ANO 5 Edição 76 - Janeiro 2019 INÍCIO contactos

Lenita Estrela de Sá


Talas quebradas

Quando saiu de casa, avisou a mulher de que não levasse o menino para a esquina da rua da Paz, naquele dia escuro. Chovera demais durante a madrugada e a manhã prometia grande movimento. Roberval consertava sombrinhas desde a adolescência. Nos meses sem chuva, sobrevivia de amolar tesouras e alicates de unha. A mulher e ele, não obstante, não viviam assim tão mal quanto supunha a vizinhança mexeriqueira: não faltava farinha na lata , pó de café e açúcar  no armário de metal vermelho, embora muitas vezes fosse só isso que tivessem para comer, ao se recolherem no fim do dia.

 

O problema é que o pai de Janete chegara do interior, semana passada. Veio se tratar de um inchaço esquisito na batata da perna e ficou hospedado com eles na casinhola de dois cômodos que, a muito custo, Roberval alugou na periferia da cidade, numa rua sem calçamento, continuamente alagada pela correnteza das águas de chuva forte. Não podia enxotar o velho e submetia-se a tolerá-lo, porque avaliara, desde o início, quantas sombrinhas extras equivaleriam a mais um prato de cozido ou ( se as coisas não saíssem bem) a uma caneca de café com farinha; poderia aquele velho amarelo comer também junk food de vez em quando? Normalmente, não iam em casa e merendavam cachorro-quente ali perto mesmo. O que tinha esse velho de vir infernizar a vida dele logo neste momento em que a freguesia aumentara um tiquinho?

 

Agora estavam os três plantados atrás dele, espremendo-se contra a parede para se proteger dos pingos grossos da chuva. Roberval tratava de não se preocupar excessivamente com a situação e Janete e o pai exibiam uma fisionomia aparvalhada e vencida ante a pressa dos transeuntes que passavam na esquina. Dobra tala, corta tala, corta, dobra, costura nas pontas, Roberval continuava o trabalho, ignorando por completo a presença emudecida da família à sua volta, embora, a certos longos intervalos, trocasse com eles ricos monossílabos e rápidos olhares de entendimento.

 

O sombrinheiro era um homem franzino, olhos vivos, cabelos negros e aparados, à mostra os dentes cariados e um arranhão cicatrizando no joelho sobre o qual apoiava as sombrinhas na hora do conserto. Preferia as estampadas às escuras e lisas, divertia-se silenciosamente interpretando as mulheres conforme o colorido das sombrinhas (processo que só os olhos risonhos denunciavam): tecido liso para as moralistas; estampado para as fogozinhas; preto para as antipáticas, que reclamavam do preço e da qualidade do serviço, pechinchando uns centavozinhos a menos.

 

Janete, por sua vez, planava sobre o que ocorria em torno dela, longe dali, esquivando-se vez ou outra do chuvisco de um modo abandonado e passivo, sem dar muita atenção ao filho de dois anos, que parecia paralisado pelo intenso movimento de pernas dos passantes que se deslocavam de um lado a outro da rua com pulinhos regulares e cuidadosos para evitar as poças de água no asfalto. Roberval notou quando o filho, na sua inocência, começou a urinar-se.

 

– Não vê isso, Janete? – ela simplesmente puxou o pequeno para si.

 

– Acontece com toda criança.

 

– Como é que tu sai de casa e não traz roupa pra criança trocar?

 

– Se eu soubesse antes o quanto tu é chato...!

 

Assim ela se comportava em qualquer situação, com um comodismo assemelhado a preguiça que, muitas vezes, parecia até uma vantagem, pois deixava-a quase indiferente às coisas do dia a dia, inclusive à doença do velho pai dela. Foi quando chegou uma senhora pedindo a Roberval que lhe consertasse a sombrinha. Mais tarde, podia ser? A senhora estava com pressa e não retornaria à rua da Paz naquele dia  chuvoso. Não estando em condições de dispensar dinheiro, Roberval interrompeu o serviço que fazia e a atendeu. Sentiu uma gota de sangue vir descendo lentamente pelo polegar direito, espetado por uma tala de sombrinha; levou o dedo à boca e sugou o ferimento com força, quase raiva.

