ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

André Nigri


COM A CORDA NO PESCOÇO

“A fantasia da pureza é um horror” (Philip Roth)

 

 

1

 

“Antônio, Antônio Vilela!” Havia quase vinte anos e ninguém de quem eu me lembrasse me conhecia ali. Portanto, ouvir meu nome no corredor de um mercado de quinquilharias eletrônicas abarrotado de gente zumbindo alto pareceu-me antes o efeito aleatório de duas palavras entrechocando-se no ar daquela colmeia humana do que um apelo dirigido a mim.

 

Ninguém a não ser uma pessoa, mas essa pessoa estava morta. Havia acabado de voltar do seu enterro depois de ter dirigido seis horas desde o meio do nada para onde me mudara há duas décadas e resolvido pernoitar num hotel antes de pegar o carro e percorrer os 400 quilômetros de volta na manhã do dia seguinte tão logo acordasse. E por mais cansado e despersonalizado que me sentisse após pensar no corpo metido naquela caixa de madeira, ouvir meu nome era tão incongruente que continuei avançando pelo corredor apinhado entre boxes minúsculos e repletos de todo tipo de objetos e artefatos e que só por um milagre não despencavam dos diminutos balcões onde estavam amontoados.

 

Escolhera um hotel no centro onde há muitos anos hospedara-me algumas vezes. Já naquela época sua decadência era visível, embora me agradassem ainda hoje sua fachada amarela esmaecida e suas linhas arte decô. O quarto era amplo com uma cama de casal de ferro, uma poltrona de couro com encosto alto, uma mesinha ao lado, e dois criados com abajures. O banheiro pouco mudara. A pia esmaltada era munida de duas torneiras marcadas, uma com a letra F e outra com a Q, conquanto a água de ambas tivesse a mesma temperatura fria. Havia ainda um bidê e a área do chuveiro a gás era defendida por uma cortina de plástico atrelada a uma trave de metal. As janelas de portas duplas estavam um pouco emperradas quando as forcei.

 

Lá embaixo via-se a estátua plantada numa ilha no meio do cruzamento de duas avenidas; um herói com a corda no pescoço e as mãos amarradas atrás que não diminuíam nem um pouco a marca da irrevogável feiura da minha cidade natal.

 

Tendo chegado do cemitério antes do anoitecer, resolvi deixar o hotel e caminhar um pouco pelas ruas antes tão minhas conhecidas, mas pelas quais agora percorria com indiferença e desinteresse. Mas talvez as duas coisas não passassem de disfarce para o rancor.

 

Quase nada havia mudado, apenas uma duvidosa modernidade substituíra a mesma duvidosa modernidade de antes. As calçadas continuavam irregulares, esburacadas e sujas e as vitrines das lojas apenas acrescentaram palavras em inglês. Contudo, no lugar de alguns poucos cinemas cuja sobrevivência prolongara-se com filmes pornográficos havia agora labirintos de lojas exíguas dominadas por chineses e coreanos vendendo mercadorias falsificadas e contrabandeadas.

 

Fora numa dessas intricadas galerias que me encontrava quando julguei ter ouvido meu nome. Não permaneci lá dentro por mais de dez minutos. Tampouco prossegui meu passeio. Nada naquela cidade me atraía mais. Voltei para o hotel onde antes de subir para meu quarto decidi beber alguma coisa no bar-restaurante no segundo andar. 

 

Também ali nada havia mudado: o balcão de mármore com tamboretes de assento giratório, a estante alta de bebidas, lambris de madeira nas paredes e os reservados. Sentara-me ali há vinte anos com ela, num daqueles reservados junto aos vidros. Passávamos horas conversando e bebendo. Parecia termos muito o que dizer. Num dos cantos havia um piano; ainda estava lá. Só depois de algumas horas, durante as quais não me cansava de observar o rosto tão amado, é que subíamos.

 

Resolvi pedir um Campari em homenagem aos velhos tempos. Fiz sinal para o único garçom do salão. Encostado ao balcão com um guardanapo branco dobrado no antebraço, ele se parecia a uma relíquia com seu uniforme de paletó e camisa brancos, calça preta e gravata borboleta. Arrastou-se até minha mesa pelo piso de parquet encerado onde antigamente alguns casais costumavam dançar e fiz meu pedido.
 
Dali via o herói no meio do trânsito; a grande figura esculpida em pedra de forma grosseira com a cabeça grande demais, os cabelos escorridos sobre os ombros largos, a túnica até os tornozelos e os pés disformes de gigante. O protomártir da nação a poucos minutos de ser enforcado após ter sido traído em sua majestática versão de pedra exibia a convicção altaneira e impassível do dever cumprido e o fato de isso ter-lhe custado a vida não parecia pesar um grama na sua consciência.   

 

 

2

 

“Gostei daqui. Esses lugares decadentes conservam o perfume do passado”, ela disse sem parar de observar o salão cheio onde erámos os mais novos entre os clientes.

 

Havia pedido dois Camparis e, embora tivesse elogiado a cor sanguínea da bebida e a rodela de laranja espetada na borda do copo longo, fez uma careta ao experimentá-lo. “Você e seus gostos extravagantes. Gosto disso em você”, disse em seguida.

 

Aos 27 anos, Helena era pequena, mas tinha braços e mãos tão delgados e o cabelo curto muito preto disfarçavam seu 1 metro e meio de altura. Mas era sobretudo a impetuosidade por trás do corpo miúdo o que a tornava  irresistível. Ao menos para mim, cuja coragem para convidá-la a sair levou quase um ano, desde quando começamos a trabalhar na mesma agência de notícias. Se levei tanto tempo para tomar a iniciativa não foi apenas pelo modo como sua beleza e eloquência me intimidavam, mas pelo fato nem um pouco prosaico de que era uma mulher casada. “Sou tremendamente infeliz, mas não consigo me separar do meu marido.” Foi só algumas semanas depois de ouvir por acaso essa confidência na cantina da agência que, ao segui-la até a saída, ao invés de sorrir e dizer tchau disse “Que tal se a gente saísse um dia desses?” Na hora, ela apenas sorriu e respondeu “Quem sabe?” Uns quinze dias mais tarde, caminhou até minha mesa e falou: “Para onde você pretende me levar?”

