ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


A terceira margem da rua

Em 1904, com seu romance Esaú e Jacó, Machado de Assis fixou, na Literatura Brasileira, sob o signo da ironia política, a importância da tabuleta. Tornou-se célebre, nos capítulos LXII e LXIII dessa narrativa, a tabuleta que Custódio mandara pintar para seu estabelecimento, que se chamava Confeitaria do Império. Proclamada a República, o proprietário experimenta uma situação crítica e pede para o pintor “parar no d”. Quatro anos depois, em 1908, exatamente no ano da morte de Machado, um outro escritor carioca, também mulato e dotado de forte munição de humor, ironia e sarcasmo, poria definitivamente a tabuleta como relevante insígnia dentre os demais códigos na configuração da linguagem das ruas do Rio de Janeiro. João do Rio, pseudônimo de João Paulo Alberto Coelho Barreto, a certa altura de uma crônica de A alma encantadora das ruas, pergunta: “Quem inventou a tabuleta?” Atrás dessa pergunta, há o inquietante questionamento de um cronista que, cavaleiro andante convertido em inflamado flâneur, andarilho das ruas, indaga sobre a natureza desses brasões, encarados como verdadeiros tratados da psicologia urbana.

 

Para o leitor do século XXI, as crônicas de João do Rio exibem uma assustadora contemporaneidade, ainda que seus textos sejam mediados “pelo compromisso com o ideal estético de vida, copiado ao art-nouveau”, como salienta Antonio Arnoni Prado, em seu ensaio “Mutilados da Belle Époque”, publicado em Os pobres na Literatura Brasileira. João do Rio, obcecado por tudo o que se vê nas ruas, ao registrar o caráter feérico das tabuletas e dos reclamos de sua época, dialoga com o nosso tempo, cada vez mais tatuado de outdoors, lasers, miriônimos de spams, para aproveitar um neologismo do cronista, expressando uma ideia de multiplicidade. O que está inscrito em todas as tabuletas, observa João, é o frêmito do que desejamos: “Aparecer, vender, ganhar.” E o reclamo, a propaganda, torna-se o senhor do mundo, imperando nas ruas e expondo as diversidades das facetas urbanas, muitas vezes com paradoxal comicidade, como um “Açougue Celestial” ou uma taberna com a nefelibata designação de “A Tebaida”, ou um hotel de alta rotatividade chamado “Fidelidade”. Apontando, com humor, os deslizes gramaticais inseridos nas tabuletas, como a ausência de uma vírgula no “Grande Armazém de líquidos comestíveis e miudezas”, ou registrando o protesto do proprietário que censura o plural de “Vendem-se móveis”, alegando que era ele apenas quem vendia, João do Rio nos transmite o que realmente faz parte da alma das ruas, em seus detalhes, que podem ser risíveis e grotescos, sórdidos ou trágicos. A tabuleta é um detalhe que não foge aos olhos vorazes que comiam a cidade densa e complexa, “cardápio de sensações” para um escritor fascinado pela observação.

 

Em uma crônica no Jornal do Brasil (13-08-1981), Carlos Drummond de Andrade assinalou que João do Rio “é, fundamentalmente, um escritor-jornalista mais do que jornalista-escritor”. Ao transformar a cidade em personagem, ao estetizá-la e humaniza-la, o autor de A alma encantadora das ruas renovou o nosso jornalismo, que passou a ser mais investigativo, vertiginoso e incômodo, uma vez que exibia a cárie no sorriso da sociedade da Belle Époque. O seu texto, que é linguagem-vertigem, não fica muito aquém de inovações modernizantes deflagradas pelos paulistas de 1922. Aliás, já é tempo de a crítica reavaliar a situação de certos autores, como Monteiro Lobato, Lima Barreto e o próprio João do Rio, localizados numa espécie de limbo estético nessa fase de interregno pré-modernista. O cosmopolitismo do Rio, ao servir-se de cenário para Paulo Barreto/ João do Rio como Paris foi o cenário de Paul Duval/ Jean Lorrain, deixa entrever chagas que até hoje chegam aos nossos olhos, pelos jornais e pela tevê. Em uma crônica, o autor, mais Dante do que dândi, segue um Virgílio/ Delegado pelos círculos infernais das prisões cariocas. E João do Rio é nosso Dante urbano no mundo das sombras da cidade, onde rasteja um submundo. O problema penitenciário, tão nosso contemporâneo, a mendicidade, o trabalho infantil, as condições subumanas dos trabalhadores de estiva, a promiscuidade das habitações miseráveis, tudo isso constitui as figurações da pobreza na época em que o Rio de Janeiro civilizava-se, que o progresso ditava suas transformações e até a “Europa se curvava diante do Brasil” devido à invenção de Santos Dumont.