 

– Só o que me faltava! – Janete se aproximou para ver o que acontecera, mas o velho permaneceu encostado ao parapeito da janela baixa, nas pupilas uma expressão risonha de satisfação com o atrapalho do genro.

 

A senhora apressada pediu a sombrinha de volta e foi-se embora, murmurando condenações a si mesma por ter parado ali para perder tempo; também maldisse um carro que lhe respingou lama na roupa.

 

Roberval jogou fora a tala enferrujada e novamente foi invadido pelas preocupações. Não sabia como cuidar da saúde do velho, que se corroía entre crises hipertensivas e uma úlcera intestinal mal curada.  Janete era uma mulher que não se continha diante de uma banca de camelô – flores de plástico violeta, radiozinhos paraguaios prateados, chaveiros com estampa de galãs de novela, castiçais, anjos barrocos baratinhos, nada escapava à compulsão consumista da companheira.

 

De vez em quando, brigavam por causa desses desperdícios. Não percebia que estavam sem dinheiro, que sem o pouco que tirava das sombrinhas com certeza passariam por baixo, comendo o pão que o diabo amassou? Roberval sentia o estômago estrangulado por uma angústia poderosa quando começava a se torturar com semelhantes matemáticas.

 

O filho começou a choramingar, encharcando ainda mais o rostinho encatarrado e sujo e, ainda por cima, estava todo urinado, o pobrezinho.

 

– Troca a fralda da criança, Janete! – em silêncio, ela começou a desabotoar a bermuda do menino, a enxugá-lo com a ponta dobrada de uma fralda encardida, enquanto novos pingos de chuva caíam com força pela rua barulhenta. Roberval precisava de dinheiro para mudar aquela situação e arrumar a vida, agora mais pesada com o contrapeso do velho. Precisava muito de dinheiro – quem sabe, um dilúvio resolvesse suas dívidas.

 

Foi quando apareceu uma freguesa magra, de salto alto e ainda jovem que, fisionomia sorridente, estendeu-lhe a sombrinha para que a consertasse.

 

– Pronto. Dez reais.

 

– Tudo isso?

 

– É pouco demais, moça, ando pra comer terra, de tanta dificuldade.

 

A mulher sorriu de novo:
– Não se preocupe assim. Conheço gente que empresta dinheiro.

 

– Quanto se quiser?!

 

– Assim, assim, né? Seu Costa cobra um jurozinho depois.

 

Parcelavam o débito em até vinte e quatro vezes fixas. Primeiro desconto em sessenta dias, sem avalista, sem inspeção no Serviço de Proteção ao Crédito, sem cheque – nem de mãe pra filho! Documentos necessários: os três últimos contracheques, cópia da carteira de identidade e número do cadastro de pessoa física, comprovante de residência, extrato bancário atualizado. Funcionavam de segunda a sábado. Era verdade mesmo que existiam?

 

Roberval respirou fundo, gostoso, mas logo franziu o rosto, não tinha nada do que pediam para fazer o empréstimo.

 

– Nada?!

 

– Sempre consertei sombrinhas.

 

– Bem, nesse caso, seu Costa pode aceitar outra coisa como garantia
.
– Outra coisa...

 

– Não tem um barraco sequer?

 

Roberval, sem querer, soltou uma gargalhada perplexa, a mulher emitiu um longa interjeição de incredulidade, o velho pigarreou e atirou longe uma cuspalhada gosmenta.

 

– A gente vive num lugarzinho apertado, senhora!

 

– Seu Costa dá um jeito! Ele gosta de se distrair. – e entregou a ele um impresso com o endereço do agiota.