 

E agora que estávamos a poucos centímetros um do outro no reservado do bar de um hotel com um homem grisalho trajando casaca tocando algum tema romântico ao piano, ela revela-me coisas a meu respeito de cuja natureza eu jamais desconfiava.

 

“Sabe que mais de uma mulher na agência o considera um homem atraente? Sua timidez só aumenta o interesse delas. Você não tem nenhuma vaidade sexual, e as mulheres se tornam vorazes com alguém que esconde tão bem esse lado de rapacidade.”

 

“E quanto a você, Helena?”  

 

“Eu? Sou uma mulher casada e amo meu marido. Mas, sim, você é um homem muito atraente. Seria capaz de amá-lo também. Seria, mas antes que você se encoraje, adianto que não vou. Então por que, você deve estar pensando, eu estou aqui com você, num lugar tão propício ao adultério, como se eu fosse a Emma Bovary?”

 

“Por quê, já que tampouco eu sou o Rodolphe?”

 

Como se me ignorasse, ela continuou: “Por que você não convida a Ana, a Virgínia, a Michele e pelo menos mais uma dúzia de mulheres mais gostosas para sair? Aposto que nenhuma delas resistiria. E todas solteiras. Cheias de casos,  disponíveis e prontas para se deitar com um cara como você. Mas logo eu! Em casa não tenho propriamente um Rodolphe, mas também não é um capacho pronto a ser pisado como Charles Bovary.”

 

“Como ele é então?”

 

“Olha, você não vai conseguir nada abrindo esse atalho. Não vou expor as vulnerabilidades dele.”

 

“Quem aqui está abrindo um atalho?”

 

“Você é bom nisso, não é? Daria um ótimo psicólogo, invertendo as intenções e armando arapucas. Quem olha você, revestido com todo esse decoro, com essa couraça de retidão e bom-mocismo, nem pode imaginar quanta malícia se encontra aí dentro.”

 

“É, você me acha malicioso?”

 

“Não sei. Não sei nada sobre os homens. Mal conheço meu marido. O que estou dizendo é que você podia ter escolhido duas dezenas de mulheres para trazer a esse lugar lindo e foi escolher logo a mim.”

 

“E qual seu palpite por ter escolhido logo você?”

 

“Porque a beleza o intimida. Diante de uma mulher bonita, você se fecha como um caramujo. Não bota nem a cabeça pra fora.”

 

“Pra mim, você é uma mulher linda.”

 

“Pare com isso. Você não sabe nem mentir. Um cafajeste precisa saber mentir.”

 

“Me apaixonei por sua complexidade. Estou fascinado pelas suas contradições.”

 

“Eu me enganei, você sabe mentir também. E é muito bom com as palavras. Mas não vale a pena colocar suas fichas em mim. E não por me achar autoconfiante, mas justamente pelo contrário. Por ser tão simplória e convencional que qualquer expectativa depositada em mim despencaria tão logo a gente se beijasse.”

 

“Você tem certeza de que quem se engana aqui sou eu?”

 

“Eu não disse isso. Estou me referindo às ilusões de que você se alimenta.”

 

“E você se alimenta de quê?”

 

“Realismo.”

 

“Uma dieta bem magra para alguém como você.”

 

“Pode até ser, mas o risco de se quebrar na queda é menor.”

 

“Se você não gosta de correr riscos, por que aceitou meu convite então?”

 

“Porque sou burra. Porque você é instigante, porque sempre reparei em você, porque também sou membro do seu fã-clube, porque por mais que procure não consigo fugir do caráter aleatório da vida, e porque meu marido e eu não temos uma conversa inteligente há centenas de anos, porque ele jamais me traria a um lugar como esse, e porque desejo beijar você, mas não vou.”

 

“Quer beber outro Campari?”

 

“Não. Já estou bêbada. Vou pedir um táxi.”

 

“Estou de carro. Posso te deixar em casa.”

 

“Não acho uma boa ideia. Assim como não foi uma boa ideia vir até aqui.”

 

“Você é quem sabe.”

 

“Você promete?”

 

“Prometer o quê?”

 

“Que não vai tentar me beijar no carro.”

 

 

3

 

Neste momento do nosso primeiro encontro fui arrancado de volta ao presente quando a relíquia de branco, o garçom, surgiu a dois passos do meu reservado e disse haver um “senhor” junto ao balcão que gostaria de falar comigo.

 

Mal tinha reparado que além de mim, havia mais alguém no bar. Quando me virei, notei que ao menos uma dúzia de pessoas se espalhava pelo salão, três delas sentadas nos tamboretes e, quando me esforcei para ver qual delas era o tal senhor que me solicitava, constatei que nenhuma delas olhava em minha direção. Tudo o que eu não queria era encontrar-me com alguém ou, o que seria ainda pior, ter de conversar com alguém. Se escolhera esse velho hotel foi para não ter o dissabor de um encontro. Ainda mais agora depois das lembranças despertadas pelo Campari.

 

“Esse senhor deve ter me confundido”, eu disse.

 

“Antônio Vilela não é o senhor?”

 

“Como eu disse, ele deve ter se enganado”, respondi e levei a mão ao bolso de onde tirei a carteira e dela três notas de dez. “O senhor pode dizer a ele que houve um engano?’, perguntei estendo-lhe as cédulas dobradas. “É claro, senhor.” “Obrigado. Tome mais isso pelo excelente Campari, e fique com o troco.”

 

Vendo o garçom afastar-se após uma quase imperceptível mesura, levantei-me o mais discretamente possível e me encaminhei para a porta atravessando-a muito antes de meu mercenário mensageiro alcançar o balcão. Ainda no elevador a caminho do meu andar, fui pensando que não fora uma alucinação ouvir meu nome no mercado coreano e me perguntando quem seria o dono daquela voz e por que, meu Deus, queria falar comigo? 

 

Talvez tivesse me visto no cemitério hoje à tarde conquanto eu tenha permanecido o mais incógnito possível a uns bons 50 metros de onde sepultaram Helena, escondido atrás de um agrupamento de pés de eucaliptos, e só tenha me aproximado da cova recém-coberta depois que as cerca de vinte pessoas reunidas em volta dela haviam ido embora. Certificara-me de não haver mais ninguém ao redor. Então fiquei de pé junto ao monturo de terra por uns dez minutos e também fui embora. Ainda que alguém do grupo tivesse me visto não havia chance de me reconhecer.

