ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Jorge Castro Guedes


Testemunhos na primeira pessoa: o duplo segredo de um cofre

Aqui procurarei deixar alguns testemunhos, cuja forma pessoal é um estilo e também verificação da substância encerrada neles, a única coisa que interessa verdadeiramente. Nem tanto para um hoje insensível a eles, mas para memória futura, caso a Humanidade ultrapasse a curva da auto-destruição.


EPISÓDIO 4: O DUPLO SEGREDO DE UM COFRE


Como se deu nota no testemunho anterior, o parto do TEAR foi feito de dificuldades, muito jogo de cintura e mesmo a necessidade de alguma agressividade. Neste contexto é fácil imaginar que um episódio como o que se segue, ainda antes da estreia, seria uma guloseima para os que tudo fizeram para que o projecto abortasse. Mas a sua tragi-comicidade merece ser relatada como coisa picaresca. Tanto mais que, dada a maioritária juventude dos sócios fundadores seria uma bela oportunidade para ‘confirmarem’ que se tratava de um bando de irresponsáveis.


Era um domingo à tarde e decorria o ensaio, não tinha eu (o encenador) ainda chegado porque fora justamente a um almoço tratar de outros assuntos que tinham a ver com captação de recursos. Sim: o TEAR começou unicamente com um subsídio de 15 contos (considerando a depreciação da moeda pode dizer-se que equivaleria hoje, aproximadamente, a uns 4.000 a 5.000 euros). Dinheiro esse, vindo da Fundação Engenheiro António de Almeida, que se esvaiu na compra do material de escritório. Eu era especialmente exigente na qualidade mínima de dignidade do pouco que íamos juntando e a Isabel Alves, responsável pela organização da parte administrativa a par de responsabilidades artísticas, era de um rigor exemplar, de tal modo que os nossos dossiês e toda a organização de arquivos e o demais não se contentava com a anarqueirada que imperava pela maior parte dos grupos. Somando-lhe uma máquina de escrever (não havia computadores pessoais e as máquinas de escrever eram mais caras do que hoje se pode conseguir em mercado para um portátil já muito razoável) e depois as licenças, registos, alvarás, despesas notariais, mais as edições do programa e publicidade nada sobrava.


Bem: então – como previsto –, o ensaio começara pelas 15h00 numas instalações anexas ao Teatro Sá da Bandeira, do qual era concessionário o empresário Vasco Morgado, que nos autorizara a ir para lá ensaiar e mesmo a usar as oficinas do Teatro para fazer os cenários. Facto muito curioso porque era tido por um inimigo de um teatro ‘prafrentex’. E quem geria e usava o espaço era um tal Sr. Vigoço, ligado ao Stand da Mercedes que existia, então, por ali. Bem: Decorria, pois o ensaio, supostamente, quando cheguei pelas 16h00. O Moreira (técnico) estava pálido e anunciava-me com (consciente) ar de tragédia iminente: “O Rafael Tormenta está fechado dentro do cofre”. O Rafael era um dos actores que integrava o elenco de “O Avejão” de Raúl Brandão, um dos dois textos do espectáculo de estreia da companhia (ou outro era, do mesmo autor, “O Doido e a Morte”). E num cofre monobloco embutido na parede, em aço e com portas de uns bons 10 cm ou mais de espessura, sempre de portas abertas, era onde se iam buscar as cadeiras para o ensaio (ainda eram ensaios de mesa) e lá voltavam no final. E o Rafael fora o último, por acaso, a ir retirar a sua cadeira. Só que, entretanto, o carácter tão inovador e arrojado dos que nos atrevêramos a desafiar os poderes teatrais estabelecidos (e até não só no Porto), atraíra a assistir a ensaios vários outros interessados. E nesse dia eles eram uma irmã da Laurinda Ferreira, creio, e, estou certo, um jovenzinho de 15 ou 16 anos do teatro de amadores do Grupo dos Modestos mais um aluno da Escola de Teatro de Évora, natural do Porto, onde viera passar o fim-de-semana. Quando o Rafael entrou no cofre o rapazito fechou as portas! Mas pior ainda, o tal estudante de teatro, com a nossa idade, teve a ideia de rodar o segredo dos dois discos alfa-numéricos da combinação do segredo de abertura do cofre. Este último (ir)responsável, quando eu cheguei, já desaparecera; o Moreira andava literalmente de mãos na cabeça a tentar inventar uma solução, outros elementos do TEAR (que não entravam no espectáculo sequer) foram rapidamente mobilizados para aquele, de facto, insólito e terrível acontecimento porque só o Sr. Vigoço sabia o tal segredo e como era domingo ninguém o conseguia encontrar em parte alguma. Lá dentro, o Rafael só dizia com um fio de voz “ Ó Jorge, tu tem calma”. Eu era, como os encenadores em início de carreira, por insegurança talvez, um berrador nato e cheio de nervos, mas quanto maisele o dizia, mais eu me enervava e o mandava calar, a pensar na óbvia necessidade de lhe poupar o oxigénio, o que o fazia repetir, num ciclo recorrente durante quase toda a peripécia “Ó Jorge não te enerves, tem calma, eu estou bem”. O especialista da Judiciária a que se recorria em situações destas, por fatalidade nossa, partira de avião para Lisboa para acudir a uma situação idêntica. E, entretanto, chegaram bombeiros, polícia e… jornalistas com fotógrafos. A um deles eu pedira (conhecia-o de perto e era Chefe de Redacção no Porto de um jornal diário de grande tiragem) para que desse a notícia com discrição, ao que ele me respondeu “Eh pá! Se isto acabar com a morte do rapaz lá dentro é notícia de primeira página em todos os jornais e abertura de Telejornal! E eu tenho que fazer o mesmo, é inevitável”. Em duplo desespero de causa (o risco de acontecer algum desenlace fatal ao actor dentro do cofre e o escândalo com que o TEAR começaria publicamente ainda antes de se ter estreado), tenho a peregrina ideia de ir pedir ajuda a uns empregados do Vasco Morgado, daqueles que tinham ar de executar as consequências dos que, nos filmes, não aceitavam as “ofertas irrecusáveis”… Embora em versão lusa mais soft. Mesmo assim, mais para a frente, quando um fotógrafo procurava o melhor ângulo para registar para a posteridade a tragédia ou resgate da vítima, lembra-se de lhe amandar um enfesto de ombro, que máquina e fotógrafo rebolaram daquele primeiro andar escada abaixo! E entre gritos de “Ataque à liberdade de imprensa” de um lado e, do outro, punhos a fecharem-se para calar o atrevido, meti-me eu a pedir desculpas, recomendar calma e dispensar a ajuda dos rapazes encorpados.


