta idade faz-me bem melhor continuar no hábito de ir ler um livro ou mesmo ir tomar um café, um Gin ou um sumo de maracujá com amigos para falarmos entre nós, em privado, do que nos apeteça: seja política, religião, música, teatro, cibernética; ou dos nossos filhos, ou maleitas da idade, ou de recordações.

 

Ou de gnus, porque não?

 

 

Jorge Castro Guedes é encenador

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Paginação:

Nuno Baptista


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