ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Três poemas longos

A seguir era como se fosse noite
(foi uma ausência cuja repetição dos dias
não me sujou)
A seguir era como se fosse noite
(naufrágio do arrumo e de oficinas)
A seguir era como se fosse noite
(contemplação de vegetais e armas)
Desgastei-me a inovar a distância
Espantei-me com o trabalho das palavras
Resguardei-me na rapsódia de ilhas
Monitorizei a fama
Rasurei petrarca
Reenxertei camões
Produzi a displicência de pessoa
Melhorei os cheiros de cesário
Lamentei a morte de amadeo
Vindimei florbela
Partilhei joyce
Toquei violinos religiosos
A seguir era como se fosse noite
(no quarto recorri a cartas de amor)
Fascinei-me com o mundo
Deserdei as areias técnicas
Arrefeci as livrarias
Vocalizei o ciúme
Morri na cantaria
Ocultei o como dávamos
longos passeios aos domingos
A seguir era como se fosse noite
(estremeci no jardim longo)
Juntei raivas e gangas
Construí panelas de pressão
Estalei o diabo dos tarôs
Apaguei o entardecer doce
Disparei a alegoria e excluí-me.

 

 

 

 

 

 

Lembrara-se de uma aula onde se discutira a subtileza
e a eternidade
em  tubos  de compasso
evocando  magia e  pães
Lembrara-se da esperança dos que não têm tempo
Lembrara-se do desfibrar romãs
Lembrara-se das esferas
nos limites de um declínio
evocando os soalhos de newton
o estribilho de descartes
a  utopia  de rousseau
Lembrara-se de arautos 
de areias de descobertas  ocasos
de nozes recordadas
de limões centrípetos
Lembrara-se de arritmias
Lembrara-se de ventres gordos
evocando a liberdade
(deus caminhava devagar)
Lembrara-se de lâmpadas
de experiências enredadas
de aniquilamentos surdos
E a eternidade tardava a repor
a  visita dos  reis magos
e jesus prolongava a espera do êxtase
madalena estremecia o perfume
dos ignotos e dos autênticos
(deus caminhava devagar)
Lembrara-se de dores geográficas
cruzes anéis soturnidade
(deus caminhava devagar)
Lembrara-se de uma dúvida
de um alimento de uma nesga
Lembrara-se que a eternidade
se dilui não na semelhança
mas na desigual  idade  de fonemas
na promiscuidade das peles
na estrangeira cobiça de envolvência
(deus caminhava devagar)
Lembrara-se e guardava o som
com o qual esbanjava a temporalidade
com o qual , tal lume, se desguarnecia
se percorria se desolava na noite branca
( a eternidade essa , indizível, reunia a desordem
e assim se espraiava imune).

 

 

 

 

 

 

Para os Poetas, Ítaca de Condição

 

Como diz o poeta, a alegria é um exercício da morte,
naquela  proteção de  álbuns de relíquias nas caves,
naquelas harmonias de respiração , esplendor, ilimites,
que se prendem na fabricação de momentos
até um fim tão tingido de dor como o de sonoridade indómita.
Como diz o poeta, a alegria é um exercício da morte,
bebedeiras de êxtases, melindres, nuvens, hiatos,
o olhar o rosto tão amado no teclado  de passeios na concretude,
o regar o terreiro de esperanças com um pincel de adubos,
alcançando  a eternidade como se a condição da vida não fosse
a negritude e o pó,
segurando um corpo na contaminação de despedidas breves,
ardendo  páginas da reclusão, encobrindo o nevoeiro das soidades,
desaguando no presente com as chaminés dos intestinos
regados a vinho, sementes, calcários, silêncios
Quando nos extinguirmos nos rochedos, guardamos connosco
apenas as vogais com que soletrámos as alegrias,
as máscaras de gasolina nos  girassóis,
o olfato do tudo, cheiros poucos de azenhas,
lâmpadas das virilhas que cantámos,
regressando à terra do nada onde o esconjuro se deita.
O poeta, esse, sabe da alegria na aprendizagem da morte,
e aprende a deitar fora os grãos e o arroz
de despedidas no insólito de lâminas e águas
porque o  poeta , ítaca de condição, regressa-se
e sossega-se em novembros e dezembros
e outras temporalidades finitas e calendárias

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Paginação:

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