Na rua estavam já centenas de pessoas, do outro lado de uma mini-barreira policial para evitar o acesso dos populares ao local da ocorrência. Anónimo e discreto, entre eles, o Luís Duarte captava os ditos nas várias versões de quem vira chegar ao lado do Sá da Bandeira carros (no plural) dos bombeiros e com aquela mania de ligar sirenes mesmo quando não era preciso no caso: Um rapaz suicidara-se! Aparecera um morto num escritório! O Sá da Bandeira estava a arder! E foi esta última que chegou a Lisboa ao Vasco Morgado que foi logo para o aeroporto para apanhar o primeiro avião rumo ao Porto – o que só não aconteceu porque (ainda que não havendo telemóveis) alguém conseguiu explicar-lhe que nada disso se passava, mas sim o incidente do cofre. E no Porto, o encofrado começava a dizer “Está a ficar muito abafado” e eu voltava, já não a gritar, mas a suplicar, para que se calasse e explicitava que era para que poupasse o ar! Os bombeiros já haviam tentado machados e picaretas, pés de cabra, algumas experiências rodando os botões do segredo. Tinham corrido umas 2 horas já e nada! E o Moreira continuava (não sei porquê, nem ele devia saber) com o capuz do Kispo na cabeça, de um lado para o outro a recordar a sua anterior passagem pela Legião Francesa (mesmo verdade) a ver se descobria um método para pôr fim à tragédia que começava a tomar proporções de proximidade. Sobretudo após os bombeiros terem ensaiado o corte da chapa a maçarico, mas suspendido a manobra porque o tempo que a chapa demoraria a ceder para uma abertura por onde o encarcerado pudesse sair seria fatídica porque queimaria antes o oxigénio com as primeiras chamas a vencer os primeiros centímetros daquelas portas blindadas. E o Rafael dissera pela primeira vez “Estou a respirar mal”! A Laurinda começara a chorar, o Mário Timóteo só resmungava que se apanhasse o gajo que rodara o segredo o desfazia à pancada, o João Paulo Costa começara a empalidecer e dizia qualquer coisa como isto: “Como é possível? Isto é tremendo, são todos inconscientes”! Ao que a Isabel Alves respondia que não fôramos nós e ele voltava à carga numa espécie de marralhar de palavras com a mesma frase volta meia volta, até a Isabel lhe gritar para que se calasse ou se fosse embora! Mas nisto o Rafael diz, já com a voz um pouco enfraquecida: “Eu estou a ver uma luzinha no tecto”. Entre a dúvida de sintomas do início de alucinações a que a falta de oxigenação leva (riam-se os leitores, mas é a sério) e a esperança de algum milagre, os bombeiros descobrem que o tecto do monobloco, afinal, na parte de cima era em tijolo, logo ali escacado à picareta.


