ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Leonardo Almeida Filho


Poemas II

A lâmpada encantada

 

Sim, o amor é piegas
e, mais que ridículas,
suas cartas são piegas.
Seus poemas, toscos
seus versos, clichês
rasteira, sua própria ideia
Chã, vazia
e às vezes, vã.

 

O amor é uma rã no deserto
afundando na areia
no mais puro desespero
Um cristalzinho derretendo-se
na estrela mais distante
e fria, fria, fria...
Uma sereia que se afoga
e lentamente mergulha
na escuridão do abismo.
O sinal de ocupado no telefone
No banheiro do avião
Na fila do caixa
O amor é sempre espera,
ansiedade e impaciência.

 

Mas, sim, o amor é piegas
E suas cartas, mais que ridículas, piegas
E todas as suas declarações, clichês

 

Um perfurar constante
Um gotejar permanente
Um esfolar-se em gozo
O amor é assim, desconcertante
como um santo puto e louco
que se masturba na abside
em silêncio e sacralidade
sob a benção do senhor dos danados
e da perdição desejada
como a mariposa que se queima
que se imola
no calor da lâmpada encantada.


 

 

 

 

 

A décima sétima praga

 

Havia um general na sala
O dia nem amanhecia
Coturno limpo que brilhava
Na luz do sol que já surgia

 

Havia um general no sótão
Outro sob o meu colchão
Aquele palitava os dentes
o outro cuspia no chão

 

Havia um general no quarto
Outro na lavanderia
Lustrando suas quatro estrelas
Que nos cegava e perseguia

 

Um general sob o chuveiro
Um outro entupindo a pia
Com restos grossos de seus pelos
Que ao barbear-se ali caíam.

 

Havia um general bisonho
Que assobiava na cozinha
E um outro de olhar tristonho
Nos vigiava e nos sorria

 

Por fora, generais a rodo
Na casa, toda essa alcateia
Uivando e celebrando em gozo
O fim possível de uma ideia

 

Não sabe, ó general, um sonho
Não morre sob seu coturno
Não some, mesmo que um medonho
Mundo se mostre soturno

 

Não míngua à noite mais escura
Não murcha ao golpe mais rasteiro
Há generais na minha rua
Há generais no mundo inteiro

 

Havia generais à porta
E outros gorilando ao fundo
Ouvia o som de suas botas
Em seu caminhar rotundo

 

Um general de dez estrelas
Olhou-me com desdém profundo
Sabia ele, inconformado,
Que dentro, em mim, havia um mundo

 

Um território independente
Livre de qualquer caserna
Longe de qualquer patente
E que a si próprio se governa

 

A história nos tem ensinado
Que a liberdade não se entrega
Sabia o general armado
Que a morte não mata uma ideia

 

Leonardo Almeida Filho, paraibano de nascimento (Campina Grande, 1960), candango de criação, professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), com dissertação sobre a obra de Graciliano Ramos (publicada pela Editora da UnB em 2008 sob o título Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito).  Alguns trabalhos publicados: O livro de Loraine (romance, 1998), logomaquia: um manefasto (híbrido, 2008); contos em coletâneas organizadas pelo escritor Ronaldo Cagiano Antologia do Conto Brasiliense (2004) e  Todas as gerações (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poesias em coletâneas organizadas pelo escritor Joanyr de Oliveira Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesias Carlos Drummond de Andrade (2011). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem, que aborda o cenário político-cultural do Brasil em fins de 1942, no cinqüentenário do escritor Graciliano Ramos. Publicou em 2014, pela editora e-galaxia, o volume de contos Nebulosa fauna & outras histórias perversas. Está previsto para publicação no primeiro semestre de 2018 o volume de poesias Babelical. Acaba de finalizar seu terceiro romance (ainda inédito) O grande mar oceano.

Email: leo.almeidafilho@gmail.com

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Paginação:

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