ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Luiz Otávio Oliani


Tempo de fuligem em Astrid Cabral

 

"O tempo é dentro de nós"
 Astrid Cabral


          O verso "pronta para  o que der e vier", do poema “Tempo de ser sábia” (p.90), revela que Astrid Cabral não se intimida diante da efemeridade dos dias e das emoções amargas, deixando-as fluir no papel.

 

           "Íntima fuligem" é, portanto, o novo livro de poemas da autora, com orelhas de Neiza Teixeira, prefácio de Alexei Bueno e posfácio de Tenório Telles, em carta à autora, numa publicação da Valer Editora,
2018.

 

          Trata-se, portanto, de um livro forte, “um livro assustador”, como disse Tenório Telles no posfácio. Ou seja, uma obra de maturidade poética, seja pela consciência da palavra, seja pelo tema central que transcorre o livro.

 

          Nas orelhas, Neiza Teixeira cita que: “É na ausência, que é de tudo, porque tudo traz o seu vazio e a sua plenitude, que Astrid Cabral desenha os seus versos ou modela a Palavra.” Eis o verbo que a autora conjuga ao tratar da “tragicidade da condição humana.”

 

          No prefácio, Alexei Bueno esclarece que, na obra, “(...) a velhice guarda um papel central, o que não tem qualquer ligação obrigatória com a idade da autora, antes nasce daquela percepção de desaparição de quanto nos cerca que se impõe a qualquer indivíduo consciente, às vezes de maneira muito precoce, mas de forma incontornável lá pelos arredores da quarentena” (p.13).

 

          No posfácio, enfatiza ainda Tenório Telles que, ao tratar de “Memória, vida e esquecimento”, Astrid Cabral teve uma escolha perfeita ao título da obra, já que “Fuligem diz o que precisa ser dito sobre o carpir do tempo – esse moinho que macera, quebra e esfarela tudo, transformando as coisas, sentimentos, ilusões em poeira e pequenas partículas que evocam a diluição de tudo...as ruínas, as fraturas.”

 

           O escopo da obra é tratar o passar dos anos, como mote, atravessando a solidão e a morte, com um olhar de conhecimento das coisas, através do qual há uma reflexão profunda sobre o passado, a falta dos entes queridos e as dificuldades inerentes à velhice. 

 

           Há em Astrid Cabral um amargor extremamente poético. Não se trata de uma ambiguidade. Muito pelo contrário. Ao tratar da morte, não pense o leitor que encontrará poemas  que a valorizam, tal qual fizeram os poetas do Romantismo, no século XIX. Ciente da finitude, com o fardo dos dias, numa abordagem pós-moderna, Astrid Cabral produziu textos lúcidos, de alto impacto e capazes de gerar grandes turbilhões no leitor. Uma prova é o que diz: "Enquanto os vivos se agitam / a cumprir burocracias / o restante do ser, liberto / da constante insana lida, / não tem a  mínima pressa / de baixar de vez à terra". (p.91)

          Dividido em seis instantes, é importante notar as palavras “solidão”, “’mistério”, “morte”, “sombras”, “coração ”“arremedos” que fazem parte dos blocos que dividem os mais de cem textos. Ainda que haja uma unidade em cada um, todo o livro gravita em torno da fuligem que marca os indivíduos.

 

          Do primeiro poema, salta o verso "meu coração jaz em réquiem", antecipando que Astrid Cabral transformou a dor pessoal em elemento do universo, no poema "Coração em réquiem" (p.23).

          A profunda "Solidão"(p.25) toca o leitor, por meio de uma belíssima prosopopeia a traduzir o estado de espírito da poeta, na segunda estrofe: "Só o lenho das portas / e as tábuas do soalho / gemeram baixinho / solidárias / suspirando por mim."

 

          Os diversos vieses da solidão se encontram no livro. Em "Das solidões" (p.27): " a solidão do corpo / na dolorosa urgência / de ser em carne e osso / requer o socorro do outro", num lamento pesaroso. Em "Adeus verde", o paradoxo do passado ligado ao hoje revela até um pouco da consciência ambiental. Se "Não tenho mais quintal/ Foi-se o da infância" e, sem a natureza em si que a rodeava  no passado, como ficar? Diz o eu lírico, ao final: "Hoje se tenho sobre a mesa / uma bandeja com frutas / já me foi por contente./ Minha fome é pouca. // Os nichos, sumiram todos / e a sombra, sempre presente, / transborda e me sufoca."

 

Em "Contraditórios”, (p.31), ao tratar dos grandes paradoxos existenciais,  se "A muitos a solidão fere./ A muitos conviver maltrata", a poeta sabe como ninguém usar a vida como matéria básica para a construção de seus versos. Magistralmente, com a chave de ouro do poema, sentenciou: "A dor costura qualquer criatura."

 

          Em "Como ser outra?" no verso "O antigo amor, mito perdido"(p. 33)  e em "Aonde?", (p.35) , há um lamento pesaroso, um choro baixinho, quando a porta reflete sobre dois mundos visíveis: o ontem, marcado por "rapazes / (...) tantos e tão afáveis", ora tímidos ou arrojados, mas que se perderam na fuligem do tempo. Indaga sobre a própria imagem. "Aonde foi parar a antiga moça?/ Inútil rastrear-lhe ruas afora / a figura pra sempre evaporada. / Melhor de velhos álbuns exumá-la / ressuscitando-a do perdido chão."

 

 "Tatuada de sombras / vestida de luto / persigo fantasmas / no vazio absoluto.” Eis, na página 37, uma voz que dialoga com mundos díspares. Assim, a dificuldade de lidar com o passado, a angústia do tempo a deixar as marcas da velhice, tudo está no poema "A difícil revisita", (p.42), no qual o eu lírico professa: "Minhas casas de menina / e o casarão da juventude / ficam no século findo." Daí, a indagação, ao final: "Será no espaço sonhado / por mim, lá do outro lado / onde se reúnem os ontens?”

 

          Em "Sonhando para  trás", (p.57) há uma grande reflexão existencial. E se os pais da poeta nunca tivessem se encontrado? E se o amor nunca tivesse florescido? Com certeza, não haveria a leitura desta poesia que se revela fuligem, íntima de nós, um dia também a sermos pó.

 

          Uma breve nota dispensável sobre a poesia de Astrid, já que se trata de uma mestra com grande cabedal de conhecimento literário. Tanto que, cabe tão só para fins de registro, por meio de alguns poemas, as notas a saber sobre a estrutura do texto autoral. No poema “O Encontro (p. 51), os jogos sonoros que favorecem a musicalidade comparecem por meio de rimas toantes, com a presença da vogal "i" (baliza, nítida, neblina, passarinho, amigos),isto sem fazer ao ritmo e à melodia que fluem dos versos de Astrid Cabral.

 

          Outra característica é o domínio da forma. A autora se vale do soneto quando desejado, como é o caso de “Do térreo ao terréo”’ (p. 67), no qual, além da forma fixa, aparece um rígido esquema métrico e de rimas, como se nota em alguns exemplos, quais sejam: “matéria” x “miséria”; “tesão” x “dimensão”; “’luz” x “seduz”, isto para ficar com este par de rimas pobres e as rimas ricas aqui marcadas.

 

          Ainda há de se falar sobre um poema narrativo ou num poema em prosa, a preferirem os críticos acerca de tal definição. Mas a verdade é que em "Exótica estrepulia" (páginas 68 e 69), Astrid Cabral alcançou o humor para contar uma história aos leitores.  Não a ponto de promover gargalhadas, mas sim um humor reflexivo, meditativo e próprio de quem sabe fazer o leitor pensar. Isto porque "Sem saber de nada / cultivava um grande framboesa / no canteiro do ouvidor" e, após a narração do ocorrido, eis que veio à tona o humor: "Quem imaginaria / a exótica estrepulia / de semente passando / de flor à fruta tumor?"

 

Figuras de linguagem passeiam por toda a obra, como se nota na metáfora: “A velhice é pedra / no meu caminho” (p.121); “Meu silêncio é um cenote / onde arremesso lanças” (p.123); na prosopopeia:  “Só o lenho das portas / e as tábuas  do soalho / gemeram baixinho / solidárias  / supirando por mim” (p. 23);  na antítese: “Não tenho mais o quintal. / Foi-se o da infância // (...) Hoje se tenho sobre  a mesa / um bandeja com frutas / já me dou por contente.” (p.28). nas aliterações: “Sob a cinza / a brasa cochiça. // Guarda e aguarda / o fogo da vida. //  Venham ventos vendavais ventanias.” (p. 163), entre muitas outras.

 

          E, se o flluir da existência é um tema recorrente na obra, em "Alforria" (p.56), se a sombra, inerente a qualquer pessoa, persegue o eu lírico, nada lhe resta: "vai, deita-te ; dorme ou morre / e serás livre de vez."

 

          Em "Autodefesa", (p.66), diante da morte, surge o carpe diem: “Embora não se saiba / a hora de ir embora, / embora não se saiba / o que nos aguarda lá fora, / vivemos como se o agora / eterno fora e o efêmero / fosse dado secundário / a ser descartado sem dó. // Assim enxotamos o medo, / e, ilusão anestésica, / gozamos falso sossego.”

 

          "Arredores da morte" traz um tom lúgubre a se avizinhar dos leitores. Se "A vida é por um triz" (p.73), há riscos em "Véspera de violetas" sobretudo "Quando o rio vier". Neste poema seguinte, p.74, a reflexão atinge um alto grau de lirismo. "O dia  em que o rio vier / se deitar vem meu quintal / (...) / não arrancarei cabelos / nem torcerei as mãos". O eu lírico decide não lutar e brada: "Quedarei firme pensando / tardou bastante chegar / a partida inevitável."

           "Perto dos cem" (p.79) é um dos poemas mais belos do livro, ainda que trate de uma tristeza imensa, ao retratar os quase cem anos da mãe da autora mas em vida difícil, tanto que "Não tenho lenço que seque / as lágrimas da minha mãe." A este poema, segue-se o " Derradeiras proezas" , outro texto no qual a verbalização é no sentido de dar voz à dor de ver a mãe, quase centenária, criar um mundo paralelo ao da realidade.

 

          Mas, ainda que a presença da morte seja uma constante, há um lirismo pungente como a refletir a consciência do fim. Se, no poema "Esqueletos", o eu lírico reflete sobre as casas  onde  morou habitando-as com móveis diversos, feitos  de árvores já mortas, teoriza que desde menina, a poeta convive  "com fantasmas  escondidos" e que, na última estrofe, verbaliza, ainda que com tom ácido: "A redenção é pensar:/ confinada num caixão / terei sorte solidária. / serei também esqueleto." (p.87).

 

          "Velhice, morte a longo prazo." Eis o último verso de "Tríptico da velhice", poema que gera uma reflexão acerca dos títulos do volume. Uma parte tem referência expressa ou não à “Indesejada das gentes”, termo cunhado por Manuel Bandeira, no poema dele, “Consoada”. Assim, vários poemas, ao beberem de tal temática, valorizam-no logo no título, conforme se lê em: "Coração em réquiem" (p.23); “Atestado de óbito" (p.91); "Administrando a velhice"(p.93).

 

          Em "Pequena série de grinaldas", (páginas 102 a 113), Astrid reverencia alguns poetas muito próximos, amigos de longa data e da tia Lucy. As mortes de Lélia Coelho Frota, Nilton Maciel e Ivan Junqueira, Wanda (filha de Lara de Lemos) são sentidas profundamente, bem como outras expressas pelo volume. No entanto, salta aos olhos a referência a Ivan Junqueira, poeta em cuja obra a morte era  uma constante. No poema em despedida a ele, disse Astrid:" Quando a morte veio buscá-lo / não houve susto ou surpresa. / Com ela sempre vivera / em perfeito diálogo."

 

          E não há à toa que Lêdo Ivo, grande expoente da geração de 45, (amigo da autora, também já falecido) comparece ao livro, abrindo "Longe das sombras", (p.114), com a epígrafe que segue: "Quem tapa meus olhos / nada esconde de mim. / Sei seu nome  e seu rosto, / o lugar em que estou / sua noite sem fim."

 

          Sendo assim, o eu lírico ainda deseja viver e sair de cena com a consciência limpa do ofício concluído. É o que revela em "Pequenas esperanças", (p.96), quando deseja " Amanhã, queira Deus /não seja o ultimo dia", a fim de se despedir da vida e se amigos.” Tudo, porque "Do túmulo, o futuro/ abraço já sentes" (p.100), no poema "Descompasso".



          No poema "Poder / Responder",(p.119), Astrid Cabral finca seu quinhão de ouro na literatura brasileira: “Muitas coisas me entristecem: / doenças e desavenças. // Desamor e seus descados / degraças dores desastres. // Mudá-las? Nas mãos de Deus / não nas minhas tão pequenas. // As minhas apenas podem /  escrever alguns poemas."

 

Luiz Otávio Oliani é professor e escritor. Em 2017, a convite da escritora e ativista cultural Mariza Sorriso, integrou a equipe de poetas que representou o Brasil no IV ENCONTRO DE POETAS DA LÍNGUA PORTUGUESA, em Lisboa, Portugal. Publicou 13 livros, sendo 10 de poemas e 3 peças de teatro. O título mais recente é: “Palimpsestos, Outras Vozes e Águas”, Penalux, 2018.

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