Há muitos anos antes, soubemo-lo depois, acontecera o mesmo, mas também sem consequências trágicas porque chegou a tempo o detentor do segredo do cofre e o abrira. Os bombeiros lançam um colete com cordas para içar e assim resgatar o encarcerado; os fotógrafos aprontam-se; a PSP indica-nos uma sala (a de ensaios) para o levarmos (com o chefe dos bombeiros) uma vez concluída a operação para registar a ocorrência: nada de complicado, uma formalidade. Porém, seria terrível a fotografia… Que fazer? Tapar-lhe o rosto, lembro-me eu! E então, com um casaco, a Isabel Alves sobe para um banco e quando a cabeça do Rafael assoma cheia de caliça e o cabelo e rosto escorrendo suor, finalmente ao ar livre, ela lança-lhe o casaco sobre a cabeça. Os bombeiros tentam evitá-lo, procurando afastá-la, e ela - era a única e inteligente saída! - quase chorando, muito comovida, agarra-se a ele, com o casaco a fazer de capuz, dizendo qualquer coisa como isto: “Ai meu querido! Estava cheia de medo! Estávamos todos desesperados!” (estávamos de facto, mas a situação e aquela súbita emoção descontrolada quase histérica da Isabel era evidentemente uma representação para evitar que os bombeiros a afastassem e os fotógrafos captassem o rosto do Rafael). De seguida, com ele a caminhar para a sala e ela agarrada sempre a ele, de cabeça tapada, acompanho o cortejo amoroso e sussurro ao ouvido do Rafael: “Quando te pedirem o nome diz só José Brito”, repetindo-o como uma ladainha.

 

Chegados à sala, fora da vista de outras testemunhas, ele senta-se, suado, e quando lhe pedem o nome, responde: “José Rafael Brito”… Dá um suspiro com real cansaço e completa: “Tormenta”. O chefe dos bombeiros comenta: “Coitado! Ainda está atormentado”. Estávamos salvos com aquela interpretação do chefe dos bombeiros sobre o apelido do nosso companheiro. Como não houve tragédia, os jornais postaram uma local pequena a relatar o acontecido com um tal José Rafael Brito, nome que ficou registado oficialmente e lhes foi fornecido pela PSP. Hoje só me interrogo porque não lhe pediram o bilhete de identidade! Mas a verdade é que foi mesmo assim. E com o espaço desimpedido de terceiros combinámos sair à vez e tomando conspirativamente caminhos diferentes para nos reunirmos em casa da Isabel Strecht que andara toda a tarde, de carro, à procura do Sr. Vigoço, interrogando vizinhos sobre os hábitos dele porque tinha um recado urgente a dar-lhe! E lá combinámos as mais loucas estratégias para responder a qualquer ataque, incluindo o José Moreira a ir ao TEP no dia seguinte sob um qualquer pretexto (ele estava de baixa, como se sabe do episódio anterior) e atirar com esta, sem mais nem para quê: “Ó Sr. Cayolla (era o director artístico do TEP naquela altura) eu também posso dizer que no TEP usaram uma pintura do Augusto Gomes para fazer um cenário, serrando e destruindo a obra?”. Era verdade, mas era coisa que o Cayolla ignorava (fora anos antes) e certamente, por si, não o permitiria; mas, pior, não percebia era o porquê do dito! Ao Sr. Vigoço, usando de todo o charme, as Isabéis lá conseguiram minimizar os danos e o senhor até foi extremamente simpático, deixando-nos concluir lá os ensaios e assumindo todos os custos da destruição do tecto do cofre. E a única coisa que ainda valerá a pena recordar é que o figurino que o Rafael Tormenta usava na peça era um fato de espuma com a cabeça tapada por uma cabeça de papelão com três rostos para fazer as três velhas da obra! Por isso saía de cada representação sempre tão ou mais suado e abafado do que quando estivera no cofre. Mas a cabeça de cena não era – Juro! – para lhe ocultar o rosto dos fotógrafos! Estava previamente previsto e desenhado no figurino. Mas não deixa de ser uma coincidência absolutamente espantosa. O TEAR vinha à luz do dia e o Rafael Tormenta é que passou pelo malfadado destino de ter de respirar às escuras pela causa do teatro!... Com a única vantagem de que a obra em cena levava pouco mais de uma hora, enquanto no cofre estivera encerrado umas 4 num duplo segredo

 

 

Jorge Castro Guedes é encenador

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