ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

José Antonio Abreu de Oliveira


Textos desencontrados em gavetas de espera

(ilustração de Paulo Nilson)

 

1) Brandina

 

Não dormi bem a noite passada, uns sobressaltos, uns bacorejos, noite estranha de divinações. O noturno já não me cabia, que eu me triplicara em aflições, doido para o arribamento das luzes.

 

Fui perseguir o alvorecer, iniciar de algo novo, alvejante juízo. Despreguei-me das painas do travesseiro, calcei as alpercatas de espuma, talvez me livrando de mim, aqueles obscuros que rondam, que nos torturam a alma e estão sem nome, ansiedade por ares frescos de quando o dia nem não. E o dia não era. Estava lá o limite, a fina transparência de estrelas que se despedem, quando a gente entende que é frio o adeus.

 

Respirei os ares, filtrando o cheiro de barro e de pulos de sapos que ali passaram pelos escondidos. Queridos grilos que gritavam, talvez me purgando de meus gritos. O certo é que a alva despontou, afastando o luto. Nem tão bonita, mas me mergulhou no mistério. Aquele instante que sim, que não, que sim. Quando se aleluia em novo raiamento.

 

Nem sei se foi o andar, o sair da casa, o distrair das luzes nascentes, mas me pacifiquei, dessiderado. Tanta gente já indo pros currais, para as lavouras, para os descampados, que me situei.~

 

Não me perdi, havia que me girar de retorno. Havia um trabalho, e não se pode desistir tão fácil. No átimo da viração, eu já não era. Cresci, ali. Derreei ali o eu pequeno, a manhã pequena, o amanhecer e os ares prenhes de sapos. Era um tamanho que já não sofria. Encarei a estrada, não da casa em si, mas do que precisava ser feito, antes de qualquer fuga, ou de ir-se embora. Para alguns, coar café é até um ato de bravura. Subir um degrau. Entrar num trem. Dizer meia dúzia de palavras. O que fosse. Eu me amanhecera.

 

Como uma chuva da boa. Com sustança tropical. Daquelas que se escuta o datilografar nas telhas. E que as águas formam rios para os barcos de papel. Talvez eu coloque um barquinho na correnteza do meio-fio, quando chover. Só pra ver o bambolejo do barco ganhando vontades de seguir.

 

Foi só falar em chuva e ela despregou. Vai molhar a manga, vai. Molhar a trepadeira cu-de-jacinto, vai. Escorrer cascatas pelo tronco do coqueiro, vai. Espalhar gotas na varanda, encharcar a grama, encher o poço que andava seco. Gente na janela vendo a chuva, tem. Passarim molhado, procurando abrigo, tem. Uns estalos grossos de relampeamentos, tem. Acalanto que sossegue o calor tem também. Até vi uma senhora, guarda-chuva aberto, tentando apressar as pernas, lá no fim da rua (basta pingar que aparece, no ato, alguém com guarda-chuva). É água esperada, coisa de visita importante. Damos atenção. Retirei o chapéu, em modo de cumprimento. Se achegue. Alguns acenderão velas para Santa Bárbara, defesa dos raios. E, ajeitar outras, para São Pedro. Tem que oscilar nos rezamentos.

 

As chuvas trazem pernas compridas e desfilam em vestidos transparentes. Depois, não sei o que acontece, desmaiam. E se vão pelas ruas, encher os rios, virar sereias e Iemanjás. Deixam o cabelo de lodo crescendo nas ramagens. E uns lambaris enriquecidos de água. Ah, me lembrei do que eu ia dizer:

 

Que o que me salva quando passo madrugadas derreado é o haver convivido. Pessoas como Brandina, imersa em desafetação. A força que não cessa. Brandina, rachando lenha para a casa e para a fornalha de secar café: —“O mesmo risco que corre o pau, corre o machado”. E se abria num sorriso. Depois, me ensinando a limar a ferramenta de cabo de angico preto:

 

—“O machado, Tuninho, é que nem homem. Tem cabeça, ombro, unha, grogomilho que é o nó, barriga, costas, calcanhar, face, pé, cabeça e olho...e no fio pode nascer dentes! Veja se não é igualzinho, taliquá. Machado é pessoa, tem que tratar com cuidado. Pode ser boa, pode ser má. Tem espinha ereta, mas escambicha, aporretado. Quarenta anos, eu, Brandina, racho lenha, desde que vim da Itália, Conheço tudo dele, e vejo o que ninguém vê”.

 

—“O quê, Brandina”?

 

“— O céu, quando levanto o machado ao alto, o céu, o machado percorre todo o azul, até cair, e rachar o oco, sem tutano, da lenha. A força vem do alto. Eu subo em força. Tenho a assinatura dele: meus calos. Converso com ele, que também, às vezes, desanima. Tem uns dias, tem, o machado não trabalha de jeito algum. É feito teimoso. Mas sempre vem um novo dia”.

