ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Geovane Monteiro


A sociedade dos literatos mortos, e outros textos

A sociedade dos literatos mortos

 

Infelizmente, presenciamos exaustivamente a literatura em sua utilidade pública a negar a verdadeira arte - esta acima de ideologias congregacionais no sentido da criação, do ser artista.

 

É lamentável estar refém e a serviço de posicionamentos essencialmente esgotáveis, tendenciosos, provisórios. Há uma violenta e covarde generalização de "escritores" (as aspas sinalizam não necessariamente a qualidade de suas obras, mas suas abordagens em si e em dado momento) fazendo uso de sua "dicção" para convencer, divulgar, argumentar, patrocinar, disseminar paixões políticas (ou qualquer outra paixão invasivamente particular, doutrinária). De resto, pululam nas redes sociais pseudointelectuais - quando aprender a metaforizar é fazer o dever de casa sem a liberdade criadora em que andam juntos o subjetivo e o ecumênico.

 

Todos temos escolhas, preferências, inclinações, mas que o ficcionista não o faça na forma de escravização, de favoritismo, empréstimo de sua própria “arte". Reparemos: a poesia de imediatez social de Carlos Drummond de Andrade e de Ferreira Gullar, por exemplo, sugere, em tom de denúncia, a atenção para motes da época, mas - mesmo quando há o convite à ação - não conferimos o anseio da conversão batismal. Outros dois pontuais exemplos estão em João Cabral de Melo Neto e em José Saramago, ambos ateus. O primeiro, ao contrário do segundo, não assumidamente comunista; de um modo ou de outro, como lhes foram indiferente a protagonização de si mesmos: o leitor para eles era concebido universal. Suas obras não se fizeram privativas, contaminadas na forma de igrejinhas com seu Eclesiastes inteligente, utilitário. Seus leitores não precisaram ser do partido comunista nem ateus para apreciarem essas pérolas da literatura séria.

 

É uma negligência grave do autor consigo mesmo e, o que é ainda pior, com seus leitores. Podemos comparar aos bairrismos de que estiveram longe os clássicos Machado de Assis e Lima Barreto nas suas crônicas sobre a sociedade carioca do século XIX e XX, respectivamente, tão carismáticas a leitores de qualquer época e parte do mundo.

E mesmo que a obra fique à parte, os piparotes com grupos adversários, a disposição por voluntária campanha eleitoral põem o autor ao lugar comum, em que o engajamento político o promove a um espaço de disputa - feitio nada consoante aos “antenas da raça”.

 

O artista que não resguarda sua arte de vaidades e egoísmos em declarações partidárias, de sentenças autobiográficas não traz consigo sua alma, não é, no sentido lato do termo, ético, mas um aproveitador porque quase sempre não o faz por ingenuidade, o que seria um tanto perdoável.

 

 

 

 

 

 

Até quando? *

 

“Quantas mortes o homem causará até saber que pessoas demais morreram?". Ao pensar essa frase do músico Bob Dylan, fico bastante sensitivo à dor da família do jovem Antônio Rayron Soares de Holanda que, se pegava ônibus, imagino não se tratar de um filho abastado, desses que - na festa pomposa em homenagem à aprovação em medicina - o carro zero quilômetro já o espera na garagem. Ou seja, esse rapaz oriundo do interior do Piauí deve ter lutado de forma sobre-humana. Imagino tamanha abnegação, sonho, esperança, orgulho e apoio da família e de amigos em vê-lo médico. E de repente um assaltante ceifa a vida dele da forma mais fria e banal.

 

Como está havendo comoção pública e quiçá duradoura, podemos ter a esperança de não conferir o mesmo teorema: a polícia prende hoje, e o juiz solta amanhã.