 

Helena não tivera filhos e o marido morrera fazia uns cinco anos. A agência de notícias na qual trabalháramos não mais existia e não reconheci nenhum de nossos antigos colegas. E nosso caso passara tão anônimo quanto minha fuga da cidade. O único motivo que me prendera ali e a única razão que fizera ir embora já não viviam mais.

 

Soubera da sua morte por acaso. Ao ligar a televisão na manhã de ontem, enquanto almoçava, o jornal noticiara um assalto seguido de morte. Ao ver sua foto e ouvir seu nome, não senti nenhuma emoção; fui engolido pelo vazio e só aos poucos ele começou a ser preenchido pelas lembranças, mas mesmo elas foram incapazes de me arrancar da indiferença. Só no meio da tarde, depois de conversar com o representante da fábrica para a qual vendia minha produção de leite foi que resolvi dar um interurbano para o Instituto Médico Legal da capital e confirmar a notícia. Identificando-me como parente soube onde seria enterrada no dia seguinte, mas só decidi pegar o carro assim que amanhecesse e viajar no meio da madrugada insone.

 

Ou talvez fosse um ex-colega que me reconhecera e tivera intenção de me encontrar. Mesmo nesse caso o que alguém conhecido podia querer comigo depois de tantos anos? Fizera questão de cortar todos os laços que me prendessem a eles e a essa cidade. Ocorria-me apenas a curiosidade como motivo. Mas seria isso o suficiente para ele me seguir até o hotel e pedir ao garçom me avisar de sua presença? Por que não se dirigira diretamente à minha mesa e se anunciara? Por que ficara de costas quando a notícia de sua presença e o desejo de me ver me foram transmitidos pelo avelhantado garçom? Mas certamente o pior de tudo fora a maneira súbita como fora interrompido em minhas lembranças. Eu já pensava em pedir outro drinque antes de subir. E agora no quarto, algo de novo se rompera e me sentia ressecado. Sabendo que não deveria fazer o que estava fazendo, liguei para o bar e pedi para falar com o garçom e alguns minutos depois a voz rouca atendeu e perguntei se o senhor que havia me procurado ainda estava lá. Ao ouvir que tinha ido embora, deixei o quarto, desci e me instalei no mesmo reservado onde há apenas uma hora eu estava sentado, e recomecei, após pedir outro Campari, do ponto onde houvera sido interrompido.

 

 

4

 

Naquela noite, tendo-a levado de carro até a porta de seu prédio não a beijei. E nos dias seguintes, ao cruzarmos nos corredores da agência, apenas nos cumprimentávamos ou, em rodinhas na sala do café, comentávamos as notícias da semana.

 

Todavia, algo mudara.

 

Ao notar minha presença, passava a falar do marido com entusiasmo; exaltava suas virtudes e associava sua insociabilidade ao fato de passar o dia pesquisando e escrevendo. Uma colega quis saber qual era o tema a que tanto se dedicava. “Ele examina a traição do herói de nossa independência; não acredita ter sido apenas um dos conspiradores a delatá-lo; quer provar que a sociedade inteira voltou-se contra ele para execrá-lo, julgá-lo e finalmente executá-lo. Segundo sua visão, houve uma deliberada falsificação para poupar os outros conspiradores do linchamento público e uma ardilosa fabricação de um mito que os poupou não apenas de serem castigados como os enriqueceu. Bem, não sei muitos detalhes, mas resumindo, o que o obceca é desvendar a natureza da traição: o que nos leva a trair, por que traímos?”   
  
Costumava dar carona quando deixava a agência depois das oito. Às vezes até cinco pessoas se espremiam no meu Ford Fiesta azul. Helena era uma delas porque embora tivesse carro não tinha a menor paciência com o tráfego.

 

Duas semanas depois daquele encontro, eu abria a porta do carro no estacionamento quando ela apareceu e me perguntou se podia deixa-la próxima de casa. Por acaso, não havia nenhum outro passageiro naquela vez. Ela entrou e partimos. Durante todo o percurso só conversamos sobre banalidades relacionadas à agência, mas a poucos quarteirões onde devia deixá-la interrompeu fosse lá o que estivéssemos tagarelando e me perguntou se não poderíamos tomar um Campari naquele “bar de hotel com perfume de passado”.  “Isso”, acrescentou, não sem o que me pareceu um traço de malícia, “se você quiser ou não tiver outro compromisso.”    

 

“Então, é sobre ele que seu marido está escrevendo?” perguntei apontando para a massa cinzelada de pedra do alferes a caminho do patíbulo lá embaixo.

 

“Sobre mim também.”

 

“Você?”

 

“Eu não devia estar aqui. É sobre eu estar aqui quando devia estar em casa com ele.”

 

“Acho que já tivemos essa conversa antes. Então vou perguntar de novo, por que você está aqui?”

 

“Senti a sua falta. Está contente de ouvir isso?”

 

“O desconhecido.”

 

“Não entendi.”

 

“Milan Kundera escreveu que trair é partir para o desconhecido.”

 

“Não me venha com erudição. Isso é uma frase feita.”

 

“E nada lhe parece tão belo quanto partir para o desconhecido.”

 

“Ele escreveu isso também?”

 

“Foi o que ele quis dizer, e acho que é o que estamos fazendo, não é?”

 

“Isso é terrível. O desconhecido é terrível. Quando foi que você começou a reparar em mim?”

 

“Sua impetuosidade. Quando um dia você parou na frente da sua editora e mostrou sua indignação sobre uma matéria que achava inadequada.”

 

“Antes era a complexidade, agora, a impetuosidade. Acho que você iria se decepcionar se soubesse que debaixo disso só existem simplicidade e banalidade. Sou a pessoa mais convencional que você podia conhecer.”

 

“É mesmo? Acho que você é igual àquele cara lá fora com a corda no pescoço.”

 

“Não sei do que você está falando. De qualquer jeito, não tenho vocação para ser nenhuma heroína.”

 

“Não quis dizer isso. Talvez sua vocação seja ser mártir.”