 

Roberval voltou ao serviço com as sombrinhas, mas não conseguia se concentrar, ademais o menino e o velho impacientavam-se crescentemente. Era melhor voltarem para casa e pensar sobre o empréstimo.

 

– Toma cuidado com isso, rapaz. – advertiu o velho, acendendo um dos poucos cigarros que fumava para se acalmar de vez em quando.

 

– Como é que eu vou lhe dar o que comer? – o velho se calou.

 

Naquela noite, Roberval não pensava em outra coisa, senão em recorrer ao agiota para pagar as muitas despesas acumuladas ao longo dos últimos meses. Janete estivera eufórica o tempo todo, sonhando com toda sorte de bugigangas que poderia comprar. No outro dia, Roberval procurou seu Costa.

 

O sombrinheiro chegou desconfiado ao endereço indicado – a porta lhe parecera trancada. Mas o camelô que vendia máquinas de calcular e bichinhos de pelúcia na calçada do sobrado sugeriu que Roberval a empurrasse com dois toques leves, talvez só estivesse encostada. Subiu ainda intrigado, ganharia o tal Costa alguma coisa além dos juros do dinheiro emprestado? A situação não lhe agradava, sentia a ansiedade aumentar, suor abundante nas axilas, mas ia subindo os degraus. De uma só vez, quiçá, conseguisse bastante mais do que muitas sombrinhas que consertasse durante o mês inteiro, pegando chuva e sol naquele canto de rua.

 

A sala de tons esmaecidos e ângulos empoeirados lembrava detalhes à Van Gogh – traço nervoso e triste da fisionomia da secretária que veio atendê-lo. Aguardasse um pouquinho, Seu Costa estava com cliente, um funcionário que gastava o que não ganhava – sabia como era, não sabia? Não demorou muito, o agiota o recebeu com um sorriso abafado, de quem já sabe que tem o controle da circunstância. Então, quanto queria? Dinheiro vivo – garantiu. Os olhos de Roberval começaram a palpitar de leve e involuntariamente nas órbitas, mexeu-se na cadeira, engoliu um resto de saliva na boca seca pelo inusitado da oferta, apertou mais uma vez os lábios. Seu Costa sorria, cabuloso.

 

– Acredite. É dinheiro vivo.

 

O sombrinheiro ficou ainda mais nervoso.

 

– Não quero incomodar, não, senhor.

 

– Deixe disso, diga logo de quanto precisa.

 

O rapaz, por um momento, viu desfilarem na cabeça todas as vantagens do empréstimo: aluguel pago em dia, roupa e leite para o filho, crédito doméstico para Janete comprar cacarecos. Até para o sogro abusado lhe vieram soluções à mente.

 

– Dez mil. – seu Costa o encarou surpreso. – Dez mil reais. – repetiu.

 

O agiota se levantou da cadeira giratória, ajeitou nos punhos a manga do paletó, pensativo, depois acendeu o cachimbo, respirou mais devagar, sacudiu a cabeça com movimentos rápidos, apertando o beiço inferior numa expressão vencida.

 

– Vou lhe dar os dez mil.

 

Roberval chegou em casa carregado de mercadorias raras para a família: frango, iogurte, goiabada, um chinelo azul para o sogro de cara espantada. Nessa noite, foi um regalo o jantar, até o menino comeu o macarrão com ovo e Janete se adocicou um pouquinho na cama, imaginando desperdícios nas bancas de camelô. Todos dormiram felizes.

 

Inclusive a freguesia, no dia seguinte, aumentou de forma discreta, mas perceptível. As coisas pareciam mudar de rumo, nem de juros seu Costa havia falado. Era pensar no futuro, no dia que começava, nas muitas sombrinhas à espera de concerto empilhadas sobre a calçada. Roberval trabalhava contente, ia abrir uma poupança com os dez mil reais, quem sabe, mandar um pouco para a mãe em Bacabeira – será que nada sobraria para comprar uma Tv?, regalava-se com os golpes de Schwarzwnegger, nos filmes de ação das noites de terça-feira, que lhe pareciam as mais ambíguas e arrastadas da semana.