 

Ainda que a epígrafe, colhida do humorista inglês Jerome K. Jerome, fale numa certa contenção (“I do not want to swamp you with knowledge”, não desejo saturá-lo de conhecimento), o que se lê em A alma encantadora das ruas é, para usar um termo típico de João do Rio, a nevrose excitada e exacerbada de uma escritura passional, exagerada em partilhar com o leitor tudo aquilo que a democracia loquaz das ruas propaga e instiga. João do Rio sabe que, antes de tudo, a rua é linguagem. A rua transforma a língua. E, quem tem o espírito de flâneur, de flanar com inteligência pelas ruas, acaba extraindo a arte dessas peregrinações. A arte impregna-se nas observações de João do Rio, que aprendeu com Oscar Wilde que “nada como inútil para ser artístico”; aprendeu com Egar Allan Poe a observar “o homem das multidões”; aprendeu com o detetive de Conan Doyle que a rua deixa indícios para o regozijo das imaginações; aprendeu que a rua dá lições de humildade e doçura, pois nos convence da “inutilidade da cólera e da necessidade do perdão”. Heródoto, Rembrandt, Goya, Moliére, Shakespeare, Demolins, Zola, Dickens e tantos outros ocupam um “cérebro cheio de literatura”, de história e de arte, na construção hipertrofiada de um mosaico em que se veem músicos ambulantes, cordões carnavalescos, presepes com figuras anacrônicas, pivetes, mulheres mendigas e detentas, trovadores, operários dos depósitos de carvão e manganês. Além de suas duas margens, a rua que irrompe nas retinas de João do Rio evoca-nos um outro João e um outro rio, em cuja terceira margem paira nossa perplexidade.

 

As 27 crônicas que compõem A alma encantadora das ruas são artérias estruturadas em cinco blocos: “A rua”, “O que se vê nas ruas”, “Três aspectos da miséria”, “Onde às vezes termina a rua” e “A musa das ruas”. O primeiro bloco é composto por uma crônica-síntese, que revela o amor do cronista por aquilo que os dicionários friamente chamam de “alinhado de fachadas por onde se anda nas povoações”. O segundo bloco aborda pequenas profissões, pinturas, reclamos, vícios, músicos, cocheiros, presépios, missas, cordões de carnaval. No terceiro bloco, há o desfile de pobres mulheres, operários, pivetes, mendigos. O penúltimo bloco é dedicado às prisões, aos crimes, às ideias capitais dos presos. O derradeiro bloco é uma longa apresentação de uma coletânea de versos populares, em que se nota a ambiguidade do cronista na apreensão da sátira e do lirismo de extração popular. Ao mesmo tempo em que se verifica ironia à estética parnasiana e simbolista (designada ironicamente como “nefelibata”), nota-se, também, uma certa reserva em relação às produções de Catulo da Paixão Cearense, Eduardo das Neves, Manezinho do Saco e Zuzu Cavaquinho.

 

Na passarela das elegâncias e coquetterie da Belle Époque, em que se fumava a cigarrilha gianaclis e se usava o capote macfarlene, o cronista João do Rio, que tinha alma de dândi, oferece-nos, em A alma encantadora das ruas um dantesco retrato da Capital Federal na primeira década do século XX, caminhando por alforjas e chombergas, ruas estreitas e casas pequenas, numa linguagem repleta de termos híbridos, moxinifados, em que se encontram o kriss, punhal malaio, como os djinrickchas, carrinhos orientais (impressionante a visita que o cronista faz aos chineses fumadores de ópio). Infatigável, o escritor propicia aos seus leitores uma galeria heterodoxa: a musa das ruas, as trovas populares, as marchinhas carnavalescas, as orações, o frenesi báquico que ronda as Missas do Galo em várias igrejas do Rio, as mariposas do luxo – que não são prostitutas, mas pobres mulheres que sonham com a moda parisiense na rua Ouvidor, os “urubus” – que exploram a indústria da morte - , os mercadores de livros e o imutável gosto popular de leitura, os tatuadores, cujas tatuagens refletem paixões, ideologias – códigos que o cronista vai decifrando e tatuando em nossas retinas fatigadas esse caleidoscópio frenético da cidade maravilhosa que nem sempre tem encantos mil.

 

(*Esse texto serviu de prefácio para a edição de A alma encantadora das ruas, publicada pela Editora Crisálida, de Belo Horizonte, em 2007)

 

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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