ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

André Caramuru Aubert


Poemas II

1 - poema

 

às vezes o tempo parece que fica parado, às
vezes parece que voa. às vezes acordo bem, às vezes
me sinto velho. às vezes tudo o que passou parece
ontem,
às vezes
parece que faz tanto tempo.

 


[um fim de tarde ensolarado, o céu azul com nuvens brancas como velas, viajando lentas e imponentes como caravelas, as pedras da serra do espinhaço brilhando ao fundo, a estrada com suas curvas chegando, ligeiras, e as árvores, e os cavalos e as pessoas, a pé ou em suas bicicletas, no acostamento]

 

 

 

 

 

 

2 - conimbriga

 

de mãos dadas, passeamos por caminhos que, um dia, foram ruas. é difícil, assim caminhando, reviver o passado, desenhar mentalmente as portas, as paredes, os telhados, as crianças correndo de um lado para o outro, brincando, os comerciantes entrando e saindo com suas carroças de verduras, berrando ofertas, o sol sobre as pedras do chão, a chuva chegando, as pessoas indo ao Forum, preocupadas com o dia a dia, com as notícias políticas de Roma e as fofocas da Lusitânia, com a chegada das ânforas com perfumes encomendados do Líbano, com os óleos que virão de Palmyra, com as cortiças que foram vendidas e precisam ser enviadas ao norte da África.

 

de mãos dadas, passeamos por ruas que foram, um dia, ruas de uma cidade aberta, em que muros e muralhas não eram necessários, mas de mãos dadas passamos, também, por muralhas que, depois de uma certa época, tornaram-se necessárias, mas que, depois de um certo tempo, não adiantaram de nada, porque, sabe-se muito bem, muralhas não evitam, apenas adiam.

 

de mãos dadas, enquanto entramos na área íntima de uma residência que um dia foi suntuosa, na qual a cozinha, faz tempo, preparava freneticamente as ricas refeições de todos os dias, e as adegas armazenavam vinhos dali e de longe, e as caldeiras esquentavam a água para os banhos quentes, e plantas floresciam no jardim interno, vêm à nossa mente que, por ali, só andam, hoje, fantasmas. porque ali era a casa de Cantaber, o rico e poderoso Cantaber, que, quando Conimbriga caiu diante dos Suevos, em XXX, morreu, atravessado por uma espada, e teve mulher e filhos levados embora, para serem vendidos como escravos em algum mercado de algum outro lugar do mundo.

 

de mãos dadas, pensamos nos que um dia viveram e circularam, por Conimbriga, os que, há muito tempo, foram.

 

 

 

 

 

 

3 - domingo na montanha

 

amanhecemos cercados por nuvens, e entre nuvens ficamos,
ao longo do dia, nas horas que foram passando (pelo menos até
agora, 15:28 deste domingo 14 de outubro de 2018, aqui no alto,
na serra da mantiqueira).

 

anoitecemos na estrada.
é noite e os faróis do carro iluminam as curvas da estrada: deixamos para trás, finalmente, as nuvens.

 

 

 

 

 

 

4 - poema

 

pouco antes da aurora, quando sopra uma discreta brisa vinda do mar,
e o som das ondas, na praia, quebrando, ecoa em nossos ouvidos,
sabe-se, é possível, ainda que por minutos (segundos?) apenas, viajar
no tempo, e rever as pessoas que um dia amamos, e que
perdemos.

 

hoje de madrugada foi assim. ah, meu avô, que saudade!

 

os primeiros vermelhos/roxos/laranjas do dia que nascia atravessavam as tábuas da veneziana da janela, dançando no branco do teto do meu quarto. e a brisa. e o som, suave, das ondas.

 

foi tão bom reencontrar meu avô.

 

André Caramuru Aubert nasceu em São Paulo em 1961. Bacharel e mestre em História pela Universidade de São Paulo, é editor, tradutor e escritor. Já colaborou com publicações como O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. Atualmente é colunista da revista Ponto e colaborador do jornal Rascunho, para o qual mensalmente seleciona e traduz algum poeta estrangeiro. Publicou, pela editora Patuá, os livros de poemas Outubro/Dezembro As cores refletidas nas lentes dos seus óculos escuros. E pela editora Descaminhos os romances A Vida nas MontanhasA Cultura dos Sambaquis, Cemitérios e Só uma estranha luz como pensamento. Pela SEPSI-SP Editora publicou o romance Poesia chinesa.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Dezembro de 2018:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Alicia Salinas ; Rolando Revagliatti, entrev., André Caramuru Aubert, André Nigri, Beatriz H Ramos Amaral, Caio Junqueira Maciel, Casé Lontra Marques, Cecília Barreira, David Sarabia, Eduard Traste, Eliana Mora, Fernando Andrade, Francisco Orban, Geovane Monteiro, Helena Barbagelata Simões, Henrique Dória, Ivy Menon, Jandira Zanchi, Jorge Bateira, Jorge Castro Guedes, José Antonio Abreu de Oliveira, Katyuscia Carvalho, Krishnamurti Goés dos Anjos, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Lino de Albergaria, Luiz Otávio Oliani, Luiz Roberto Guedes, Maria Emília Lino Silva, Marinho Lopes, Narlan Matos, Ramon Carlos, Ricardo Ramos Filho, Rita Faleiro, Rocío Prieto Valdivia, Salomão Sousa, Silas Correa Leite, Taise Dourado


Foto de capa:

Tríptico do pintor alemão George Grosz


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR