ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Lino de Albergaria


A resposta

O texto aqui publicado, “A resposta”, de Lino de Albergaria, vem em continuidade à primeira parte, publicada em InComunidade, edição 51. O link para a primeira parte está indicado aqui (  http://www.incomunidade.com/v51/art.php?art=261

 

Na hora do almoço, Ana foi ao correio. Retirou da bolsa a carta que estava ali há uns quatro dias. Nunca tinha tido a certeza se queria mesmo mandá-la. No entanto, estava acabando de pagar pelo selo. Achou bonita a estampa, que não tinha escolhido. Deram-lhe aquele pássaro, que nem reconhecia. Sem óculos, não podia identificar o nome escrito ao lado do desenho, em tipo tão pequeno. Pensou em um pombo-correio, mesmo sabendo que a imagem não era a de um pombo. Colocou o envelope na abertura da parede que já separava a correspondência para outros estados. Ganhando a rua, caminhou entre a multidão da Afonso Pena. Do outro lado da pista, o Parque Municipal. Lembrou-se do parque da Avenida Paulista. Um painel anunciava uma exposição no Palácio das Artes. Sem refletir, atravessou a rua. Olhou a montanha, no final da avenida, que lhe lembrou em que cidade estava. Sabia que ia voltar atrasada ao trabalho, mas mesmo assim demorou-se bastante na exposição. Não eram pinturas excepcionais, mas poder caminhar entre aqueles quadros lhe trazia um agradável conforto.

 

Amaro Gaetano voltou à editora com o sono que costumava sentir depois do almoço. Ainda não tinham levado sua garrafa de café, auxílio indispensável para fugir àquela modorra. Amontoavam-se à sua mesa provas e originais dos paradidáticos de ciências, há alguns meses sua nova atribuição. Meio inusitado para um professor de geografia que não gostava da sala de aula e a princípio curtia mapas, de todos os tipos. Mas ali não faziam atlas nem enciclopédias, e começou como assistente dos didáticos de geografia. Até que apareceu a oportunidade dos paradidáticos, com uma gama mais ampla de assuntos e uma liberdade de criação maior do que os rígidos manuais escolares. Não entendia muito de plantas ou animais, confundia-se com a classificação das espécies, mas tinha aprendido a acompanhar a feitura dos livros. Admirava as ilustrações, fotos ou desenhos que procuravam imitar a natureza. E achou interessante se aventurar por outra área.

 

Distraiu-se, olhando a ilustração de uma galáxia em formação, sua favorita, que tinha pessoalmente colado na parede diante do móvel onde colocava a garrafa de café, na verdade uma antiga mesinha de telefone. Se ainda fumasse, um cigarro ajudaria naquele momento. Repetindo um gesto antigo, seus dedos tatearam o bolso do casaco à procura do maço. E encontraram o papel dobrado.

 

Amaro sorriu, ao colocar o envelope por cima das provas que aguardavam sua correção. Tinha sido uma surpresa recebê-lo pela manhã, ao sair de casa. Abriu e leu a carta, intrigado, no metrô. Depois guardou no bolso e até então tinha se esquecido dela. Relanceou o olhar sobre seu nome e o endereço. Examinou o verso e percebeu uma letra abreviada entre o nome de Ana e o sobrenome. Desprezou o sobrenome, relendo apenas Ana G. Recordou a moça bronzeada e de vestido florido, tão deslocada naquela tarde chuvosa. Retirou o papel de seu invólucro, desdobrou-o e leu com mais vagar as linhas percorridas com atropelo dentro do metrô. Sentiu-se tentado a ler mais uma vez, mas foi interrompido pela chegada do café.

 

À noite, em casa, já na cama, fechou a revista semanal e se lembrou de novo de Ana G. Entre os lençóis daquele hotel, dessa vez. Tinha viva sobretudo a memória de sua temperatura, surpreendentemente quente, e da textura macia de sua pele. Já os traços de sua fisionomia eram uma forma bastante vaga. O passeio pela Paulista, ele com sua gabardine, ela com o vestido de flores, lhe fizera bem. Uma quebra na monotonia dos últimos dias. Um homem e uma mulher solitários se fazendo companhia por algumas horas. Incomodava-o que ela não tivesse gostado do filme sobre os Ovnis. Não se lembrava de ter feito algum comentário negativo. Também não conseguia explicar por que era tão fascinado por extraterrestres.

 

A carta daquela mulher tinha algo de ridículo e inconveniente, mesmo que ela negasse as ilusões amorosas. Lembrava a seção de certas revistas femininas. Corações solitários. Na verdade, não passava de alguém quase desconhecido, parceira de um sexo ocasional e descompromissado. Nem tinha sido uma boa trepada. No entanto, ela o procurava de novo. Não propriamente a ele, mas as ilusões amorosas que fingia negar.

 

Como o sono não vinha, pensou que nem ele era imune a um deslize romântico, como se a carta cutucasse nele um fascínio latente pelo mundo das personagens. No fundo, tinha gostado da própria fantasia, ao dar à colega mineira um nome peculiar, já lhe mascarando a identidade. Refletiu na relativa distância entre as duas cidades. Sentiu que a carta, reticente, não ameaçava o ritmo de seu cotidiano. Pelo contrário, jogava uma certa luz, estranha e intrometida, naquele final de inverno. Decidiu entrar no jogo. Nenhum problema participar da trama de dois corações solitários. Assumiu o risco do ridículo, levantou-se da cama, à procura de papel e caneta.

 

Ana G,

 

Levei sua carta para o trabalho, sem saber que mais tarde, numa noite de sono difícil,  já iria respondê-la. Por alguns momentos, era um papel diferente, sobre a minha mesa, entre provas e originais, que pretendem traduzir para jovens leitores um pouco do mundo da ciência. Era uma outra escrita, dirigida a mim pessoalmente, e bastava lê-la, sem procurar defeitos ou armadilhas no texto que prejudicassem a publicação. Diante daquelas páginas, eu não era o intermediário. A informação, todas as referências me diziam respeito. O único leitor buscado, eu mesmo. Páginas que deveriam sair dali e vir para casa comigo.

 

Pois li você e, mais rápido do que você ou eu mesmo pudéssemos pensar, começo uma resposta. Entre a leitura e a resposta, lembranças recuperadas.

 

Você foi uma surpresa naquela Bienal. Sua boca de açúcar, sua pele dourada. E aprendi que não é só o sol das praias que doura o corpo das mulheres. Depois, o filme, e o nosso papo depois do filme. Imaginei que talvez outro sol, outra estrela, tenha bronzeado seu corpo. Quem sabe, você não veio de um mundo intraterreno, onde a realidade é convexa como certos espelhos impertinentes? Afinal, você dizia vir de Minas e os minérios dormem sob a terra...

 

Por aqui, não chove mais, mas ainda está frio. O que me faz sentir a falta do calor da sua pele. Você pode me escrever, sempre que quiser, Ana G. Vou ler todas as suas cartas e me esforçarei para respondê-las.

 

Creio que vou dormir mais tranquilo, me lembrando dos mistérios do seu corpo, que passaram à ponta desses dedos, que um dia o tocaram, um gosto muito ligeiro de você, Ana G.

 

Imagino que me lê tarde da noite, em horário parecido com esse em que escrevo, e lhe desejo, então, uma boa noite!

 

Amaro

 

P.S. Se meu nome lembra algum amargor, não me vejo de modo nenhum amargo.

 

Lino de Albergaria nasceu em Belo Horizonte, em 24 de abril de 1950. Estudou Letras e Comunicação Social.
Fez mestrado em editoração na Universidade de Paris e estágios em revistas e em uma biblioteca para crianças.
Ao voltar para o Brasil, trabalhou como editor na FTD e Abril Jovem (São Paulo), Rio Gráfica (Rio de Janeiro), Editoras Lê e Dimensão (Belo Horizonte).
É doutor em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC-Minas, tendo defendido a tese “Um altar na neblina: Ouro Preto e o imaginário moderno”.
Publicou cerca de 80 livros para crianças e jovens e um livro teórico intitulado “Do folhetim à literatura infantil: leitor, memória e identidade”. É coautor de duas coleções de livros didáticos de português.
Traduziu vários textos para crianças, originalmente publicados em francês. Um de seus livros foi publicado no México, pela Larousse mexicana: “Contando con el corazón” Outro foi publicado nos Estados Unidos, pela editora Noga Sklar: “Who´s afraid of the Blue Fairy?”.
Recebeu os prêmios literários Henriqueta Lisboa; Estado do Paraná; Altamente Recomendável pela Fundação Nacional de Literatura Infantil e Juvenil; indicações para o Prêmio Jabuti; e tem vários títulos selecionados por programas de leitura de diversos estados.
Como romancista, é autor, todos pela Editora Scriptum, dos títulos “Em nome do filho”, “A estação das chuvas”, “Um bailarino holandês” e “Os 31 dias”.

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Paginação:

Nuno Baptista


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