ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Ramon Carlos


Poemas II

Nec spe nec metu

 

Hálito imaculado num bocejo de ferrolho
Já é tarde pra mastigar o pigarro
Veneno som que imita e tranca
A trinca que acasala sozinha
Sobre o isopor das maçãs verdes
Puniram-no
Pelo velho hábito de fazer serenatas  
Após goles de água gelada
Gracejo
Já é tarde para reinventar as pernas flácidas
Da mulher colhendo amoras
 Amoras que fazem tilintar 
O miserável sapo de dente quebrado
Pobre Ugo, o sapo que ejacula farinha
E emoldurou uma lápide grande demais para seu nome
A galega com perfume de trigo
Cambaleou ao entrar no banheiro
Sussurrando o famoso lema: 
“Sem esperança, sem medo”
Ugo antes de saltar pro brejo esbravejou:
“Sem herança, só medo”
 Com a coberta em relva cinzenta
O poema não é mais poema
O poema já é tarde
Amanhã a trinca me acordará
Como alguém gritando:
“Sem esperança, só medo”
Meu hálito será de brejo
Meu ferrolho um bocejo
E meu gracejo uma mancha de amora
Lapidada nas pernas flácidas da mulher
Que nem sabe meu nome

 

 

 

 

 

 

A revolução dos buchos

 

Ela gritava do segundo andar
Para mais um homem que a deixava
Pelo portão da frente
“Eu não preciso de respeito! Muito menos de amor!
Eu preciso de silêncio!
Um terreno para meus ossos cavarem até o útero da terra
Encontrar o esconderijo dos fracos e inocentes
E por tão inocentes amam e odeiam
Não perdoam
Não nascem
Explodem
Saem pelos vulcões e viram cinzas
Viram noticiário e atraem turistas
Poeira refletida
Excessos! Excessos! Excessos!
Somos todos desajustados
Trocamos de mulheres, de homens
Procuramos amigos melhores
Não nos ajustamos com o velho, com o novo, nem com o próximo
A sede mata, a água também
Somos vírus mutantes
Matando, morrendo, mudando e matando
De novo e de novo
Ajustes e desajustes”
O homem não olhou para trás
Ela viu metade da minha cabeça
E você, o que está olhando?
Vim ver o show
Ah! Você é aquele louco que vomita sozinho toda noite!
Quem disse que estou sozinho?
Todo mundo aqui sabe que você é desagradável!
Mais uma vez ela estava certa,
Errada estava a Bíblia
O homem dobrou a esquina
Como todos os outros que saíam
Do segundo andar, pelo portão
E quem ficava com a agonia sonora
Que descia pelos fios de luz por trás da parede
Até o interruptor do quarto
Era o desagradável que vomitava sozinho toda noite
E sempre que algumas coisas se repetiam
Eu pensava brevemente:
“Algumas pessoas sabem o que querem,
Outras apenas querem
Sem saber”

 

 

 

 

 

 

Nas vibrações das mazelas

 

Nas vibrações das mazelas
Ruídos místicos das docas
Congestionaram a viela
E os ecos foram de carona
Para rua sem saída
O soturno gritou por silêncio
Enquanto fazia a barba deitado
Pediu-me opinião sobre seu cavanhaque
“É um formidável retentor de buceta”
Peguei na mão dela e atravessamos a rua
Caminhamos até um vendedor de garapa
“Dois com limão”
Aguardamos toda a engenharia
Seu vestido bronze com relevos pitorescos esvoaçava
Como as asas de um filhote recém chocado
Seu olhar que podia parecer periclitante
Mirava com louvor as sombras das árvores
Vitrines embaçadas pelo vapor íntimo
Paguei R$ 10,00, um copo maior que o outro
Ela sugeriu sentar para beber, concordei
Do outro lado via-se um museu fechado
Uma balança de farmácia, um vendedor de toalhas
O outro lado é uma miragem em construção
Falei em comboios atenuantes
Expliquei o retentor do soturno
Disse-me dos ladrilhos suportando pesos
E afundando em partes
Também dos rins equalizando os termos
As luzes aos poucos contestavam o pôr do sol
Ao passo em que as cigarras afinavam os acordes
Para um blues de rejeição
Petulante, afirmou que daria fim aos meus cravos do nariz
“Meu nariz não tem cravos, o que vê são medalhas”
Nos beijamos como uma batida de porta
Afirmativa, barulhenta e significativa
Jogamos os copos no lixeiro azul
Nos ladrilhos homens sem querer voltar pra casa
Em casa mulheres sem querer que os homens voltem
Arsênio injetado por um farmacêutico grego
Pelo meio da avenida até o mercado
Adiante
Um lugar nos espera
Com um gato que parece Carlitos
Derrubando prendedores de varal
Para ficar acomodado
Com uma melancia pela metade
Com os sons de uma cidade que previu o dia
Todo esplendor de uma lâmpada queimada
Sob estrelas vermelhas
O soturno barbear da catarse
Retentores em tanques de guerra
As mazelas, os deleites, os ecos e ruídos
Ainda dormiremos juntos
E acordaremos nus, com a janela semiaberta
Ouvindo o sempre pontual vendedor de ovos caipiras

 

 

 

 

 

 

O enredo da porta ao lado

 

A tampa da panela que cai
Dando voltas sobre a mancha
No azulejo frio e úmido do dia vinte
O forno do fogão inutilizado 
Pela válvula protetora de gás para crianças
Mas nunca houve criança, nem costela assada
O prato quebra
Como inimigo público número um
John, João, o rato suplica um martelo na ratoeira
O vestido foi tingido pela empregada
Que misturou uma camiseta laranja nas roupas brancas
John, João, o rato ainda se debate com os dentes cravados no queijo
E eu ainda estou acordado
Porque minha toalha de banho 100% algodão
Esteve molhada desde ontem
Por que separar o garfo da faca?
Era sopa
O guardanapo terminou
Por limpar marcas de sangue nas frutas
Tem uma batata podre embaixo da pia
Eu ouvi, mas não falei
Os banhos são maravilhosos
Até gosto daquela música
Mas nunca cantaram até o final
Ou será que fui interrompido pelo carteiro sem botas?
John, João, Joana, Jô, Jó
Eu recolhi a batata
Terminei com o sofrimento do rato
E imaginei vocês
Em um transatlântico
Durante a manhã
Falando sobre o vizinho

Que nunca estava

 

Ramon Carlos (Santa Catarina, 1986). Escreve no site: www.estrAbismo.net. Sua carreira literária resume-se a dois contos publicados em uma antologia, além de materiais diversos em revistas como: “Inutensílio”, “LiteraLivre”, “Subversa”, “Philos”, “Escambau”, “Bacanal”, “Ruído Manifesto” e “Literatura & Fechadura”.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Paginação:

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