 

O sistema policial é falho. Eu decididamente me assusto com o prometido armamento no país. Acredito que é desconsiderada a realidade de que o crime organizado é infinitamente superior às forças policiais. E mesmo com mais agentes e em melhores condições de aparelhamento, preparo, a máfia vai sempre suplantá-los, enquanto seus bilionários negócios ilícitos integrarem parte dos próprios “tiras”, dos grandes empresários, dos políticos, de gente dos três poderes... Se na programação da sessão da tarde – quando a vida imita o vídeo - armas de assassinos dos morros derrubam helicópteros em operação policial e bombas de obsolescência programada explodem carros-fortes, imaginemos o 2019 em diante...

 

O rapaz que esperava trabalhar salvando vidas perdeu prontamente a sua. O tiro no peito dói em meu peito, e agora a promessa iminente de sermos alvos mais fáceis ainda, pois de bala perdida vinda de confronto entre agentes, facínoras e civis numa guerra legalizada pelo Estado haja peito que dê conta.

 

Não estou querendo ser escatológico. Eu sinto que a luta de classes deve voltar e ainda com mais forças. O problema é que a intolerância, a coerção, o discurso simplista e unilateral num país reacionário deixaram de ser defeitos para entrarem no campo ideológico-político dominante. Uma das grandes provas de nosso enfraquecimento enquanto classistas é mesmo nossa voz se limitar a redes sociais, em que uma pequena postagem nos faz sentir doutores em Karl Marx ou em Adam Smith, e a realidade continua com o sabor da ficção até que a violência chegue a nossas casas ou à luz do dia em local movimentado, matando um familiar nosso.

 

Sempre reservo um tempo considerável para escrever, uma vez que o processo de reescrita no meu caso é demorado - ou talvez pela própria demora – ainda acredito na luta com a palavra. A escrita me faz sentir que alguma manifestação mais humana vem de mim. Por isso, ainda sonho com a desistência da ideia de armar os civis; como não bastasse assassinato ser atividade de criminoso, poder se tornar honra coletiva de homens comuns (" cidadãos de bem") que compõem a maioria da nação na qual a ocasião faz o bandido. A gente vai poder matar em nome de tanto ego institucionalizado.

 

Armada, a sociedade passa a digerir a noção de que, num país violento, é preciso matar para vencer. A lição de Gandhi parece sair cada vez mais das páginas da história para entrar no imaginário de quem é alcunhado de utópico e antinacionalista. Assim, minha impotência ante o quadro social de 517 anos. Ou seria zona de conforto a passividade senão “alguém pode querer me assassinar"?

 

Rayron é mais um que morre com sua mochila gandhista num país em que o único movimento pacifista é contar com mais um dia de sorte. Pagar o mal com o mal tanto nega a insuperável filosofia de vida do Evangelho quanto vitima indivíduos de qualquer motivação ou desmotivação religiosa. Crer ou não crer, eis a falta de referendo, de plebiscito, de democracia eleitoral.

 

Se Deus é brasileiro, está provado o porquê de os túmulos serem, em seu silêncio de pó, ateus!

 

* Há "citações - caronas" de Roberto Ponciano em seu texto intitulado” O tamanho de nossa derrota... E a montanha que temos que subir".

 

 

 

 

 

 

Artistas & artistas

 

Li há alguns anos ensaios (não lembro as fontes; foram leituras produtivas, honestas, porém, avulsas) muito sérios sobre poesia... Ficou-me fixado o destaque para comunidades onde o caos característico, e não uma mera circunstância, dar à luz a poetas tendem a aparecer em sua pureza, ou seja, na força poética e não necessária e exclusivamente na mera força do artífice - quando as idiossincrasias e contradições do sujeito têm seu lugar na vitória do partido narcisista . De resto, não há criação, no máximo virilidade.

