ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Jandira Zanchi


Dora

Madrugada, outra, esse requinte do dia.  Sim, não havia requinte para ela fora esse  de espiar estrelas, imaginando fusão, evasão, evaporação. Da lua não se media. Gostava é daqueles pontinhos luminosos, iluminantes, às vezes meio apagados na neblina, do cheiro ácido do dia esmagado até seu último átomo, assim como ela, tão impura, maltratada. Prostitutas, garotas de programa, drogas, mendigos, os de sempre, as brigas e histerias costumeiras. Nem a olhavam. Deixavam que se varresse pelas ruas lentamente, acostumados à sua fealdade, aos passinhos apertados, a roupa amassada, sapatos gastos, memória idem.... nunca ninguém supusera que teria dinheiro ou valores ou enfeites, nada, nada.

 

Nenhuma coisa tivera. Nem amor, nem namorados, é, nem esses mais feios como se poderia supor, afinal na vila miserável em que morava não existiam esses luxos de beleza e dengos e moças, talvez um pouco bonitas, namoravam, as feias também, sequer se fazia muita diferença entre umas e outras. Era aqui, na cidade, que estava aprendendo, reconhecendo que havia mesmo uma diferença. Um rosto mais liso em uma mulher, a barba crespa de um homem, essas coisas tornavam as pessoas mais agradáveis. Também reparava que corpos mais cheios, uma bunda e peito nas mulheres, pernas grossa, os homens que tinham braços e mãos grandes... suspirou um pouco, é devia ser bom ser assim, não gostava de ser tão magra. Mas, sabe-se sei lá o que mais, tinham coisas que faziam as pessoas sorrirem, ela tinha visto poucos risos em sua vida, de algumas crianças, algum velhinho, mas, pouco, pouco, na sua vila as pessoas comiam pouco, passavam o dia sentadas, no chão de barro ou no capim, espiando o sol ou as nuvens, um ar contrito, apertando as mãos, atentas.. era a fome, ou a fraqueza de comer pouco...

 

Ela não vivia com ninguém e não tinha uma criança para cuidar porque a mãe, sim, a mãe, não permitia. Aquela invalidez, um pouco de idiotia, o olhar fundo e fixo de miséria e dor cravado em qualquer um que fosse ali, naquele casebre, fazer uma visita para as 2 mulheres. Recebiam com educação, faziam um café, agora que Dora trabalhava podiam oferecer uns biscoitos, um pedaço de bolo. Não lhes faltava cordialidade. A mãe tinha sua pensão, meio salário, que gastava em remédios, alguns mantimentos, tão pouco. Ela sustentava as duas e se sentia orgulhosa por isso. De vez em quando podia comprar um sapato, alguma peça de roupa, um utensílio doméstico. Mas, tudo estava tão sombrio e triste, a penúria sussurrando nas frestas da casa, a dor exalando sua ária de morte e apatia.

 

Era triste aquela sua aldeia, subúrbio miserável, quase uma favela. Ruas de pó e lama, maus cheiros, desolação, até o céu evitava exageros de azul e luz como um respeito para aquele longo velório. Aconteciam poucos casos de violência, roubos, até os perigos eram comedidos. Derrotados, anulavam a vida, ritmando brandamente o cortejo dos seus dias. Poucas palavras, faíscas de sonhos. Um ou outro se desajustava e partia. Ali era para chorar ou embalar-se na mediocridade do desmanche, cru, da miséria. Não tinham nem árvores ou pequenos riachos ou mesmo uma cerca, ainda que fosse de arame farpado, não tinham animais, uma galinha ou duas que circulavam apressadas sob o olhar guloso das pessoas. Nada para distrair, as crianças, magrinhas, amarelas, faziam pequenas bolas de restos, de lama, para brincar. Um fio, um cordão, algum boneco ou carrinho achados no lixo, as vozezinhas fracas... era assim. Aquela vida que vivia.

 

Difícil mesmo era a danceteria, pelo menos é assim que Seu Renato chamava aquela casa noturna.  Perfumes- fortes, pinturas - exageradas, roupas - apertadas, decotes   - imensos, olhares - impudicos... requebros, homens, os quartos, os sons do sexo, as bebidas.  Os banheiros imundos, sempre. Era ela que os limpava. No final daquelas noites insanas. Se era tão recatada por que tinha que viver com gente assim? Não entendia. Às vezes se revoltava ou estranhava. Era tão diferente deles, que parecia invisível. Sabia que a percebiam por pequenos olhares, turvos, fugidios que lhe davam. Não pareciam se constranger com a sua presença, até existia um certo respeito, um estado de recato pela sua fragilidade, aquele ar sofrido e tímido de moça calada.

 

Quando aconteciam os shows, ela, abraçada à sua vassoura, a boca entreaberta, ficava assistindo. Algumas vezes, é verdade, o coração acelerava um pouco, afinal, alguns homens bonitos apareciam por ali. A forma como tocavam no sexo e mordiam a boca quando as moças dançavam.... a perturbavam um pouco. A respiração acelerava, um rápido toque de língua no céu da boca, curiosidade. Às vezes pensava neles. Já se imaginara dançando, não com aquele corpo, claro, mas, com outro, assim parecido com os das meninas.  Um vestido prateado, que achava tão bonito, os sapatos seriam brancos, o batom preferia rosado... a sombra... não se decidira... prata também. Dançaria mais discreto, achava.