 

Entregue a tais fantasias, mantinha um meio riso satisfeito no canto da boca. Janete já tinha ido ao comércio com o pai dela e o menino, para ver se comprava umas capas de sofá. Havia ainda mais de dez guarda-chuvas para consertar, entreteve-se no manejo de talas quebradas, mecanismos enferrujados e remendos a coser, mas logo atraiu seu olhar ligeiro uma silhueta conhecida na calçada em frente – seu Costa. Roberval sorriu-lhe, levantou-se, e o agiota caminhou em sua direção com um passinho seco e ágil, perfeito complemento da figura esquálida e baixa, em que se destacava um bigode espesso e muito branco em meio ao rosto descarnado.

 

– Muito serviço, rapaz?

 

Roberval se atrapalhou um pouco, um tanto nervoso.

 

– Com aquela chuva que deu ontem...

 

– Para frente é que se anda. – o sombrinheiro suspirou fundo.

 

– O senhor veio me dizer quanto vou lhe pagar de juro?

 

– Não se preocupe com isso agora. Depois a gente conversa. Amanhã eu passo aqui.

 

Roberval franziu o cenho. Amanhã? Podia ter dito logo a que viera. Sujeitinho dado a um mistério! Decidiu não se preocupar demais e tornou a se sentar para retomar o trabalho.

 

Pois as aparições do agiota se repetiram. Primeiro a cada dois dias, depois todas as manhãs.

 

– Eu te avisei pra não entrar nisso, Roberval. – disse-lhe o sogro.

 

– Como é que eu ia comprar remédio pro senhor? – o velho se calou, indo se sentar num banco da praça mais adiante. Janete acompanhou o pai. No dia anterior, o agiota enviou-lhes uma cesta básica em que vieram ameixas e champignons.

 

Ao levantar a vista, Roberval deu de cara com seu Costa, risonho como de hábito, mãos enfiadas nos bolsos, melífluo, etéreo, como quem oculta intenções delicadas.

 

– Não precisa de mais nada?

 

– Obrigado pelo negócio que o senhor mandou pra gente.

 

– Coisinha pouca...

 

– Quanto é que eu tenho que lhe pagar a mais?

 

– Não se preocupe, homem.

 

Roberval continuou a esticar tecidos ramalhudos sobre a armação das sombrinhas, com uma frieza súbita que a ele próprio espantou, encarou com firmeza o agiota.

 

– Olhe, uma coisa eu vou lhe dizer: minha mulher eu não lhe dou.

 

– Não é sua mulher que me interessa. É seu menino.

 

– Não estou lhe compreendendo. – um arrepio percorreu-lhe a espinha dorsal.

 

– Sou um homem que gosta de ajudar os outros e...

 

– Quer meu filho pra quê?

 

– Fiz a mim mesmo a promessa de ajudar crianças pobres a terem uma vida melhor em outro lugar, ter o colégio, ter o médico, ter o dentista, as roupinhas...

 

– Quem lhe disse que não posso criar meu filho?

 

– No estrangeiro, o futuro é melhor, a vida é mais rica.

 

– Pois eu não acho.

 

– Amanhã, passo aqui de novo. Pense melhor.

 

Janete não quis nem falar sobre aquela possibilidade; primeiro, se zangou feio, depois começou a chorar enquanto cortava repolho para pôr na sopa. O menino, às vezes, chateava, dava trabalho, dava gasto, mas não queria vê-lo longe, em terra estranha, afinal não foi à toa que enjoou tanto na gravidez – nessas horas é que se via quem era mãe de verdade.

 

– Mas será que não ia ser bom pra ele, mulher?

 

– Tá ficando doido? Meu filho ninguém me tira.

