ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Salomão Sousa


Cinamomo

Penso que todo dia é de sol, de nuvem, de folha resistindo para não se esturricar na vibração da luz. Para mim, a poesia reverbera, continuamente. Nem me preocupo se alguém está se ocupando ou desejando ou se embevecendo com a minha poesia. Ou com a poesia de qualquer outro poeta. O importante é que os poemas existam como o caruncho numa madeira. Por mais que não seja visto, o caruncho cumpre sua tarefa. O importante é que a poesia, silenciosamente, provoque algum desconforto, algum ruído. Como no conto de Max Beerbohm, o importante é que para mim seja uma recompensa o próprio ato de escrever poesia. O próprio prazer de me encontrar dentro dos meus versos com as desavenças em relação à estrutura. Outro tem todo direito de encontrar prazer dentro de seu carro, ouvindo a mesma batida interminável. Talvez sinta algum prazer em não ter de se ocupar com as possibilidades dos símbolos, que apresentam outros significados, além da própria batida. Outro tem toda liberdade de gabar interminavelmente da própria libidinosidade. A poesia para mim é um gesto de excitação. Não preciso ficar mostrando o volume desta excitação a todo o momento como faz o que está em seu carro e o que fica se masturbando no voyeurismo. Toda excitação, excessivamente exposta, cria afastamento, inibe o prazer. Encontrar um verso como Hão de chorar por ela os cinamomos, para mim, é como se surgisse uma espécie nova de inseto, de nuance de voz nunca ouvida, de outro gérmen, e circulasse no meu sangue. É como uma mulher que chega ao ambiente com todo seu gesto vigoroso, deslocando a luminosidade das vitrines e ampliando a velocidade do ar nas respirações. Eu devia ter apenas uns quinze anos quando estes versos de Alphonsus de Guimaraens me atacaram por trás, sem que eu estivesse preparado para a sua riqueza, para a sua penetração vigorosa. Eu não sabia sequer o significado da palavra cinamomos. E não contava com dicionário ou Google para me elucidar. Mas os cinamomos estavam ali para criar outro universo no meu ambiente, para me explodir como um pacote de dinamite. A palavra cinamomo se instalou em mim como um caruncho cavando estranheza, sem nunca mais se ausentar.

 

 

 

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         O que transforma um enunciado num verso, com carga emotiva capaz de nos extasiar? Quando T. S. Eliot diz Então sigamos, tu e eu,/Enquanto o poente no céu se estende/Como um paciente anestesiado sobre a mesa não é a mesma questão de eu e tu seguirmos por uma rua e o dia esquivar-se para o fim. Não é o mesmo que a fala de alguém que acompanha um paciente anestesiado num apartamento de hospital. Quando Alberto da Cunha Melo diz em seu poema Diante da nascente alugam-se/espaços claros e andorinhas (…) não é o mesmo que ler um classificado sobre a venda de uma chácara. E mesmo que fechemos o negócio, não há certeza de estar assegurada a permanente existência de espaços claros e de andorinhas. Podemos comprar a chácara e o tempo fincar pé e se encobrir de nuvens, e também existirão as noites. Terão instalado centenas de lâmpadas de led e aprisionado também centenas de andorinhas?

 

 

 

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         A cada hora surge uma definição para a Poesia. Hoje eu imagino que a poesia acontece quando as palavras ganham carnalidade! Na poesia, o cinamomo não é mais uma árvore.

 

 

 

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         Ai! Amar a Poesia não dói, não agride a urbanidade e, ainda, amplia no indivíduo a multiplicidade da visão.

 

 

 

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         Quantas vezes parei — em dias de chuva, de pós-chuva, de nublagem escura, mundo molhado — em minha eterna infância, para assistir a festa de algum tiziu sobre alguma estaca. Ficava ali estacado com medo de que ele voasse. São estes pequenos saltos de pássaros que moldam os futuros poetas. O poeta nasce da contemplação dos tizius para captar a exatidão temporal do arco-íris. Só na poesia o arco-íris paralisa-se para sempre.

