ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Luiz Roberto Guedes


Dois contos

Dias contados

 

     Foi no tempo do último general-presidente. Eu fazia um free lance como jornalista no semanário de uma cidade vizinha. Era o único redator e povoava o expediente com pseudônimos. Desembarcava do trem na quarta-feira ao meio-dia e seguia para o “Jornal do Prefeito”, como o nosso órgão de propaganda e autopromoção já era rotulado pela oposição local. Nós, os escribas de Faraó, chamávamos essa ocupação de “regiornalismo”.

 

     Uma tarde, cruzando a praça dos Expedicionários, encontrei com Francisco Donato, nosso colaborador desde a fundação do tabloide, dezoito edições atrás. Dublê de comentarista político e cronista nostálgico. Um septuagenário com chapéu preto de feltro e bigode amarelado de nicotina. Diziam que tinha sido abandonado pela mulher. Apesar da fama de misantropo, Donato me cumprimentou com amabilidade, e parei um instante, por gentileza.

 

     Ele elogiou a seção literária que eu tinha criado no jornal, e sua figura ganhou definitivo realce quando mencionou que possuía uma primeira edição de Paulicea Desvairada, herdada de um tio músico, que fora amigo pessoal de Mário de Andrade. Fiquei tão impressionado que aceitei no ato seu convite para ver o livro em sua casa, que ficava nas proximidades.

     Havia um cachorro velho dormindo ao sol no quintal da casa modesta. Entramos pela cozinha, ele pendurou o chapéu no porta-chaves pregado à parede e sugeriu um café fresco. Pôs a chaleira no fogão, riscou o fósforo, acendeu o gás e atirou o palito para trás, por sobre o ombro.

 

     Acompanhei a curva que o fósforo aceso traçou no ar até cair sobre uma verdadeira pirâmide de palitos queimados, empilhados em cima da pia, onde se apagou. Calculei que a soma total dos palitos devia corresponder ao número de dias e noites desde que a mulher dele tinha ido embora.

 

     Enquanto a água fervia, ele foi buscar o livro lá dentro. Cobriu a mesa engordurada com páginas abertas do nosso tabloide, antes de depositar o volume em minhas mãos. Folheei aquelas páginas amareladas com a respiração suspensa.

 

     Tive a coragem de perguntar se me permitiria copiar o livro em xerox, e fiquei espantado quando ele disse tranquilamente “tudo bem, sem problema”. Prometi fazê-lo naquela mesma tarde, e deixar o livro aos cuidados de P. J. Campos, o editor do jornal.



     Donato acabava de coar o café quando ouvimos ranger o portão de ferro da entrada, alguém chegando, o cachorro latindo festivo, e uma voz de mulher mimou o bicho: “Tá contente de me ver, Pingo?”.

 

     Ela surgiu na porta da cozinha, uma morena corpulenta, de quarenta e poucos anos, carregando uma grande sacola.

 

     — Boa tarde, Seu Francisco. Vim trazer sua roupa lavada.

 

     — Oi, Imara. Vamos entrando, tome um café antes de pegar no batente. Acabei de passar. Este moço aqui é meu colega do jornal.

 

      — Acho melhor eu ir passando logo a roupa, parece que vem chuva aí – ela falou.

 

      Eu também não podia me atrasar mais, pois redigia ou copidescava a maior parte das dezesseis páginas do semanário. Envolvi o livro numa folha do tabloide, guardei na bolsa a tiracolo e me despedi.

 

     Saindo pelo corredor lateral da casa, lancei um olhar pelo vitrô entreaberto da cozinha. Vi Donato abraçando a mulher por trás, mergulhando o nariz em seus cabelos. Havia muita ternura naquele gesto. Percebi que ele não estava tão abandonado assim. E que podia existir romance na velhice.

 

     No centrinho da cidade, confiei o livro ao japonês da Papelaria Yamato, que tinha uma fotocopiadora. Pedi o máximo cuidado na tarefa, que paguei adiantado. E fui martelar no teclado da Olivetti até sexta-feira de tarde, quando a edição diagramada seguia para impressão, em São José dos Campos.

 

     Naquela manhã, o editor ficou esperando que o cronista viesse entregar seu texto semanal, mas ele não apareceu, nem atendeu ao telefone. Preenchi o Recanto das Letras com os suspiros poéticos e saudades de uma professora local, e fechei a edição. Parti fatigado rumo aos braços de minha namorada.

     Quando voltei, na quarta-feira seguinte, soube que Francisco Donato tinha morrido. Fora encontrado em sua cama, na manhã de segunda-feira. Devia ter sofrido um infarto. P. J. detalhou a ocorrência. Os vizinhos tinham estranhado o cachorro uivando lamentoso no quintal, desde a quinta-feira passada. Acharam a porta da cozinha destrancada. Francisco estava nu, debaixo de um lençol. Morto há cinco dias, no mínimo. A casa estava arrumada e limpa.

 

     Ouvi o relato e disse alguma banalidade do tipo “ele parecia um bom sujeito, era muito educado, escrevia bem”. Preferi guardar minhas suposições sobre sua última noite no planeta, e proteger o anonimato de Imara.

 

     O próprio P. J. Campos escreveu o obituário do velho colaborador, texto que retoquei e adornei com um verso oracular de Mário de Andrade: “só o esquecimento é que condensa”. Mas nunca vou esquecer da pequena montanha de palitos queimados sobre a pia da cozinha. Nem da expressão no rosto do velho, abraçado à última companheira.

 

     Não enquanto eu tiver esta primeira edição de Paulicea Desvairada.

 

 

 

 

 

 

O romance segundo a mulher do escritor

 

    MEU AMIGO ESCRITOR GOSTA DE SE CASAR QUANDO SE apaixona. Sua nova mulher é a quarta companheira em nove anos.
     A mulher do escritor tem olhos grandes, boca sensual, sorriso de estrela de cinema. Ela me lembra alguém que não é ela — alguém que devo ter visto numa tela, larger than life. A mulher do meu amigo tem seios pequenos, coxas robustas e ancas ondulantes. A mulher do escritor tem uma barriguinha venusiana e uma bunda pneumática, delineadas sob o vestido fino. A mulher do meu amigo tem delicadezas para comigo. A cada encontro, a mulher do escritor abre uma página em branco, dá mais um passo à beira de uma história. Cada gesto seu transparece plena ciência do efeito de sua beleza sobre mim. Na noite de outono, no jardim sob a lua, em meio ao ruído da festa, a mulher do meu amigo deixa deslizar a mantilha, a lua reluz em seus ombros nus. Os olhos grandes são lagoas hipnóticas. Agora avançamos para o começo de nossa história.

     Só posso desejar ao meu amigo escritor toda a felicidade em seu próximo romance.

 

Poeta e escritor, Luiz Roberto Guedes escreve para gente grande e gente pequena. Para os jovens, publicou uma série de livros, principalmente do gênero fantástico: Treze Noites de Terror (2002), Armadilha para lobisomem (2005), O livro das mákinas malukas (2007), Meu mestre de história sobrenatural (2008), e A Saga do Gato Negro (2016). Publicou recentemente o poemário bilíngue (português/italiano) Erosfera (2017) e o livro Como ser ninguém na cidade grande (Penalux, 2018). Nasceu e vive em São Paulo.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Paginação:

Nuno Baptista


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