ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Dois pesos

Revoltou a população recentemente a morte de um cãozinho maltratado por um segurança de uma grande rede de supermercados. O bicho foi espancado, torturado, quebraram-lhe as patinhas, não resistiu. É lamentável um sujeito chegar a esse ponto, ofender de forma tão definitiva um bicho indefeso, coisa mesmo de quem não tem escrúpulos, condição de proteger coisa alguma, caráter dos mais condenáveis. Também fiquei mal impressionado com a crueldade, perversidades têm sempre o dom de me assustar, não há como conviver com atitudes violentas sem refletir sobre quanto nós, os humanos, muitas vezes nos transformamos em coisas monstruosas, verdadeiras máquinas de destruição. Para quem teoricamente é racional, tem a possibilidade de refletir sobre os próprios atos, não conter os impulsos indesejáveis é algo incompreensível. A loucura talvez seja uma coisa que aparece em surtos, inesperadamente, existiria nas pessoas uma chave de controle que às vezes desarma, nos transmuta em feras, sem maiores razões.  

 

As redes sociais logo se agitaram, fotos do animalzinho se espalharam (serão dele mesmo?), manifestos foram assinados pedindo várias coisas: demissão do funcionário agressivo, boicote da loja onde o ato condenável foi realizado, todo mundo se mobilizou para, de alguma forma, mostrar a sua indignação. Marcaram até manifestação de repúdio ao “assassinato” para o próximo sábado, em frente ao estabelecimento em Osasco.

 

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, durante um assalto, um rapaz tomou de refém uma senhora de oitenta anos. Cercado por policiais, no desespero de tentar fugir e sair ileso, arrastou a anciã puxando-a pelo pescoço, apontando-lhe uma arma por algumas ruas, sempre seguidos pela milícia. Em determinado momento a velha escorregou e caiu, deixando o bandido exposto. Foi o bastante para ser abatido com um tiro na cabeça. Os policiais foram elogiados pelo cumprimento do dever, o futuro presidente da república, sempre favorável às soluções de extermínio, enviou mensagem saudando os heróis, um corpo ficou lá estendido no chão. Não haverá mensagem de repúdio, manifestação, nada. As redes sociais não se comovem com essas coisas.

 

Acho que sou diferente. Para mim nenhum atentado à vida é aceitável. No caso, tenho certeza, uma boa conversa, se houvesse naquele momento um policial treinado em negociação, teria evitado a morte do bandido miserável, provavelmente um joão ninguém. Mas é mais fácil matar do que falar, tentar resolver as coisas pacificamente. A nossa sociedade de palavras digitadas em equipamentos eletrônicos esqueceu-se da força dos diálogos. Encolher o dedinho esticado, símbolo da campanha presidencial, puxando o gatilho, cobriu de honra o assassino profissional. Será que no momento da queda da senhorinha não poderiam ter gritado alguma coisa, proposto alguma solução que poupasse uma vida? Mas se um tiro é tão mais rápido...

 

Não posso deixar de pensar em quanto somos estranhos. No próximo sábado estaremos lá erguendo os braços e gritando palavras de ordem. Algumas pessoas decidirão definitivamente não comer mais carne. Vegetarianas, veganas, assumirão a militância pelo não consumo de proteína animal. Gritarão que os bichos são indefesos ante a nossa fúria impiedosa, precisamos preservá-los. Enquanto isso, em alguma favela carioca, uma criança faminta estará chorando a falta do pai enterrado como indigente. Mas quem liga para indigentes?

 

 

Ricardo Ramos Filho, é escritor com livros editados no Brasil e no exterior, publicados em Portugal e nos Estados Unidos. Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, doutorando no mesmo programa. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, onde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. Ministra diversos cursos e oficinas literárias na Escola do Escritor (literatura infantil, roteiro de cinema, poesia, conto e crônica). É roteirista de cinema com roteiros premiados, tendo ministrado curso de extensão na ESPM. Atua como coach literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. Cronista da revista literária eletrônica Escritablog, onde publica mensalmente. Participou como jurado de concursos literários: Proac, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Mato Grosso de Literatura, Paulo Setúbal de Tatuí. Curador do 1º Prêmio Nelly Novaes Coelho UBE de Literatura Infantil.  Sócio proprietário da empresa Ricardo Filho Eventos Literários, onde atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Paginação:

Nuno Baptista


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