 

“Sabe que não é tão ruim quanto no início?”

 

“Ser mártir?”

 

“Não, palhaço. Campari. Depois que você toma o primeiro, fica bom.”

 

“E em casa, o que você faz em casa?”

 

“Meu marido não bebe nada alcoólico. É viciado em Coca-Cola. Bebe até quente.”

 

“É só esse vício?”

 

“Claro, que outro vício você suspeita que ele tem?”

 

“Você. Ele é viciado em você. Quando ele passa o dia todo lendo e escrevendo sobre traição, está pensando em você.”

 

“Olha, chega! Achei que você fosse perspicaz, mas essa foi demais.”

 

“Como você quiser. Mas posso fazer uma pergunta? E quanto a você, além de ser a pessoa mais simplória do mundo, a esposa mais fiel que um marido pode desejar, qual é seu vício secreto?”

 

“Sabe, eu achava você inacessível.”

 

“Para você ver como a gente se engana, pois eu também achava você inacessível.”

 

“Para você ver como minha autoconfiança é mais baixa do que eu.”

 

“É mesmo? Sempre ouvi falar que os baixinhos eram os mais petulantes. A história está cheia de tampinhas explodindo de autoconfiança.”

 

“Para. Quase engasguei.”

 

“Você não para de olhar o relógio.”

 

“Combinei de assistir um filme com meu marido.”

 

“No cinema?”

 

“Claro que não. A gente nunca vai ao cinema juntos. Em casa.”

 

“Bem, então ele não é tão obcecado quanto você deu a entender.”

 

“É um filme sobre o holocausto. Um documentário sobre o holocausto. Você consegue imaginar algo mais romântico do que assistir a um filme sobre milhões de pessoas sendo exterminadas ao lado de seu marido na cama? Você acha que depois de duas horas vendo esse horror vocês dois desligam a TV e vão trepar?”

 

“Por que você se casou tão cedo?”

 

“Porque me apaixonei. Se você acha que sou impetuosa, precisava ver o ímpeto dele na faculdade. Nunca havia conhecido alguém tão aguerrido, tão indignado pelos motivos mais justos, alguém com tamanha combatividade. E intelectualmente ninguém se comparava a ele. Aos 19 anos ele já tinha lido tudo. Era ardoroso, idealista e rebelde. Arguia os professores quando discordava deles, ia à sala do reitor para discutir quanto às políticas de ensino do departamento. Não se deixava intimidar por nada. Foi preso duas vezes por liderar protestos dos estudantes. Eu olhava para os lados e via um monte de garotos babacas, acovardados e comodamente instalados na sua segurança burguesa. Enquanto ele era neto de anarquistas, saíra de casa antes de entrar pra universidade. No meio de uma multidão, quando ele começava a falar na mesma hora todo mundo ficava em silêncio escutando. Só de olhar pra ele você se sentia estimulada. Foi por isso.”

 

“Mas como uma garota cuja imagem de si mesma reflete tão pouca confiança conseguiu conquistar o coração do orador mais popular e arrebatador do campus?”

 

“Você faz perguntas demais. E eu sou idiota demais porque não consigo deixar de respondê-las. A verdade é que ele era tímido com as mulheres.”

 

“Qual era a natureza da timidez dele?”

 

“Ah, assim não dá. Isso está indo longe demais. Peça outro Campari. Bem, acontece que ele era virgem.”

 

“Você sabia disso quando foi pra cama com ele?”

 

“Não. Era a última coisa que eu podia imaginar. Como um cara como ele, com todas aquelas meninas dos anos 80, aquelas garotas desinibidas da universidade que trepavam na grama do campus em plena luz do dia, podia ser virgem? Só me contou depois.”

 

“E você acha que ele disse a verdade?”

 

“Tenho certeza. Tenho certeza absoluta. Por causa da....”

 

“Pureza dele.”

 

“É.”

 

“Por causa dos heróis puros com os quais ele deseja se igualar.”

 

“Eu morria de ciúmes dele. Tinha certeza de que ele me traía.’

 

“Mas depois, agora, tem certeza de que isso nunca aconteceu.”

 

“Tenho. Sabe por quê? Meu Deus, eu não devia estar falando nada disso. Porque uma vez ele disse que tentou e não conseguiu. Procurou uma puta e não conseguiu trepar com ela.”

 

“E como você reagiu?”

 

“A gente passou a noite inteira chorando, e se abraçando. E aí...”

 

“Aí?”

 

“Pura que o pariu, por que eu não consigo ficar calada? Aí eu confessei que o traí.”

 

“Por quê? Por que você confessou?”

 

“Chega de tantos por quês! Porque a gente não sabe. Porque isso revogava tudo o que acreditávamos.”

 

“E depois, nunca mais aconteceu de novo?”

 

“Aconteceu com o mesmo cara.”

 

“E você contou de novo?”

 

“Não! Por Deus, não! Acho que estou bêbada. Todas minhas amigas, todas as meninas da agência, acham que sou promíscua. Todas me procuram para ouvir um conselho ou me contar com quem estão trepando. E eu não faço nada para desmenti-las. Dou os conselhos como se eu fosse a cortesã mais experiente da corte.”

 

“Bem, acho que você está atrasada pra ver os judeus sendo traídos com seu marido.”

 

“Você está decepcionado comigo, não é? Eu sabia que isso ia acontecer. Eu tinha que abrir a boca, tinha? Agora deu essa merda.”

 

“Não estou decepcionado. Estou com ciúmes.”

 

“Ciúmes? Do meu marido? Você está brincando.”

 

“Não dele. Do seu ex-amante.”

 

 

5

 

O tráfego diminuíra bastante no cruzamento em cujo centro, sobre um quadrilátero de escadas, e iluminado por dois holofotes, pousava indiferente na sua imobilidade o alferes traído. Nos degraus, havia dois corpos embrulhados em cobertores cinzentos deitados sobre jornais. Antigamente, havia uma praça ali, de forma ovalada com árvores, bancos e um pequeno lago com fontes. Mas ela foi encolhendo enquanto as avenidas que a cruzam foram se alargando. Até a feiura avançar e tomar conta de tudo. Como acontecera ao cinema transformado numa pavorosa barafunda para onde multidões barulhentas afluíam à procura das suas inúteis necessidades. A invasão da feiura tornara minha cidade insuportável como se ela tivesse sido traída. Mas agora, com o bar do hotel quase vazio, fui invadido não pelo ódio que me prendera durante tantos anos ao lugar onde nascera, mas por um fluido calmo de nostalgia; do perfume do passado como Helena dissera na primeira vez em que sentáramos lá. Constatei que agora que ela estava morta, morrera também o ódio por aquele lugar, porque nada mais me ligava a ele.

