ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Francisco Orban


Poesia e Prosa

1) Poemas

 

Partituras 

 

Eu tiro com muito esmero             
o sal grosso das palavras
tirando do seu novelo
as partituras de água

 

 

 

 

 

 

Acenos

 

Aceno para o mar                                        
que não me diz seus segredos
apenas o estuário
do seu  salgado degredo

 

 

 

 

 

 

A ordem dos signos 

 

E com as mãos encharcadas                     
de horizontes distantes
eu sigo como por extinto
a ordem muda dos signos

 

 

 

 

 

 

Se fosse hoje

 

Se fosse hoje eu beijaria teus olhos, mas assim não foi e não mais será, e nem a estrela que sigo com a alma dos pescadores me indica o caminho de volta. E não há como te dizer "meu amor", porque o amor é uma ponte interrompida pela noite e pela multidão de horas. Desce um grão de mágoa dos nossos olhares devastados, e árduos são os caminhos dos caçadores da estrela, porque se fosse hoje eu beijaria teus olhos, mas assim não foi e não mais será...

 

 

 

 

 

 

 

2) Prosa Poética

 

Paraty  

 

Naquele momento, olhando o mar com seu dorso amarrotado pelo vento, refiz novamente a viagem a Paraty e seu passado. A cidade fora então um lugarejo perdido de onde escoara o ouro. Suas igrejas loteadas dividiam os habitantes: umas para os senhores,outras para as mulheres brancas, uma para os mestiços e negros cativos.

Num mundo injusto e segregado, a cidade era assim repleta de insetos, e cansaços e meninos vendendo doces nas ruas, sobre as calçadas de pedras trazidas de Portugal pelos navios. Pedras que não foram tantas quanto o ouro extraído pelos negros, aqui, como escravos, também de suas vidas arrancados.
Assim voltamos ao futuro, a esta cidade pousada no azul como uma nave de luz no chão do mundo, toda feita de leveza pelos poetas que a reinventaram. Eles possibilitaram a sua permanência como hoje se encontra, assim como seus fundadores que um dia conspiraram para que ela existisse assim como uma pétala. E desta maneira a vemos, com os nossos olhos de hoje, na ilusão de que Paraty de alguma forma tenha sido sempre esta que agora vemos. É que, naquele mundo brutal, suas paredes já foram erguidas como são e talvez ela existisse assim, como veio a se tornar, posto que como um sonho já existia assim no coração dos homens.

 

 

 

 

 

 

3) Mini-conto

 

O Aparador de Sonhos

 

O menino entrou pela casa com o Aparador de sonhos nas mãos. A princípio o bizarro artefato só meu causou curiosidade. O Aparador de sonhos era um pequeno objeto xamânico, constituído de  uma diminuta argola revestida de uma rede, e ornamentada com uma pena de ave em forma de haste. Rezava a lenda que os sonhos maus ficavam ali para sempre retidos. Eu, com o meu realismo, estava no século XXI, num mundo abarrotado de razão, equações quânticas  e máquinas de toda ordem, mas ele com seus oito anos, estava no primeiro século da história humana e para a sua mente o aparador de sonhos era uma realidade tão concreta, quanto os alaridos dos milhões de carros que corrompiam a tarde  e as ruas em torno de nossa casa. Durante quase uma hora conversamos e o menino dissertou sobre a profunda necessidade daquele artefato lírico, capaz de retirar dos homens os tormentos e lhes devolver a paz dos verdadeiros sonhadores. Aos poucos fui envolvendo-me com seus argumentos, embora reconheça que no início minha aquiescência era mais uma estratégia para lhe fazer contar seu sonho.   Acho que fui conquistado pela candura dos que creem. – se não acredita faça você mesmo a experiência- disse-me então o menino, em certo momento com a voz quase chorosa. Então aceitei o desafio. Levei o Aparador de sonhos para casa cercado de toda sorte de recomendações, pois o mesmo não funciona próximo às pessoas ressentidas, nem nas mãos dos que se perderam de si mesmos. Em casa coloquei o pequeno artefato em cima da cômoda e dormi exausto. Ali estava eu, fora da área de conforto da razão, quando acordei na manhã seguinte com uma disposição que não tinha há anos. Na noite seguinte o mesmo fato ocorreu e agora o aparador de sonhos, já pendurado no lustre, exercia um poder de renovação assombroso. Dez dias depois eu era um homem novo e todos os tormentos dos maus sonhos tinham desaparecido. Então, no décimo primeiro dia da minha nova vida, sonhei que um menino se aproximava de mim e me pedia o aparador de sonhos de volta. Indaguei-lhe a razão do pedido, suplicando-lhe que não o levasse e ele me advertiu, que o pequeno artefato encantava, que viver era preciso e que o mundo real dos homens me convocava novamente. De manhã o aparador de sonhos tinha desaparecido do quarto e eu acatei a experiência como um fato inexplicável e ao mesmo tempo uma benção só outorgada aos sonhadores.

