ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: Primeiro de janeiro

Amo o mês de dezembro, porque ele traz o clima de Natal, com reflexões espirituais, com filmes de fantasias e magias, com suas guirlandas, estrelas-guias e iluminações (aqui, em Cândido Mota, há o “Jardim Encantado da Conti”, no gigantesco pátio da empresa decorado com cerca de um milhão de lâmpadas de LED coloridas formando animais, flores, e símbolos ornamentais, mais a tradicional e enorme árvore iluminada este ano na cor dourada, além da Sagrada Família de 30 metros de altura – um presente natalino lindíssimo à população). Também amo (principalmente) por ser o mês do aniversário do Mestre Jesus, a quem ofereço meu mais profundo agradecimento por todas as bênçãos diárias recebidas e por tudo o que Ele passou nesta nossa dimensão. Como há muitos anos já não caio mais na armadilha das “revisões de final de ano” (ficar deprimida pelo que não consegui fazer, ou listar para o próximo ano desejos e anseios – ou seria ânsias?...), amo dezembro pelo verão que se inicia (eu e o sol temos uma relação de grande intimidade), pelas frutas, pelo  bougainville florido que vejo exuberantemente belo da varanda do meu quarto, pela abundância de frutas nos quintais, dando mais cores e sabores à cidade. Acho que amo dezembro por tudo.

 

– Mas não é o seu “inferno astral?”,  alguém me perguntará. Sim, mas eu o exorcizo pensando na “minha” apoteótica festa de aniversário: o réveillon. Tendo nascido às 20h – ou 20h30m, há controvérsias – do dia primeiro de janeiro (a rima me acompanha desde o berço), a partir da meia-noite sinto-me privilegiada pela data de meu natalício iniciar-se no momento em que a maioria das pessoas vivencia alguma esperança no coração – a vibração de todos na hora da virada é tão marcante, tão forte, tão contagiante, que não há astral infernal que resista à lembrança desta emoção.

 

A bem da verdade, porém, há dois complicadores, dois fantasmas que nunca deixaram de me assombrar nesta época, comprometendo minha alegria plena: os fogos barulhentos que desnorteiam os animais (é muito triste vê-los assustados e com medo por causa dessas ruidosas comemorações humanas); e a dificuldade de festejar no próprio dia 1, já que todo mundo está cansado da véspera, das festas, do fogo (no singular mesmo porque não me refiro aos fogos de artifício, mas o das bebidas), de ressaca ou mesmo sentindo exaustão pela noite em claro. Sem falar que no Dia da Confraternização Universal não há um restaurante aberto para confraternizarmos com ninguém (feriado universal...).

 

Pelos inconvenientes citados acima, por muitos anos, no Rio, optei por celebrar meu aniversário através de um almoço ajantarado – bem ajantarado mesmo para dar tempo das visitas se refazerem um pouco; mas o problema continuava tanto para quem recepcionava (porque trabalhava na preparação do cardápio desde o dia 31, quando todos estavam na praia ou em festas na orla da Zona Sul – eu sempre morei na Zona Norte...), tanto para o convidado, que chegava com cara de “estou vindo por você, mas só mesmo por muita amizade e consideração, porque não estou me aguentando em pé”... Pior ainda quando o feriado caía no meio da semana, com a perspectiva de trabalho no dia seguinte...

 

O Plano B seria eu mudar o dia da minha reunião, o que sempre recusei veementemente: não faz sentido nascer em um dia tão especial, e ter que reunir os amigos antecipada ou posteriormente... Então, no auge do meu inconformismo, escrevi um poema enfatizando o paradoxo:

 

DIA DA CONFRATERNIZAÇÃO UNIVERSAL

 

Sempre achei lindo, em janeiro,
fazer anos dia primeiro;
mas, o lado ruim,
é que meu inferno astral infesta
todas as festas.
Fico com uma sensação de asfixia
em meio à folia
dos fogos de artifício;
e só me liberto após o réveillon passado,
quando, no dia seguinte, de ressaca
pelo excesso desregrado,
o mundo acorda abatido,
arrependido e bodado.

 

... E resolvi, a seguir, que nestas condições eu não queria festa... Pois foi justamente naquele ano que tive uma festança ininterrupta de praticamente uma semana. Foi a Solange Firmino quem teve a ideia e organizou tudo: ela criou um evento comemorativo no (extinto) Orkut e convidou os nossos amigos em comum (centenas deles, na época) para entrarem, a partir do dia 28 de dezembro, no “salão privé”, das 21 às 3 da manhã (não me lembro exatamente qual o horário pré-estipulado), avisando-me para estar presente on line neste período, ou alterar o lapso de tempo de acordo com minha conveniência. De início estranhei a ideia, mas por quê não? Resumo da ópera: o presente que Solange me proporcionou foi surpreendente: nunca imaginei que este meu primeiro (e único) aniversário virtual, pudesse ser tão emocionante e divertido.

 

Emocionante sim, pois, se para as pessoas do próprio Rio ficava difícil locomover-se até Maricá, que fará as de outros Estados...  Quase impossível (passagem no fim do ano não se acha fácil, ainda mais em uma data complicada como esta). Agora imagine você como me senti por poder ter, também, a presença do pessoal residente na Alemanha, Estados Unidos, Portugal, Argentina, Angola.... Pois todos não só vieram como trouxeram seus poetas favoritos, sua mensagem, sua palavra amiga, presenteando-me com as suas presenças.

 

Divertida também, porque os escritores são muito criativos e minha festa virtual teve de tudo: salgadinhos (imagens de pratos lindos), bolo, brindes com champanhe, cerveja, vinho, coquetéis, refrigerantes e água – para os abstêmios –, emoticons, gifs coloridos, fotos (até dos queridos animais que acompanharam seus donos), violão, cantigas, máscaras, fantasias e um grupo de passistas de escola de samba, a convite da Jaqueline Serávia, chamando todo mundo para o samba de pé, rasgado, brasileiríssimo. E ainda dizem que o virtual é irreal e frio. Depende das pessoas e das circunstâncias. Eu senti, concretamente, cada abraço e cada gesto carinhoso, mesmo a quilômetros ou a gigabytes de distância. Além de tudo, gente que nunca tinha se falado passou a conversar, a interagir, a intercambiar poesias e ideias, em uma autêntica fraterna/materna/paterna confraternização, como eu sempre quis que acontecesse.

 

Que aniversário inesquecível! Ao lembrar-me dele, entendo na prática quando Walter Benjamin fala, em “O Narrador”, sobre a necessidade de nos apossarmos das reminiscências como experiência coletiva a ser partilhada: o que tive não se esgota no passado, é algo de que posso sempre lançar mão, nos momentos em que precisar da força extra de um sorriso.

 

Leila Míccolis, escritora de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Paginação:

Nuno Baptista


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