 

         Sou íntimo do brejo e da capoeira. Cavouquei as beiras do rio Calvo, rio que não era rio, riacho de muitas braças para um menino de calças curtas, descalço sobre a lama dos regos, dos trieiros, as pequenas trouxas de merenda sobre os ombros. Poderia ter caído nas águas, se tão pequeno sobre os troncos das pinguelas; poderia ter sido lambido pela língua das serpes, se tão próximo aos animais, tão sobre as serpentes, pois elas amanheciam debaixo dos catres. Cercado pelo gado debaixo do pau d’óleo, preso entre chifres enquanto durava a chuva da tarde.

 

         Andei por fundas valas de ouro — ouro este levado para os quintos. Valas onde o capim, as árvores, os peixes passaram a habitar. São poços de pura fábula, de puro silêncio, depois de passadas décadas da escavação. Andei por ruas e praças de barro e poeira, fosse na distante Silvânia, em Taguatinga, Ceilândia ou em plena Esplanada, onde talvez tenha passado maior parte de minha vida. São quase cinquenta anos dando frequência por mais de dez horas diárias no interior de obras de Niemeyer ou a espreitá-las pelas janelas do meu trabalho.

 

         A poesia sempre próxima, vindo da natureza, dos homens de aparência carregada de cansaço. A poesia vinda dos livros que a sorte jogou em minhas mãos. A poesia da integridade dos homens e da natureza. Nas banquetas da cozinha do meu avô, quando era criança ainda, em sessões de leitura de livretos de cordel para familiares e peões. Para fuga da solidão, pés descalços debaixo da mesa, na biblioteca pública de Silvânia, em contato com poetas românticos e modernistas. Manuel Bandeira, Drummond, Cassiano Ricardo. Também o parnasiano Raimundo Correia e o simbolista Alphonsus de Guimaraens.

 

         A descoberta de que a poesia está nas mãos. Em minhas mãos. A descoberta de que a poesia é um terreno livre, fértil para todas as expressões. Um jardim histórico suprimido para dar lugar a outro de feição moderna. A paixão juvenil, o lado lúbrico, lésbico, lesma. Resistência ao ordinário, ordenação do caos da solidão. A descoberta de que a poesia não é uma atividade arqueológica, mas a minha — a tua — participação no tempo presente. Trabalho para que a língua não seja só um repertório de arquivo. Tem de criar estupefação para que as expressões humanas não sejam triviais. A estupefação no tempo presente, na realidade em que estamos com nossa participação. A poesia é a gota de óleo quente que derramo nos nervos e nas veias. O sangue acelera, o compasso da vida se anima.

 

         É um terreno, a poesia, para o princípio e o fim último da amizade. Do encontro. Do encontro consigo e com o outro. Escrevo o que sou, sendo que o verso será o nervo de outro depois que está pronto. Eu sinto a poesia de José Godoy Garcia, de Lorca, de Tennyson, como algo preso nas minhas próprias entranhas. A fome dos versos de Miguel Hernández é a minha fome.

 

         Tenha presente a fome: recorda seu passado
         turvo de capatazes que pagavam com chumbo.
         Aquele salário cobrado com o preço do sangue,
         com jugos na alma, com golpes no lombo.

 

         Ajuda-me a ser homem: não me deixeis ser fera
         faminta, enfurecida, sitiada eternamente.
         Eu, animal familiar, com este sangue operário,
         dou-lhes a humanidade que minha canção pressente.

 

         Em Ulisses, de Tennyson, é nossa a angústia no ócio, a necessidade da aventura, de interferência na realidade:

 

         Sou parte de tudo que encontrei;
         ainda que toda experiência seja um círculo
         em que brilha o mundo inexplorado com margens,
         que sempre se desfazem sempre que avanço.
         Que triste é deter-se, chegar a um fim,
         enferrujar, enrugar, não brilhar com o uso!
         Assim como respirar, era a vida! Vida cheia de vida
         e de tudo fica um pouco, e de tudo para mim
         poucos vestígios: mas a cada hora é salvo
         desse silêncio eterno, um pouco mais,
         um portador de coisas novas, e vil seria
         se apenas três sóis me prouvessem e amealhassem
         e este espírito grisalho com ânsias
         de alcançar a sabedoria como um astro que se funde
         antes de irromper o último pensamento humano.
        
