ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Henrique Dória


GROSZ, OU A ALEMANHA NO CAMINHO DO INFERNO

Os pequenos porcos comem merda
E nós comemos os pequenos porcos.
CHATEAUBRIAND

 

         Desde o princípio do século XX até à tomada do poder por Hitler, a Alemanha percorreu o caminho em direção ao inferno. Em 1888, ascendia ao supremo poder na Alemanha o kaiser Guilherme II. Pessoa impetuosa e arrogante, rodeado de generais belicistas que eram os seus principais conselheiros, cedo se livrou do chanceler Bismark que procurava levar a cabo uma política de rivalidade pacífica com a Inglaterra, a Rússia e a França. Em 1900, num discurso às tropas alemãs que estavam de partida para reprimir a rebelião dos boxers na China, disse Guilherme II:
“Se encontrardes o inimigo, ele será derrotado! Não haverá tréguas! Não serão feitos prisioneiros! Quem cair nas vossas mãos será destruído. Tal como há mil anos os Hunos  liderados pelo rei Átila conquistaram a sua fama, uma fama que ainda hoje os torna poderosos na História e na lenda, que o nome alemão seja afirmado da mesma forma na China de forma a que nenhum chinês se atreva a olhar de lado para a Alemanha”

 

Foi com esta atitude que Guilherme II entrou na Primeira Grande Guerra. A sua impreparação e a impreparação do seu corpo de generais, verdadeiros detentores do poder (e, em 1914, levaram a cabo o  caduco plano Schlieffen, concebido em 1906, com o objetivo de derrotar a França numa guerra relâmpago, para depois concentrar as forças num ataque à Rússia), conduziu a Alemanha a uma humilhante derrota e ao período mais negro da sua história. Em 1914, estalara a guerra entre a França e a Alemanha, e George Grosz, alemão nascido em 1893, ofereceu-se como voluntário. Foi, no entanto, dispensado pouco depois por graves problemas de saúde. A guerra que os generais alemães pensavam que duraria dias, quando muito dois ou três meses, arrastou-se durante quatro anos numa horrível carnificina. Finda a guerra, Grosz aderiu ao Partido Comunista e participou no movimento dadaísta. Tinha começado a sua carreira artística como caricaturista implacável da cínica sociedade alemã, dominada pelos militares e pelos senhores do dinheiro, legitimados pela religião. No seu primeiro óleo, CIDADE, de 1917, ele retrata em tons de vermelho e negro a loucura da “boa” sociedade alemã, que num tempo de miséria e morte para as classes baixas e os soldados em guerra, se divertia numa loucura coletiva. Precisamente aqueles que propagavam a defesa da família, da honra e do temor de Deus, à noite faziam “ um cortejo diabólico de figuras humanas, cujos rostos denunciam o álcool, a sífilis, a peste. Uma toca corneta, outra grita, urra. A morte passeia-se no meio desta multidão, sobre um caixão negro.

 

É esta a descrição feita ao seu outro óleo, de 1918, também em tons de vermelho e negro, dedicado a OSCAR PANIZA,  amigo do pintor, cuja obra novelística era considerada blasfema, em particular o seu famoso CONCÍLIO DO AMOR, proibido na Áustria por ofensivo da religião.

 

A pintura de GROSZ é, nestes anos de 1917, 18 e 19, fortemente infuenciada pelo movimento dadaísta e, embora Grosz o negasse, pelo expressionismo. A influência do dadaísmo e do expressionismo é clara na obra situada à direita no conjunto das três obras que constituem a capa desta incomunidade.com, a que Groszdeu o título de ALEMANHA, UMA HSTÓRIA DE INVERNO, pintada entre 1917 e 1919. As linhas de força da obra desenvolvem-se num triângulo. A parte superior desse triângulo é ocupada por um burgês rotundo e filistino, com uma faca e um garfo, grandes, nas mãos, sobre um prato de ossos e com uma garrafa rotulada com a Cruz de Ferro, alta condecoração militar alemã. Encontra-se num palanque, sobre o caos onde emergem uma prostituta à esquerda, e um cão famélico à direita. Na base desse palanque estão o padre à esquerda, e o professor à direita, com uma obra de GOETHE. No centro, mais alto e ocupando mais espaço que os companheiros, o general. Eles eram os pilares da sociedade alemã que serviam os senhores do dinheiro. As cores são as cores da morte: o amarelo desmaiado, o verde  e o negro. Era retrato cruel, mas verdadeiro, da Alemanha da época.

 

Na obra do lado esquerdo, intitulada OS PILARES DA SOCIEDADE, e datada de 1926, estão representados os tipos socais que ele detestava e desprezava: o nazi em ascensão, com um cavaleiro medieval no lugar do cérebro, empunhando uma espada medieval de copo largo, na mão direita, e na esquerda uma caneca de cerveja. Atrás deste, o jornalista com um penico na cabeça e o professor gordo, com fezes fumegantes no lugar do cérebro, pregando o socialismo da República de Weimar. Mais acima, o padre e os militares empunhando a espada. Na parte superior esquerda, ardem os edifícios por eles construídos.

 

Tudo isto em tons castanhos, cinzentos sujos, e pretos.

 

Finalmente, a obra do centro, datada também de 1926 e intitulada O ECLIPSE DO SOL, é também o retrato da Alemanha de então. As linhas de força são constituídas agora por duas paralelas, uma na parte superior da obra e desenvolvendo-se em volume crescente de baixo para cima, como sucedia na pintura medieval em que a importância das personagens se avaliava pelo tamanho no quadro; outra na parte média da obra, em que o povo, representado por um burro com palas que come o que lhe dão, é o centro da linha de força.

 

Um eixo entre o vértice superior esquerdo e inferior direita corta essas paralelas, como que anulando-as. Na parte superior esquerda, o brilho do sol é tapado pelo dinheiro. Na parte  inferior direita a caveira mostra como, afinal, aquela sociedade estava morta sem o saber.

 

À volta duma mesa semelhante a uma mesa de jogo, reune-se o poder, tendo à sua frente um general, rosto vermelho de sangue e álcool, peito cheio de medalhas, poderosas dragonas, bigode farto imitando o kaiser, e a cabeça nua rodeada de louros, louros, afinal, da derrota militar.À sua frente um crucifixo tricolor assinalando a derrota da Alemanha  contra a França e uma espada ensanguentada.

 

Grosz, para quem a arte era uma forma       de luta política, que odiava os pilares da sociedade alemã, foi-se desencantando a pouco e com a incapacidade de os oprimidos tomarem o poder, sentimento expresso pelo burro que figura nessa obra. Convidado para lecionar na América, acabou por lá se exilar com a tomada do poder por Hitler. A convivência com a sociedade americana só aprofundou o seu afastamento do comunismo, apesar de continuar fiel ao desejo de uma sociedade sem opressores. Acabaria por morrer na sua Berlim natal, em 1959, descrente da capacidade dos homens para conquistarem a sua própria felicidade.

 

 

HENRIQUE DÓRIA

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Foto de capa:

Tríptico do pintor alemão George Grosz


Paginação:

Nuno Baptista


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