ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Heroísmo extemporâneo

Quando chega o final do ano é sempre mais ou menos praxe, para quem suporta as loucuras de São Paulo: calor, frio, mais calor, cada vez mais calor, poluição, ar seco, peripécias de mosquitos transmissores cada hora de um mal diferente, vacinas, filas para vacinas contra o mal, filas para tudo, trânsito, pontes caídas, violências, alarmes a dispararem no meio da noite, brigas de casais ressoando desesperadas na madrugada, uivos de cachorros sentindo falta dos donos, buzinas, sirenes, burocracias de todo tipo, refeições ligeiras e de péssima qualidade, insônia, ausência de receita para comprar Rivotril quando é extremamente necessário, cada vez mais falta de dinheiro, sempre mais trabalho, tudo isso junto e misturado, que se pense em dar uma escapadinha para a praia. A gente se recupera vendo o azul profundo pintado pelo oceano, observando o horizonte esparramado em uma cadeira sobre a areia, disputando espaço com nossos conterrâneos. Eles insistem em ter a mesma ideia anualmente. Nada como ver o brilho do sol se pondo sobre as águas salgadas. Com uma semana dessa rotina, tomamos fôlego para mais um período de massacre.

 

Nesta temporada fomos para Camburí. Cidadezinha no litoral norte de São Paulo bem simpática, lá conseguimos a preço surpreendentemente módico estadia em uma pousada bastante razoável, com piscina, gostamos de praia, mas fazemos questão também de piscina. O pacote precisa ser completo.

 

Inauguramos então uma rotina das mais agradáveis. Dormíamos muito, sempre retardando ao máximo o momento de abandonar o quarto com ar refrigerado. Se a capital do estado virou uma cidade supreendentemente quente, graças, ouvi outro dia um ministro barbudo dizer, aos esforços bem-sucedidos da esquerda inventora do aquecimento global, o litoral supera em alguns graus centígrados o abafamento da metrópole. Mas viajar assim é ter de frequentar a praia, programa obrigatório. Então, besuntados de filtro solar fator sessenta, saíamos para tomar café, já quase na hora do almoço, e depois o marzão de Deus nos aguardava, colorido, apinhado de banhistas.

 

Apesar de queimar os pés na areia quente, não me queixo. Feliz em sentir a brisa morna esgueirando-se entre a multidão e refrescando tão bem o nosso corpo. Paga-se por tudo: cadeiras, guarda-sóis, mas tem-se a vantagem de conseguir meio metro quadrado de espaço colado a vizinhos alegres e bem-dispostos. Família bem preparada, trouxe até cooler com gelo, cervejinhas e refrigerantes dentro, salgadinhos em uma travessa coberta por um pano impecavelmente limpo, pretendem passar o dia por ali pelo visto. Conversam alto, e isso de certa forma nos inibe. Pelas minhas contas devem ser marido e mulher, filho, filha e sogro. O mais velho não abandona a Heineken. Quando termina uma pede ao genro outra, já está meio alterado. O casal fuma sem parar, sem chegar a nos incomodar, o vento logo dá conta da fumaça. Em certo momento, em um arroubo de afetividade, se abraçam, meio desengonçados, visto ser a mulher bastante gordinha e beijam-se na boca carinhosos. O marido, exagerando um pouco o seu estado lascivo, resolve morder o queixo da consorte, deixando-lhe, para o cúmulo do azar, marca vermelha no rosto. O clima romântico rapidamente se desfaz, ela fica brava pela dor, procura na bolsa um espelhinho para ver como ficou, tudo ali exposto, a vida como ela é.

 

Resolvemos sair um pouco para andar. Não antes de pedir à simpática família o obséquio de olhar as nossas coisas. Temos a ideia de caminhar até o riozinho que separa as praias de Camburizinho e Camburi. O mar está mexido, choveu muito na noite do dia anterior. Quando chegamos observamos o rio mais caudaloso e fundo. Minha mulher percebe um rapaz se afogando. Silencioso, talvez fosse tímido demais para pedir socorro, ele sobe e afunda no mesmo lugar, demonstrando, discretamente, certo desespero.

 

- Pule, salve ele!

 

Não penso duas vezes. Mesmo sem minha fantasia de super-homem atiro-me na água. Gesto infeliz. Próximo à margem existem pedras submersas e bato nelas ralando a coxa e ferindo o pé direito. A dor é forte. Mas o que é sentir incômodo ante a perspectiva de salvar uma vida, começar o ano sendo herói? Ao me aproximar do jovem ele se agarra em mim desesperado. Explico-lhe com firmeza o risco de daquela maneira nos dois nos afogarmos, solicito-lhe calma. Cordato ele permite a manobra de segurá-lo pelo braço e nadar puxando-o para borda.

 

Caminhamos felizes para nosso cantinho de praia. Já limpei o sangue que escorreu de minha perna, o pé inchado não me impede de andar. Aos sessenta e cinco anos, pela primeira vez, pude salvar alguém. A sensação é boa. Estufo o peito, quase me sinto mais jovem.

 

Ricardo Ramos Filho, é escritor com livros editados no Brasil e no exterior, publicados em Portugal e nos Estados Unidos. Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, doutorando no mesmo programa. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, onde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. Ministra diversos cursos e oficinas literárias na Escola do Escritor (literatura infantil, roteiro de cinema, poesia, conto e crônica). É roteirista de cinema com roteiros premiados, tendo ministrado curso de extensão na ESPM. Atua como coach literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. Cronista da revista literária eletrônica Escritablog, onde publica mensalmente. Participou como jurado de concursos literários: Proac, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Mato Grosso de Literatura, Paulo Setúbal de Tatuí. Curador do 1º Prêmio Nelly Novaes Coelho UBE de Literatura Infantil.  Sócio proprietário da empresa Ricardo Filho Eventos Literários, onde atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Colaboradores de Janeiro de 2019:

Flávio Sant’Anna Xavier, Adán Echeverría ..., Adelto Gonçalves, Amoi Ribeiro, André Ricardo Aguiar, António Vera, Carlos Matos Gomes, Elisa Scarpa, Eunice Arruda, Federico Rivero Scarani, Geraldo Lavigne de Lemos, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jandira Zanchi, Jorge Castro Guedes, José Ioskyn ; Rolando Revagliatti, entrevista, Leila Míccolis, Lenita Estrela de Sá, Leonardo Almeida Filho, Luanda Julião, Luca Argel, Luiz Otávio Oliani, Maria Emília Lino Silva, Mariana Sosa Azupian, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Octavio Perelló, Ramón Peralta, Ricardo Ramos Filho, Salomão Sousa, Túlio Henrique Pereira


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Le marchand de bestiaux', 1912.


Paginação:

Nuno Baptista


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