         A poesia representa as pequenas visões do nosso cotidiano. Potencializa a insignificância de nossos atos. Quase somos deuses a partir das palavras. Não deixar passar despercebido um poema de Wordsworth num filme de Elia Kazan, que parece ser feito para nos animar num instante de enlevo amoroso:

 

         Aquele brilho outrora tão resplandecente
         dos meus olhos se ausentou para sempre
         e agora, apesar de perdido o esplendor na relva
         e o tempo de glória em flor,
         em vez de chorarmos, buscaremos força
         no que para trás deixamos.  

 

         Ou Goethe, em Mignon, onde o locutor se subdivide, gerando dúvida se o poema evoca o amante ou o pai ou Deus.

 

         A poesia é o abraço da palavra — abraço que desloca os ossos e o sexo, que empurra o leitor para outra fronteira, outro território. Sem a poesia, eu morreria bem menos saciado de vida — não questionaria o beco. Sem a intervenção das reinvenções, eu morreria envolto numa casca que nunca se renova. Só com o apodrecimento da casca velha, a árvore amplia o diâmetro do tronco. Em mim, algo velho sempre apodrece e renasce, com a Poesia.

 

 

 

 

 

 

Mignon
Goethe

 

Você conhece o país onde os limoeiros florescem,
Entre folhas escuras laranjas reluzem,
Do céu azul um vento lento sopra,
O louro lá no alto cresce e a murta se aquieta?
Conhece isso bem?
                   Para lá! Para lá
Quero ir com você, meu amor.
 
Você conhece a casa cujas telhas sobre pilares repousam,
Cujas salas brilham, cujos aposentos cintilam,
Onde as figuras de mármore me olham:
Pobre criança, o que lhe fizeram?
Conhece isso bem?
                   Para lá! Para lá
Quero ir com você, meu protetor.
 
Você conhece a montanha anuviada?
A mula procura seu caminho sob a neblina;
No alto mora a velha cria do dragão;
As rochas colapsam e, sobre elas, a inundação.
Conhece isso bem?
                   Para lá! Para lá
É o nosso caminho! Ó Pai, deixe-nos ir!

 

Tradução: Larissa Cardoso Richert

 

 

Salomão Sousa é natural de Silvânia (19/9/1952) e reside em Brasília desde 1971. É formado em Jornalismo, que exerce como funcionário público do Ministério da Fazenda na área de assessoramento parlamentar. Começou aos 15 anos, ainda em Silvânia, a escrever poemas. Na década de 1970, participou parcialmente do movimento Poesia Marginal com Esbarros, entre outros pequenos folhetos. Nesta época, assim Jorge Amado autografou num dos livros que lhe enviou: “Um poeta de primeira ordem — original e humano, sensível e consciente. Poesia que não é cera, é chama.” Está inserido na “Antologia da Nova Poesia Brasileira” (1992), de Olga Savary, e na “A Poesia Goiana do Século XX”, de Assis Brasil. Organizou em 2008 a antologia “Deste Planalto Central — Poetas de Brasília”, como parte da I Bienal Internacional de Poesia da Biblioteca Nacional de Brasília. A UBE, Seção de Goiás, concedeu-lhe, em 2011, o Troféu Tiokô. Participou como representante da língua portuguesa, em 2014, do VI Festival las Lenguas de América/Carlos Montemayor, do Centro Cultural Universitário, da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Atualmente, é da diretoria da Associação Nacional de Escritores. Mantém os blogs www.safraquebrada.blogspot.com, www.poesiagoiana.blogspot.com e www.salomaosousa.blogspot.com.

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Paginação:

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