 

Roberval achou melhor dar meia volta e ligar a Tv. Passava um programa de auditório bem barulhento, não o suficiente para acalmar nele o turbilhão de pensamentos ruins. Viria o agiota com chantagens de agora em diante? Como iria pagar o que devia ao homem? Coçou a cabeça, sentiu calores no corpo, disparos descontrolados no coração, suor gelado – fora meter-se aonde! Demorou a dormir. Seriam mesmo boas as intenções de seu Costa? Já ouvira relatos horríveis sobre crianças mandadas para fora, às vezes, só para... calou-se, o silêncio da madrugada piorava sua angústia.

 

Entre cochilos e sobressaltos, viu o dia clarear. Janete e o menino acompanharam o velho ao hospital municipal para fazer exames, após dias numa fila interminável. Roberval foi trabalhar sozinho.

 

Não tinha chovido, a freguesia era menor, apesar de haver mais gente na rua. O movimento das pessoas o distraía um pouco, concentrado nas pernas apressadas que cruzavam a rua no semáforo. Os olhos parados de Roberval se detiveram num par de pernas curtas e magras que se deslocavam no ritmo de um passinho seco e acelerado – ele de novo: Seu Costa chegava para aterrorizá-lo mais uma vez. Num impulso, pensou em correr, mas não teria tempo de recolher todos os utensílios e ferramentas e permaneceu, contrariado, porque já havia sido visto pelo agiota.

 

– Cadê o resto da família? – sorriu como sempre.

 

– O senhor quer meu filho e só?

 

– E você não me deve mais nada.

 

– O senhor quer dar ele todo ou só os pedacinhos?

 

– Como assim...?

 

– Quer o menino pra vender as partes, é? O pulmão, o bofe, o coraçãozinho dele, é? – seu Costa titubeou.

 

– Que ideia, homem!

 

Mas seu Costa ficou nervoso. Que não era nada disso, que isso era um absurdo, quem Roberval pensava que ele fosse? Chegou a fechar a cara, para depois recolher-se num silêncio longo e evasivo. Roberval mirou-o com os olhos cínicos, sorridentes.

 

– As partes do velho meu sogro não servem?

 

Seu Costa encarou-o, furioso.

 

– Não julgue mal um homem caridoso, rapaz. – e saiu resoluto.

 

Pelo meio da novela das oito, bateram à porta do sombrinheiro. Era um homem corpulento, barba cheia, catinga forte, o cabo do revólver visível sob a camisa de algodão, trazia ordem de seu Costa: que, em uma semana, o dinheiro emprestado lhe fosse devolvido, com o correspondente acréscimo dos juros atrasados. Roberval levou as mãos à cabeça. De madrugada, não pregou o olho – tinha se  lascado.

 

– Deixa amanhecer, meu filho. – disse-lhe Janete, subitamente carinhosa, enquanto o velho se encolhia no fundo da rede, soltando um muxoxo ruidoso.

 

Seu Costa foi a primeira cara que apareceu de manhã a Roberval. O agiota havia substituído a fisionomia solícita por um ar sisudo e ameaçador.

 

– O senhor não me deixa mais trabalhar?

 

– Cala a boca, rapaz, cala a boca. – o sombrinheiro se abalou, começou a martelar uma tala de sombrinha com o polegar direito, para fazer escoar o nervosismo.

 

– Posso lhe pagar de pouco. Diga como.

 

– Não tem como, quero o dinheiro todo, mais metade, de juros.

 

– O senhor sabe que não tenho.

 

– Azar o seu. Ou me paga ou vai ser visitado de novo como ontem à noite – gostou da visitinha? – e se afastou andando firme, marcando as passadas com a ponta da bengala.