 

Quando saí, ainda escutei o barulho da lâmina desabando como sinfonia de uma só pulsão. Mais adiante, o terreiro vazio, o riacho vazio, as estradas, as montanhas, o que houvesse de extensão, vazios, ainda que a pilha de lenha fosse o fardo a se consumir. Brandina dava conta do trabalho de machado, horas de lâmina cortando isolamento.

 

E vai-se embora a chuva, e vem o domingo em brasas. Atravessar a estrada é pisotear fogueiras. Como aqueles beduínos constroem casas nos desertos, os pássaros se ocultam entre as folhagens, o que faz parecer que as árvores cantam. Árvores de tico-ticos, árvores de godelos, árvores de viuvinhas. Acima da algazarra e das estradas ardentes, oscilam mares de quietudes. Nave de imigrantes, fugitivos, quando adormecem. E se esquecem da dor ou da saudade: borda do instante. 

 

 

 

 

 

 

2) Impressionismo

 

Ouvia Ravel, enquanto a fumacinha do cigarro se espalhava. Mentol, no bar. O que era mesmo para dizer? Ah, sim, a Guidinha, a puta idosa, que se vendia por um sabonete Gessy. Acabara de passar, molecada atrás, zombando. Quadro de Monet, agora, a fumaça subindo.

 

Não era um quadro de Monet, mas a reprodução barata, suja, encardida de gordura, entre garrafas de conhaque e beberagens com raízes, o menino se abaixa. A música. De uma rádio AM, esquecida, provinda de casa em frente, rua apertada. A mão do menino segura a pedra, granito miracema, duro. Há sol. Monet.

 

A reprodução se trata de "Impressão: nascer do sol". Ravel. A gritaria da gurizada se sobrepõe. Bolero e risadas, e gritarias. O menino rodopia para pegar impulso. Granito na mão, girando, bolero de Ravel, girando, ele lança. Monet. O sol laranja, difusão, um barco negro. Garrafas de conhaque, raízes mortas, a pintura se deforma sob o vidro das botelhas, o cigarro, a pedra lançada. Sinto, forte, o trago de mentol.

 

A pedra voou, passarinheira, em curta modulação, em mi maior. Saxofone sopranino. Não vi, mas ouvi, acertou a cabeça de alguém, que grita um ai. Monet. Difusão, fumaça, grito de um ai, garrafas, saxofone. A velha Guidinha, alguém avisa. Acertaram sua cabeça. Pedrada. A puta. Ravel, num crescendo, cachaça, conhaque, rum, sangue. Fumaça. Mentol.

 

Bolero. O vidro deformando a tela barata. O corpo barato. A cachaça puta. Há sol. Mentol escorre pela sarjeta. Crianças correm e se faz silêncio de vozes, o Bolero em seu auge, o silêncio explodindo.

 

 

 

 

 

2) Rodapé sobre azenhas antigas (com madeiras descoradas)

 

Meio-dia sob o sol, na lavoura, não se ouve nada. Em tudo ecoa o silêncio. As estradas amolecem, o marrom do barro se incendeia, marimbondo espera. As vasilhas se acumulam na bica.

 

O moinho, não, fica remoendo o nada, que é também uma ausência e uma mudez. E aquele barulho do cadelo sobre a mó é apenas o ritmo das horas, que não conta. É líquido, ensejos escoados.

 

O moinho. A parte de baixo se chama inferno. Todo moinho tem o seu inferno. E era isso mesmo que eu pressentia quando subia a rampa de entrada: sob a casinha quase em ruínas existia um tártaro, o báratro profundo. Quem ali se jogasse, ou caísse, seria esmagado pelas pás da grande roda.

 

Apesar do perigo, ao lado, bem ao lado das voragens, erguia uma súbita flor, amarela, na eterna sombra, solitária e débil, para quem o amanhecer, ou entardecer, era sempre o averno, sua única referência. Ao meio-dia também a flor descansava.

Estive lá, ao meio-dia, atesto. O silêncio, a flor e a mó remoendo. Não, não estou contando de paisagens. Escrevo-me, descrevo-me, silêncio, flor e mó. Alguns chamam coração. É apenas alguns minutos de uma vida.

 

 

José  Antonio Abreu de Oliveira tem 63 anos, nasceu em Santa Clara, estado do Rio de Janeiro, formado em odontologia, com mestrado em Saúde Pública (Fiocruz). Tem um livro publicado: “Crônicas Velozes”. Atualmente prepara outro livro, “O Bigode do Gato”. Tem poesias premiadas em concursos brasileiros, publicações de crônicas em diversas páginas ou blogues na internet e textos publicados em coletâneas.

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