 

Mas é preciso acreditar na nossa grande neo geração perdida? Ainda assim me vem a inevitável imagem dos "mainstream" (superestimados ou não), os que se integram a figuras midiáticas, não raro, "tematizam" contra a cultura de massa, a indústria do espetáculo, a mercantilização da arte, a privatização dos valores artísticos, do pensamento, as congregações literárias etc. É de uma demagogia das mais agressivas, elitistas e excludentes. É só refletirmos sobre textos autobiográficos na sua expressão de poder, de discurso de autoridade (licença poética?). Assim, a perpetuação dos injustiçados e dos superestimados. Ou na melhor das hipóteses, autores de fato bons, mas que sua meritocracia não deixa menos malogrados aqueles que, por motivos políticos e não de envergadura artística, ficam de fora das listas que mais lembram compras de supermercados e festas de casamento. Gostar de brincar de vítima do sistema é um negócio promissor, um bom empreendimento “artístico".

 


E não faltam símbolos da cultura popular, o que me faz crer que ser inteligente nem sempre liberta a criatura do “murismo”, do pseudo- intelectual não por limitação, mas, o que é pior, por escolha própria. Como se plagiar Roberto Piva fosse uma genuína expressão de ativismo marginal. Como se copiar Bruno Tolentino fosse provar autenticidade de denúncia sem o teatrinho de “compromisso com a literatura". Como se versejar sobre política, cosmos, misticismo fosse tomar banho de sol no Olimpo onde nenhum deus morde o fruto proibido do panfleto.

Enquanto isso, leio e releio, por exemplo, Nauro Machado em vez de acrescentar Ibope aos Leminskis da vida... Sem medo de estar sempre “fora da galera". Sem ressentimentos, abaixo as bênçãos acadêmicas, abaixo a crítica do escritor concorrente, abaixo as conversas de clubinhos, abaixo o deboche intelectualizado. O poeta “ruim” de boa vontade, pode trazer ao menos sua alma (e quem sabe sua alma não seja pequena). Aos meus Undergrounds sempre em processo Underground, os meus tapinhas nas costas.

 

 

 

 

 

 

Sobre clichês essenciais

 


Países que investem na mulher crescem, desenvolvem-se. Que o diga Dinamarca, que o diga Suécia. Homens que investem na mulher nunca estão sozinhos sejam quais forem as circunstâncias, o que me faz desconfiar mesmo do sexto sentido.

 

Mesmo não necessariamente investindo nelas, não faltam grandes exemplos dessa ainda minoria em páginas da história escritas por Kathrine Switzer, Maria da Penha, Nise da Silveira, Alice Ball, Annie Lumpkins, Winnie the Welder, para citar algumas das mais conhecidas num universo de grandes mães solteiras e de sócias majoritárias do lar 'guardadas por Deus / contando seus metais', para Belchior não nos deixar mentir quando precisou de uma mulher, a inapagável Elis Regina que imortalizou no vocal uma canção dele e de muitos outros artistas homens com H maiúsculo numa época de forte paternalismo cultural, inclusive na música que, no mais, '”Não chores por mim, Argentina”.

 

Em suas profundezas, nelas, como neles, há suas luzes e seus Hades, mas essa condição é humana, nunca de gênero. Se a justiça é cega, Deus tem seu Divino mal de Parkinson, pois elas, as mulheres, resistem, fazem história mais que a macharada, posto os bastidores representar os andaimes da nação.

 

Até países reacionários - como o Brasil em que o direito à vida política, à educação, ao divórcio e ao livre acesso ao mercado de trabalho são conquistas ainda em processo através de corajosos movimentos feministas - até países reacionários já tiveram todas as provas de que não é à toa o sexo masculino depender do sexo feminino para vir ao mundo. E a metáfora bíblica de que Eva surgiu da costela de seu Adão não convence mais em discursos inflamados de dominação masculina, porque de Joana D'arc a Maria Madalena nos rendemos às infindas teses das “Múltiplas e singulares'”. Salve, Salve o útero do mundo!

 

 

Geovane Fernandes Monteiro, natural da cidade de Água Branca / Piauí, Brasil. É professor formado em Letras – Português – e Pós Graduado em Linguística Aplicada. É autor do livro de Contos Paradeiro (Nova Aliança, 2016) e do livro de poemas, ainda inédito, A arte de não saber, a ser publicado em 2019 pela Evanducarmo, Brasília. 

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