 

Roberval pegava uma sombrinha, depois outra, voltava a pegar a primeira, sem conseguir se concentrar – a enrascada era grande, podia ter ficado sossegado no seu canto, sem se botar a pedir dinheiro emprestado a um bandido como aquele. E para quê? Para calar boca de vizinho? Como se isso fosse possível! Não aguentou a angústia e largou o serviço que fazia. Pôs-se a perambular atrás de uma solução. E havia? Apertava com força uma tala de guarda-chuva que trazia consigo. Parou na praça para tomar um caldo de cana, mas não passou do meio do copo, agoniado por uma ansiedade nova e poderosa, que lhe estrangulava também a bexiga, dando-lhe uma difusa vontade de urinar. Andava como um autômato, entrando e saindo das lojas. Atrapalhava-o ainda mais a estamparia dos tecidos, os chitões ramalhudos de desenhos encarnados e ramagens verde-roxas que os fofões usavam para o carnaval; máscaras horrendas, de narizes enormes e pontiagudos a saírem de cabeleiras de fibras de sisal, que se estreitavam sobre sua cabeça, como a querer avisá-lo de alguma desgraça próxima.

 

Ao dar por si, quase no fim da tarde, estava parado à porta do escritório do agiota, o estômago apertado de fome, a cabeça latejando com as doses de cachaça que tomara, o coração surpreendido com aquele amor pelo filho. Subiu as escadas. Encontrou a secretária organizando notas promissórias entre goles de café gelado.

 

Roberval nada disse à mulher, abriu a porta do escritório, avançou em direção ao agiota que, de pronto, se levantou da cadeira giratória, acuado, com mal pressentimento. Roberval deu-lhe um soco violento. O barulho atraiu a secretária, que se petrificou diante do que via: o patrão dominado pelo sombrinheiro, que lhe desferia sucessivas espetadas no pescoço com a tala de guarda-chuva, enquanto o sangue se espalhava por cima da carteira. A mulher começou a gritar, aterrorizada com o corpo que agonizava.

 

Roberval fugiu. Mas teve tempo de ir buscar a mulher, o filho e o velho. Na rodoviária, ele lavou das mãos um resto de sangue. Embrenharam-se num povoado a quilômetros de Bacabeira. O velho morreu uns três meses depois, numa crise de hipertensão.

 

Lenita Estrela de Sá é graduada em Letras e Direito. Tem treze livros publicados de forma independente, em diversos gêneros literários: poesia, conto, literatura infantil, teatro, roteiro de cinema e televisão. Em 2017, publicou “Antídoto”, poemas, com apresentação na orelha por Salgado Maranhão. Foi incluída por Nelly Novaes Coêlho no “Dicionário de Escritoras Brasileiras” (Escrituras, 2002). Participa das revistas literárias “O Casulo – jornal de poesia contemporânea” (Ed. Patuá, 2016), “Germina – revista de Literatura & Arte” e “InComunidade” (Portugal). Participa das antologias “Mulherio das Letras 2017”(conto e poesia), “Do Desejo – as literaturas que desejamos” (Ed. Patuá, FLIP 2018) e “A mulher na literatura latino-americana” (EDUFPI/Avant Garde Edições, 2018). Foi incluída por Rubens Jardim na série “As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira” (2016), publicada no blog do autor e no e-book de mesmo título, v.2 (2018). Recentemente lançou “Brasas ardentes na ponta dos dedos” (contos), pela Editora 7Letras, RJ, com apresentação na orelha pelo romancista Alberto Mussa.

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Flávio Sant’Anna Xavier, Adán Echeverría ..., Adelto Gonçalves, Amoi Ribeiro, André Ricardo Aguiar, António Vera, Carlos Matos Gomes, Elisa Scarpa, Eunice Arruda, Federico Rivero Scarani, Geraldo Lavigne de Lemos, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jandira Zanchi, Jorge Castro Guedes, José Ioskyn ; Rolando Revagliatti, entrevista, Leila Míccolis, Lenita Estrela de Sá, Leonardo Almeida Filho, Luanda Julião, Luca Argel, Luiz Otávio Oliani, Maria Emília Lino Silva, Mariana Sosa Azupian, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Octavio Perelló, Ramón Peralta, Ricardo Ramos Filho, Salomão Sousa, Túlio Henrique Pereira


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Le marchand de bestiaux', 1912.


Paginação:

Nuno Baptista


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