 

Sim, morrera o ódio, mas não a perturbação da revelação feita àquela noite de que não fora eu o único amante de Helena. Que houvera outro, antes de mim, embora esse outro, segundo ela repetira algumas vezes enroscada nua em meus braços, nada representava e que até me conhecer não sabia de fato o que significava sentir prazer ao lado de um homem.

 

Na época, quando nos encontrávamos duas vezes por semana para passar algumas horas juntos na cama de um quarto deste velho hotel, aquilo não representava quase nada senão um pequeno aborrecimento. Todavia, lembrando-me agora do nosso segundo encontro, com a insistência tenaz de um pequeno espinho sob a pele, sentia remorso, pois o amante não sofre de ciúmes do marido, mas contorce-se de despeito do ex-amante.

 

‘Com licença, o senhor deseja comer alguma coisa? A cozinha vai fechar.”

 

Olhei para o velho garçom com seu dólmã impecável, as veias azuis de suas mãos, e me perguntei se não era o mesmo que há vinte anos testemunhava nossos clandestinos encontros, pois seu aspecto era facilmente identificável com a decadência do local.

 

“O senhor pode me trazer mais um?”, perguntei-lhe erguendo o copo.

 

 

6                        

 

“Sabe o que uma menina da agência me disse hoje?”

 

“Que você deveria largar seu marido e casar comigo.”

 

“Para com isso. Não há nenhum devia. Estou apenas seguindo em uma direção, não sei exatamente qual, mas sei muito bem para onde voltar.”

 

“O que ela disse?”

 

“Disse que havia um brilho na minha pele e que eu estava diferente.”

 

“Diferente como?”

 

“Mais leve.”

 

“E o que você respondeu?”

 

“Que era só impressão dela, que eu sou a mesma.”

 

“Seus seios são lindos.”

 

“Não são, não. São pequenos e achatados.”

 

“Eles foram feitos exatamente à medida das minhas mãos.”

 

“Escuta, você está se iludindo, não vou largar meu marido. Não posso. O livro dele está ficando maravilhoso.”

 

“Adoro sua boceta. Adoro lamber sua boceta.”

 

“E eu adoro quando você faz isso também. Às vezes parece calistenia.”

 

“Helena Comaneci.”

 

“Meu Deus, foi a primeira Olimpíada que eu vi. Eu fazia ginástica rítmica no colégio e queria ser igual a ela.”

 

“Conseguiu ser melhor.”

 

“Ela desbancou todas as americanas, todo mundo. Foi vibrante. Uma romena comunista embasbacando o mundo. Todas as meninas queriam ser iguais a ela.”

 

“É verdade, mas ela também foi uma traidora, lembra? Abandonou a Romênia, onde era a preferida de Ceausescu e se mandou para os Estados Unidos.”

 

“Vou me vestir.”

 

“O que foi, magoei você ao dizer que a atleta mais perfeita de todos os tempos, o símbolo da pureza, o ícone da justiça e fraternidade, a epítome da retidão moral inatacável, não suportou a falta de liberdade e saiu saltitando rumo à degradação e à imundície do Ocidente? Talvez ela estivesse com a corda no pescoço. Já pensou nisso? Já pensou que o pacto da fidelidade absoluta não pode prescindir de um nó bem apertado na garganta?”

 

“Você quer que eu deixe meu marido para me casar com você. Isso não é apenas mudar a corda de pescoço?”

 

“Não se você não passa doze horas por dia obcecado pela traição, dissecando cada milimetro da felonia, furiosamente investigando a anatomia da perfídia. Isso não tem nada a ver com liberdade, e muito menos com felicidade.”

 

“Pare de falar assim.”

 

“Então vamos parar de nos ver.”

 

“Ah, não me venha com esse joguinho sujo, essa chantagem barata.”

 

“Admito. Admito que é ardiloso dizer uma coisa dessas. Mas nós não vamos amarrar nossas cabeças como aquele idiota de pedra lá fora.”

 

“Como você pode ter certeza disso? As pessoas sempre dizem isso no início. Não preciso ser a Elizabeth Taylor com seus vinte casamentos para saber que a idealização tem vida curta e que o prazo de validade da paixão vence em muito menos tempo do que a gente imagina.”

 

“Olha, vamos embora daqui e começar em outro lugar. Não sou ingênuo a ponto de achar que nosso casamento vai ser como o do último capítulo das novelas, mas é justamente por não ter tanta ingenuidade que nossas chances são altas.”

 

“Você vai se decepcionar logo comigo.”

 

“Você me disse que se alimenta de realismo, lembra? Pois é, mas acho que sua dieta é feita à base de engano.”

 

“Ir pra onde?”

 

“Agora melhorou. Tenho uma pequena fazenda a uns quatrocentos quilômetros daqui. Ela é produtiva, tenho um administrador de total confiança. Podemos reformar a casa e viver com todo conforto. Você mesma disse que não suporta essa cidade.”

 

“Mas viver no meio do mato?”

 

“Não é meio do mato. Há muita coisa para se fazer numa fazenda, sabia?”

 

“Vou me sentir numa prisão.”

 

“Ah, olha, desculpe se não consigo parar de rir. Numa prisão? Um marido furioso com a ideia de pureza, um estudioso obcecado com a traição, um tirano maluco que não consegue se imaginar com outra mulher senão você, mas que não trepa com você há dez anos. O marido-carcereiro e você acha que não vive numa prisão?”

 

“Eu não saberia nem por onde começar.”

 

“O quê? Tem medo de dizer a ele que se cansou? Você, a líder feminista e politizada do campus, a jovem estudante emancipada e libertária, tem medo de comunicar ao ex-líder da juventude esquerdista, a segunda geração do paz e amor, que simplesmente quer dar o fora?”