 

 

 

 

 

 

4) Crônica

 

Cais do Valongo

 

Alguns já chegavam mortos. Outros nem chegavam. Acho que jogavam os corpos ao mar. Cemitério de escravos têm cruz? Vou procurar saber. Vou escrever no meu braço de branco miscigenado que escravo tinha direitos. O Porto do Valongo estava quieto. O homem foi lá desenterrar história. Receptação não é crime? Carga roubada não é? Não era. Escravo era a base da economia do país. Alguns piedosos tinham pena. Outros não tinham nenhuma. Outros apiedavam-se mas diziam que a vida era assim. Que outro mundo não era possível, e que a economia, com um pequeno ajuste fiscal e livre negociação se resolveria. Então soltaram todo mundo e escravo ficou proibido. Floresceu a escravidão ilegal. Não soa estranho? Escravidão ilegal? Tudo é estranho. O mundo continua tão estranho como antes, só que com computador. Barbárie com computador. Ogivas nucleares apontadas para as estrelas. No início não existia o cais. Os escravos eram desovados nus na praça quinze, aqui no Rio de Janeiro. Mas alguém ruborizou-se só com a nudez, mesmo que já castigada. Então transferiram a desova para longe dos olhos dos distintos e distintas e o cais do Valongo foi construído. Por lá entraram um milhão de homens e mulheres negros. Por causa deles você come feijoada, acarajé, vatapá, pamonha. Graças a eles existe o samba, o afoxé, a capoeira, o tambor, a cuíca e uma infinidade de outras manifestações culturais, como as religiões sem culpa. Onde estava o Cais do Valongo? Ele foi encoberto e adormeceu. Depois construíram por cima o Cais da Imperatriz que também foi asfaltado na reforma de Pereira Passos. Agora,com a reforma de Eduardo Pais, desencavaram acidentalmente o passado e isto é grave. Os escravos andam pelas ruas. Sentam nos bares. Contam o que lhes aconteceu, mostram as marcas do martírio e exigem justiça. Existe genocídio prescrito? A questão vai ser levada ao Supremo. Crivella não foi encontrado.

 

 

O escritor Francisco Orban é poeta, jornalista e Mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Autor dos livros Sobrado das Horas (Taurus-Timbre, 1990) prefaciado por Antonio Houaiss, e de Cesto das Canções com Pássaros (Leviatã, 1994). Publicou em 2001, o livro Recomendações aos sonhadores, prêmio Mar Absoluto -Cecília Meireles, concedido pela União Brasileira de Escritores. Dois anos depois, recebe o Prêmio Walmir Ayala,(UBE) por seu livro, Estaleiros de Vento, e publica em 2004 a fábula infanto-juvenil O Cavalinho de Água, adotada pelo Programa Nacional do Livro Didático-SP Seu penúltimo livro, com o título de Os Anzóis da noite, é lançado em 2006 pela editora Booklink, ano em que, seu livro Estaleiros de Vento,(editora Orobó), torna-se um dos finalistas do prêmio Jabuti. O poeta lançou em dezembro de 2008, seu novo livro Terraço das estações, e publica agora pela editora Kazuá, sua obra reunida com o título de "No País dos estaleiros". Sua poesia tem sido elogiada por Geraldo Carneiro, Antonio Carlos Secchin, Alexei Bueno e André Seffrin.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Paginação:

Nuno Baptista


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