 

Uma das meninas, mais quieta, uns olhos fundos em contraste com o corpo, vez em quando a presenteava com um sabonete, já lhe dera um batom, e duas calcinhas. Muito pequenas, uma branca, a outra, azul.

 

- Vão ficar bem em você, depois te compro um sutiã – dissera com um olhar um pouco mais demorado.

 

Em três ou quatro noites as estendera na cama, se poderia chamar assim aquele leito tão desconfortável, sempre coberto com lençóis rasgados, e cismara

 

-  São bonitas..

 

Mas esquecera e a moça dos olhos fundos acabou por ir embora, disseram que arranjara homem fixo. A rotina de limpeza acabou embaçando a perturbação. Depois de um tempo, quando já tinha comprado sapatos novos e dois vestidos, passou a  participar de uma comunidade de jovens. Tinha uma igreja, muito precária, na vila. Contou que trabalhava em uma lanchonete para o pastor, velho e antipático. Ele estava procurando uma moça pra limpeza.  Apareceram muitas, ela nem se candidatou. Para que? Aquela danceteria, alguém já tinha lhe dito que era um puteiro, podia ser mesmo isso aí de puteiro, mas, pelo menos, ela saia da sua rotina, da casa cinza de concreto e de alma aonde morava. Ali era vermelho, azulão e tinha uns prateados. As moças se pintavam, alguns homens eram bonitos... eram sim, lembrou das calcinhas, mas ela não, não entendia de pecado.

 

Só não queria perder o emprego. Dava gosto ir no mercadinho comprar carne, frutas, arroz, batata, que a mãe gostava, óleo, farinha para fazer pão e bolo, achocolatado e vir com bastante sacola. Todo mundo de olho graúdo pelo caminho. Percebia que ia ficando mais respeitada. Até falavam em dona Dora, gostou. Ficava bem.

 

Queria é ter sido professora, ter caderno para corrigir, uma casinha que não fosse de madeira, podia ser longe, ela e a mãe de braços dados, que a mãe iria até a escola para voltar com ela, a mãe admirava essas coisas, ela sabia. Então, queria que ela e a mãe fossem um pouco mais gordas e tivessem aquelas meias finas e uns sapatos rasos coloridos e voltassem juntas de braços dados, não conseguia se imaginar voltando da escola sem isso, a mãe, as meias, uma pasta, uma rua calçada, uma casa pequenininha e de material. Não imaginava marido e filhos, talvez porque sua vida tão estreita não conseguisse se alargar até abarcar tanto movimento, luz natural, cozinha com janela de cortina bordada, um homem sentado à mesa e depois o quarto, a cama, o lençol, a camisola, os filhos dormindo. Sabia que podia ser assim, mas não conseguia voar até ali. A mãe, mais gorda, vestida de roupa limpa e andando sem cair. Era o que queria.

 

A mãe andando sem cair. Tão pequenininha, raquítica, fome e miséria cravadas naquele corpo e naquela alma. O silêncio daquela mãe que ela não entendia porque só emitia aqueles sons roucos, meio de caverna, agudos, breves, roucos, gemidos. Tão curvada. Tentava fazer festa para as compras dela e comer, sentar junto na mesa. Mas, comia tão pouquinho, tão fraquinha. Ela então contava com sua voz, também cheia de cavernas e surdos, também pequena e atrapalhada, alguma coisa das moças, dos rapazes, a mãe balançava a cabeça, tão pequenininha.

 

A mãe dormia na cama grande, ela tinha um sofá. A mãe tinha mais coberta, ela agora já não passava tanto frio, mas, como teve tanto frio algumas vezes. Tinha comprado um cobertor novo para a mãe. Gostava de espiar quando elas estavam deitadas e ver o cobertor bonito. A mãe ia engordar, quem sabe ela arranjasse uma casa mais bonita. Se bem que até gostava dali. Quem sabe.

 

Era perto do Natal, Dora já tinha uma geladeira, ficava espiando a mãe abrir e fechar algumas vezes no dia, para admirar por dentro, ver o que tinha. Comprara uma dessas aves, ganhara panetone, chocolate, lata de compota, castanhas e outras coisas em uma cesta. Dora não sabia bem o que ia fazer. Os vizinhos também estavam admirados. Passavam por ali, devagar, olhavam para dentro, sabiam da ave. A mãe ficava sentada na beira da mesa olhando para a Dora. Parecia mesmo que engordara. Tremia menos. Seus olhos tinham um brilho, um intenso brilho azul, Dora não sabia que a mãe brilhava, que tinha olhos. Dora não sabia que amava. Então a mãe falou, o som cristalino, não tropeçou em nenhuma palavra, ainda baixo, mas falou::

 

-  Dois dias antes tire do congelador e eu tempero mais. Eu sei assar.

 

 

Jandira Zanchi: Poeta, ficcionista e editora (singularidade). Curitibana, é licenciada em Matemática pela Universidade Federal do Paraná e possui extensa experiência no ensino de matemática e física. Entre os vários colégios e faculdades que atuou inclui-se a Universidade Agostinho Neto em Luanda - Angola nos anos 80. Publicou os  livros de poesias: A Janela dos Ventos (singularidade, 2017), Área de Corte (Patuá, 2016),  Gume de Gueixa (Patuá, 2013), e Balão de Ensaio (Protexto,2007). Co-editora de Amaité poesia e cia.

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Paginação:

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