 

“Eu avisei que eu era a personificação da contradição, não avisei?”

 

“Helena, não se trata de contradição. Isso é imolação da maneira mais vil que se pode imaginar.”

 

“Eu sei.”

 

“Olha, há um aeroporto a duas horas da fazenda. Se você se sentir atolada no tédio é só pegar um avião e ir para onde quiser.”

 

“Isso não pode estar acontecendo.”

 

“O quê?”

 

“Acho que estou apaixonada por você.”

 

“Eu te amo, Helena.”

 

“Jura?”

 

“Eu te amo. Fala com ele, ou não fala com ele. Ele não precisa saber de nós dois. Simplesmente peça um tempo e suma.”

 

 

7

 

Depois daquela conversa, para mostrar que não estava brincando ou atirando uma promessa vazia no ar, vali-me do mesmo artifício do marido de Helena quando jovem: agi ardorosamente, de modo tão inflamado e determinado quanto ele ao clamar pela justiça social com sua juvenil combatividade.

 

Num fim de semana, viajei até a fazenda – na realidade um lugar que pouco me atraía – e diante do meu incrédulo administrador, comuniquei-lhe minha mudança para lá em três meses, e, para aumentar ainda mais sua estupefação, acrescentei que me casaria. Também informei à direção da agência meu desligamento. Todos me interpelavam julgando-me louco ou afetado por uma passageira afecção mental. Como alguém no ápice da profissão abandona o barco de uma hora para outra e vai criar gado e porcos no fim do mundo? Eu respondia, principalmente quando percebia Helena por perto, com ênfase, que me cansara da vida na cidade, cada vez mais caótica e degradada – o que era verdade - , que buscava a pureza de uma vida simples e que pensava (outra mentira de elocução enfática) em realizar reformas e contribuir para melhorar a situação do trabalhador rural. Se me achavam louco ou não, pouco me importava, mas convencia-os do ímpeto e da sinceridade das minhas intenções. E isso obteve um efeito notável a meu favor. Helena disse-me que algumas colegas passaram a me elogiar mais. “Se você estalar os dedos, elas saem correndo para ordenhar as vacas da sua fazenda.” Mas o efeito desejável era que a própria Helena tomava-se cada vez mais de entusiasmo, embora não tivesse comunicado nada ao marido. “Vou pegar minhas coisas, deixar uma carta e ir embora. Vai ser uma traição horrível, mas não tenho coragem de dizer isso olhando na cara dele.”

 

Durante os três meses até o dia da minha partida, continuávamos a nos ver duas vezes por semana no velho hotel. Quando nos despedimos ainda no quarto, pois ela sempre saía uns vinte minutos antes de mim, nos beijamos demoradamente e quase ao mesmo tempo dissemos “eu te amo”. Combináramos que em dois meses ela se juntaria a mim.

 

Foi a última vez que nos vimos.

 

 

8

 

Mas não a última que nos falamos.

 

De um telefone público – naqueles anos remotos celulares eram um brinquedo caro -, Helena me ligava, no primeiro mês, três vezes por semana, dizendo não ver a hora de reencontrar comigo, de como morria de saudades de nossas conversas e dos momentos que transávamos sem parar no quarto do velho hotel; ela até evitava, de acordo com suas palavras, passar em frente a ele, tão contorcida de saudades se via. Quando eu perguntava – e o fazia sempre – se sua vontade se mantinha inalterada, ela respondia sim, nada a faria mudar de ideia, cansara-se da “prisão” e da tirania doméstica imposta pelo fanatismo do marido pela traição.

 

Aquilo continuou até o início do segundo mês, quando os telefonemas se tornaram mais escassos e lacônicos. Ainda assim, não havia com o que me preocupar, a brevidade das ligações se davam porque andava com os preparativos para a fuga, e se sublinho essa palavra foi por Helena tê-la repetido com um realce insistente.

 

A quinze dias da data acordada para sua partida, o telefone ao lado da poltrona de couro encostada a um canto da grande sala da fazenda tocou à meia-noite – uma hora inteiramente inabitual, quando eu já me encontrava no quarto pegando no sono.

 

“Não posso.... eu sinto muito... não posso... me perdoa... me perdoa...”

 

“O quê? De onde você está falando? O que você está dizendo?”

 

“Ele... não posso abandoná-lo... ele... agora não posso...”

 

“Helena?!”

 

“Está doente. Ficou doente. Está mal... seria infame... não posso... eu sinto muito...”

 

“Helena!”

 

“Não!”

 

“É chantagem, Helena. Meu amor, ele está te chantageando, e isso sim é infame! Está apertando a corda em volta do seu pescoço! Helena!”

 

“Não. Está doente mesmo... pode estar morrendo. Não posso abandoná-lo quando ele está morrendo.”

 

“Helena, escuta. De alguma forma, ele soube. Ele soube que você estava indo embora. Ele é um especialista em traição. Ele tem o faro de perdigueiro e notou que algo estava acontecendo. Por isso, inventou que está doente. É uma chantagem, não é possível que você não perceba! Não acredito que você caiu nessa.”

 

“Não. Ele não pode viver sem mim... ele vai morrer... eu não posso...”

 

“Helena, escuta. Vou aí. Vou aí te pegar. Estou indo para aí agora!”

 

“Não! Não posso... não vou deixar ele morrer...”

 

“Helena! Helena! Helena!” Mas ela já desligara o telefone.

 

Liguei para sua casa, mas ela não atendeu e nos dias seguintes mudou o número do telefone. Liguei para a agência, mas ela havia mudado de emprego. Pedi para falar com uma de suas amigas, mas ela não sabia ou não quis me informar onde poderia encontrá-la.

 

De fato, seu marido morrera. Mas não naqueles dias, nem naquelas semanas ou mesmo nos meses seguintes ao telefonema. Soube de sua morte pelos jornais, numa pequena nota no canto da página lamentando que o “dedicado e grande estudioso” do protomártir da nação havia sofrido um mal súbito e falecera deixando “infelizmente” inacabada “a exaustiva obra” à qual passara quase duas décadas se dedicando. Isso aconteceu cinco anos depois de ouvir a voz de Helena pela última vez.   

