ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: O seu é igual ao meu?

Em 2011 eu ainda estava fazendo o Doutorado e me lembro que penei muito na ocasião (no Pós-Doutorado foi mais fácil, acho que peguei o jeito... risos), nunca vi tarefa mais difícil no campo da literatura. Minha dificuldade maior não era ter de trabalhar com a linguagem acadêmica (na advocacia o linguajar também era formal, racional, concatenado, elaborado). O mais complicado, para mim, foi lidar com a exatidão das palavras, sem o plurissentido interpretativo que uma linguagem conotativa/simbólica contém. Habituada com a poesia, em que a metáfora muda completamente o “plano de voo”, e em que uma palavra pode mover-se em múltiplas direções, trabalhos acadêmicos, ainda mais em Ciência da Literatura, rejeitam quaisquer polivalências: é necessário pensarmos em cada vocábulo várias vezes até que cheguemos à constatação de que ele caminha em uma direção única.

 

Eu podia nas petições, muitas vezes, até resvalar levemente pela ironia ou fazer algum jogo de palavras mais ousado – dava para fazer isso de vez em quando, principalmente quando eu sabia que o magistrado, além de juiz, era poeta). Em uma tese de Teoria Literária não: não há margem nem espaço para sentidos duplos (muito menos triplos) e evitar as areias movediças me cansava muito: às vezes ficava horas (literalmente) em um parágrafo, tentando achar a palavra precisa, adequada ao encaminhamento do meu pensamento. Este fato, aliado à originalidade de um tema difícil, com pouca ou nenhuma referência como suporte, me requereu um esforço “hercúleo”; sem contar que, depois de cinco a seis horas neste processo, quando eu parava e ia responder aos e-mails, ainda estava envolvida com a tese; aí o clima “vazava”, e as pessoas acabavam achando que: “você está séria demais, não é a Leila que eu conheço. Algum problema com você?...”. Em verdade, sim, o problema se intitulava: “caça palavras”...

 

Estendi-me, eu sei. Porém precisei desses dois parágrafos iniciais para tentar, neste introito, ambientar o fato pitoresco que quero contar e que aconteceu em meio a este trabalho sóbrio e solene (penso que, se houver algum humor, ele está justamente no contraste entre este clima extremamente austero e o que narrarei a seguir):

 

Precisei copiar um verso de um dos autores analisados por mim, contendo a palavra: puta. Imediatamente o automático corretor de textos do Word sublinhou-a com aquela linhazinha vermelha que sinaliza sempre um erro ortográfico. Como eu teria que escrever puta várias vezes, pedi então para que ela fosse adicionada ao dicionário. Qual não foi meu espanto quando o corretor ortográfico recusou-se. Ou melhor: ele não atendeu ao meu comando e não a adicionou. Tentei grafar várias vezes, de diversas maneiras: com P maiúsculo,  em itálico, em negrito, entre aspas... tudo em vão.

 

Impressionada com aquela verdadeira demonstração de puritanismo, resolvi escrever a palavra merda... E, pasmem, o corretor também continuou impávido, ignorando-me. A esta altura eu estava disposta a ver se ele aceitava algum palavrão e comecei a escrever os que eu sabia (confesso que meu repertório não é grande). Pois ele prosseguiu firme, altaneiro, imbatível... Eu podia, inclusive, sentir sua postura empertigada, seu tom de reprovação e de censura: logo uma ex-causídica (“quem foi rei nunca perde a majestade”...), que tinha até rudimentos de Latim, com o meu vasto curriculum, constrangendo-o a adicionar palavras chulas, e, ainda pior, rebaixando-me a digitar termos de baixo calão, ignóbeis, ultrajantes, degradantes? O tempora! O mores!  Cícero, ó Cícero onde estás que não me respondes?... Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes, Embuçado nos céus? Vejam a que ponto o coitado do meu corretor chegou... ficou tão ensandecido e escandalizado que misturou romanos com baianos, e por pouco não me xingou — melhor dizendo, por pouco não me dirigiu veementes e desarvorados impropérios.
 

"Admoestada", reduzida a pó por uma máquina, e já quase sem palavrões na manga, escrevi finalmente a palavra caralho e pedi de novo para que o termo fosse acrescentado ao dicionário. Pois não é que o meu pernóstico e moralista corretor adicionou-o rapidinho, sem pestanejar? Ou seja: a rejeição se dava só quanto a palavras femininas. Como puta e merda não podem e caralho pode? Podendo. Fiquei revoltada com tanta empáfia, prepotência e preconceito. Hoje, meu corretor atual aceita tudo, perdeu o pudor, não faz mais nenhuma objeção, creio que já leu coisas até bem mais impactantes nas redes sociais... mas se você tem um computador mais antigo, do tipo jurássico, faça o teste e me informe o resultado – eu sinceramente espero que o seu não seja tão... misógino...

 

Leila Míccolis, escritora de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Paginação:

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