 

 

9

 

“Antônio Vilela?”

 

Sentado no meu reservado, a essa altura julgava ser o único cliente no vasto salão da anomia do segundo andar, ouvir meu nome pela segunda vez no mesmo dia não era efeito de um entrechoque aleatório como me parecera mais cedo no mercado apinhado de produtos chineses. Tampouco era a voz roufenha e sibilante do anoso garçom, o qual já se encostara na ponta do balcão e mumificara-se por lá conquanto décadas de repetições posturais faziam-no manter o guardanapo de linho dobrado como uma tipoia invertida no antebraço. E agora que minhas lembranças da mulher que um dia amei como nenhuma outra antes ou depois tornavam-se um vago sonho de infidelidade e todo o meu desejo era subir, dormir algumas horas e nunca mais voltar à minha cidade, vi-me interrompido pela voz bem acima de mim e de onde ela saíra: de um homem mais ou menos da minha idade, com a testa calva, de óculos de chifre, cabelos castanhos, alto, de ombros um pouco curvados, e vestido com uma camisa clara sob um blazer azul. Sorrindo, ele voltou a pronunciar meu nome, dessa vez sem interrogação, como se qualquer dúvida que porventura pairasse sobre minha identidade tivesse se dirimido. Diante daquela brusca, mas educada intervenção, não me restou outra coisa senão convidá-lo com um gesto a se sentar. No meio de outro gesto meu, dessa vez para chamar o sonambúlico garçom, ele fez uma negativa. Se eu o conhecia? Nunca o tinha visto. “De fato, nunca nos vimos, mas o conheço tão bem que me sinto até encabulado”, ele disse.

 

“O senhor esteve me seguindo?”, perguntei, um pouco cansado, um pouco embriagado e sinceramente nem um pouco curioso.

 

“Sinto muito, mas eu também estava lá.”

 

“Onde?”

 

“No cemitério”, respondeu baixando a voz com se ainda estivesse junto à congregação despedindo-se da morta. Por mais que me esforçasse, não me lembrava de tê-lo visto no pequeno círculo formado em torno da sepultura de Helena. E como ele adivinhasse meu esforço por uma resposta mais precisa, falou: “Eu também me encontrava afastado e oculto.”

 

“Quem é você?”, minha pergunta não era como pode parecer o início de uma curiosidade, mas antes a vontade de terminar com tudo aquilo e ir embora. Portanto, foi ele quem falou quase o tempo todo madrugada adentro.

 

 

10

 

“Como você, fui amante de Helena. O primeiro e último amante dela. Mas não o que ela mais amou. Fomos colegas na universidade. Eu e o marido dela éramos ao mesmo tempo amigos e rivais. Pois pode-se ser amigo e rival, sobretudo quando se disputa a atenção de uma mulher. E nós dois disputávamos a atenção de Helena. Éramos arrebatados, entusiastas das mudanças, engajados na luta, pontas de lança dos movimentos. Incendiários, era como nos chamávamos. Queríamos mudar o mundo, como qualquer jovem. Fazíamos tudo juntos. Sabe qual era nosso filme preferido? Jules et Jim. Lembra-se desse filme? Pois é. Aqui ele ganhou o subtítulo de “Uma Mulher para Dois”, lembra? E nada se encaixa com mais perfeição para o nosso caso. Uma vez, saindo do cineclube, ela, no meio, de braços dados a nós dois, disse: “É possível amar dois homens?”.  Falou de brincadeira, mas sabíamos que era a sério. Ela, baixinha, espevitada, cheia de ímpeto e inebriada pela liberdade, disse que amava nós dois. Depois, saía correndo de braços abertos num grande arrebatamento. No início, era tudo meio inconsequente, pura diversão, cheio de leveza e alegria. Mas aos poucos aquele sentimento dividido começou a ser tingido de tristeza, de um manto pesado. Como eu disse, ele e eu éramos parecidos em tudo, exceto numa coisa. Eu era um mulherengo e ele ocultava sua castidade atrás do ardor da indignação política. Isso em nada afetava nossa amizade, e ele nunca me censurou. Até o dia em que percebemos apaixonados pela mesma mulher. Quando aconteceu, e essas coisas acontecem sem presságios, nos tornamos mais distantes. Ele passou a evitar nossos passeios. E sem ele, aquela alegria de antes evanesceu. Helena evitava ser vista com ele quando eu estava por perto. Chegou um dia em que eu e ele brigamos. Mas não por ela, embora, claro, subjacente à discussão que tivemos a respeito de alguma questão sem muita importância do movimento estudantil, era ela quem estava no centro da disputa. Depois disso não mais nos falamos. Foi quando viramos rivais, como dois jovens românticos babacas, iguais aos que a gente tanto criticava. Só faltou um duelo. Mas o que aconteceu em seguida não deixou de ser um duelo. Procurei Helena e disse que a amava e queria viver com ela. E ele fez o mesmo como fiquei sabendo mais tarde. Acho que são nesses momentos que deixamos de ser jovens, quando o peso da seriedade substitui a leveza da brincadeira. Então ela sumiu. Durante quinze dias não pisou na faculdade, não a víamos em lugar nenhum. Telefonávamos para sua casa e a amiga com quem ela dividia o apartamento respondia que ela havia viajado. Mas ela sumira para pensar ou para escolher. E, você sabe, ela o escolheu. Nunca perguntei por que pois sabia a razão de tê-lo preferido a mim. Por causa da pureza dele, da sua maldita pureza virginal, dos elevados princípios inconspurcados da sua retidão moral. Eu não era rival para tamanha resolução impoluta. Eu tinha meus casos, trepava com as meninas, mas depois que me apaixonei por ela, tornei-me casto como um monge, não para valorizar-me a seus olhos, eu nunca imaginei que ela pudesse levar uma coisa dessas em consideração, mas simplesmente porque nenhuma outra garota me interessava mais. Bem, ela o escolheu e veio me contar que guardaria de mim as melhores lembranças, um perfume doce do passado que ela jamais esqueceria.”

 

“Um perfume doce do passado?”, interrompi-o.

 

“Pois é. Veja você a que ponto chegou o fingido sentimentalismo barato dela. Disse isso e foi embora. Estávamos no fim do terceiro ano. Eu sofri tanto que pedi transferência para outra universidade. Não quis nunca mais saber dela. Logo depois de formar, me casei. Um dia, uns quatro anos mais tarde, nos encontramos por acaso. Eu achava que a havia esquecido, mas ao vê-la foi como se todo o entusiasmo apaixonante de antes irrompesse bruscamente. Ficamos sem graça, claro, como acontece quando dois namoradinhos dos tempos de escola se reencontram. Mas ela deixou o número de seu telefone comigo. A primeira coisa que pensei foi em rasgar aquele papel e nunca mais revê-la. No entanto, a gente sempre faz o contrário do que pensa, não é? E uma semana depois, liguei pra ela e combinamos um encontro. Foi o primeiro de uma série que durou um ano. Viramos amantes. Ela dizia que não conseguira me esquecer um único dia desde aquela tarde em que anunciou que ficaria com o outro. Nos víamos toda semana e eu estava completamente louco por ela. Disse que ia separar da minha mulher e ela disse a mesma coisa. Dizia que não suportava mais o marido e sua obsessão por aquele sujeito ali fora, o alferes. A traição da qual ele fora vítima. A delação. O pior dos males. Começara a ler tudo o que podia sobre o tema, reunira uma bibliografia que não parava de crescer, desde as histórias mais remotas, desde Caim e Abel, até as mais recentes como as de agentes duplos. Não parava de pensar e falar daquilo. Aí um dia, ela rompeu comigo. Simplesmente disse que não podia largar o marido e pediu que nunca mais a procurasse.”

 

“Você disse que foi não apenas o primeiro, mas o último amante dela. Quantos amantes ela teve depois de você?”

 

“Um. Você. Depois de você, ela conseguiu me achar. Quando soube que era ela, desliguei o telefone, mas ela ligou de novo e atendi. Queria me ver. E mais uma vez fiz o que não devia fazer, fui vê-la. E logo nesse primeiro reencontro, ela me arrastou para este hotel.”

 

“Para este hotel?”

 

“Ela estava mudada. Alguma coisa a havia transformado. Estava bebendo muito. Sentamos num reservado igual a esse, e ela bebeu quatro Camparis. Depois me implorou que subisse com ela e a comesse. Disse bem assim, ‘quero dar pra você.’ Foi terrível. Ela se entregava como se fosse uma obrigação imposta a si mesma. Com um arrebatamento claramente fingido. Mas eu continuava a fodê-la mesmo assim, continuava a fodê-la um pouco como vingança por ela ter-me preterido, mas um pouco também porque pensava ingenuamente que poderia ressuscitar o ardor que sentira por ela desde a juventude. Mas eu estava enganado. Ela não era mais a mesma, era uma lástima, um traste se entupindo de álcool.”

 

“Como foi que você soube que fui amante dela?”

 

“Por que ela não parava de gritar seu nome. Ela invocava seu nome enquanto pedia que eu batesse nela. Sim. Ela desejava apanhar. Confesso que senti tanta repugnância que a estapeei com força, com ódio. Agora eram só vingança e punição. Ela começou a chorar e a rir ao mesmo tempo, e eu me levantei para ir embora. Ela implorava para que não fosse gritando seu nome. Saí de lá e minha repulsa só não era maior que a pena. Depois disso nunca mais a vi. Ela também nunca me procurou. Então li nos jornais sobre a morte dela. Bêbada e andando a esmo na rua de madrugada foi abordada por um grupo, resistiu e acabou esfaqueada.”

 

“Mas como você soube que eu iria ao enterro e como soube quem era eu?”

 

“Sou professor de uma universidade a pouco mais de cem quilômetros da sua fazenda. Mudei para lá depois daquele maldito reencontro. Não podia viver na mesma cidade que ela. Sabia seu nome e não foi difícil saber que você era um produtor rural com algum destaque. Você chegou a ser convidado uma vez para uma conferência na faculdade de agronomia da universidade. Lembra-se disso?”

 

“Sim. Eu me lembro.”

 

“Pois bem, eu fui vê-lo. Entrei no anfiteatro e me sentei apenas para vê-lo.”

 

“Por quê? Queria se vingar de mim também?”

 

“Não. Tinha curiosidade de conhecer a pessoa que ela invocava e dizia tê-la abandonado.”

 

“Ela disse isso, que eu a abandonei?”

 

“Disse.”

 

“Entendi.”

 

“Por que você a abandonou?”

 

“Não a abandonei. Foi ela...” E contei-lhe o que havia acontecido.

 

“Meu Deus. Foi por isso que hesitei em me dirigir a você. Quando o vi no cemitério, segui-o e para meu espanto vi que você se hospedara aqui. Bem, isso fazia todo sentido. Mas não tive coragem de procurá-lo. Fiquei no saguão à sua espera e o segui de novo. No shopping popular, gritei seu nome, mas logo me escondi. Minha curiosidade lutava contra minha covardia. Não estava preparado para conhecer o homem pela qual ela foi tão apaixonada. Então segui-o de volta até aqui e quando o vi sentado neste bar, pedi ao garçom que o avisasse. Mas o senhor se levantou e subiu para seu quarto.”

 

“E então você também foi embora. Por que voltou?”

 

“Para saber se você vinha.”

 

“Por isso?”

 

“Eu a amava. Nunca amei outra mulher como a amei. Sinto muito se o aborreci.”

 

“Não sinta.”

 

“E você, por que veio?”

 

“Para me despedir... não sei”, respondi e me levantei.

 

“A gente nunca sabe por que faz o que faz, não é?”

 

Ergui os ombros e comecei a caminhar em direção à saída, mas, no meio do salão, parei e perguntei a ele: “Soube que o marido dela morreu há uns cinco anos. O que aconteceu?”

 

“Ele se matou. Ela o havia deixado. Uma semana depois entrou no apartamento para pegar algumas coisas, e o viu enforcado na sala.”

“Morto como um mártir. Traído como aquele lá fora e morto para se tornar um mártir.”

 

(fotografia de Bob Souza)

André Nigri é mineiro de Belo Horizonte e vive em São Paulo. É jornalista e autor do romance “Paralisia” (Editora Reformatório, 2018)

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