ANO 5 Edição 75 - Dezembro 2018 INÍCIO contactos

Taise Dourado


A festa da contenda

sete anos ainda estão à frente de minha testa – são poucos os longos dias corridos até aqui e eu gosto de pensar que, agora nesse instante, fragmentar meu corpo tem a ver com participar da vida que acontece concomitantemente em diferentes espaços – diferentes versos –, tem a ver com abrir buracos na superfície de minha existência e te deixar rolar pelo vazio de dentro até sumir – se dissipar, esvanecer. são doze meses de suores e lágrimas me recobrindo a pele do corpo e do rosto e eu estou tão úmida, helena...

 

gosto de pensar nos bloquinhos do próximo carnaval, marchinhas, bandeiras, cheiros e purpurinas. gosto de pensar na força que sustenta os barcos-náufragos junto das arredias águas de mar, lá onde a luz não se atreve a pôr os pés-de-pato e tudo é muito mais que denso, grudento, resistente – onde tudo se arrasta ignorando as horas. gosto de pensar que se você me olhar agora, através de tantas nuvens, não vai mais encontrar quem você deixou cheia de mofo naquela rodoviária imensa. é que novembro veio e o sol voltou, joana. o sol bateu na janela de meu quarto às seis e eu lembrei de quando você colocava o cobertor por cima de mim no meio da madrugada fria. a sensação foi essa: de uma quentura branda no inverno de meus olhos.

 

eu chorei dezoito anos, ana, você lembra? eu quebrei copos, rasguei cortinas, fugi do amor. eu não faço ideia do que seja o amor, me armei até os fios de cabelo, antecipei dores – eu entendo o teu desespero. nem assim fiquei imune: amei tão veementemente no pouco que arrisquei – você não acha? honestamente, eu já não sei disso que hoje não é mais sequer uma questão – veja lá um desentendimento ou uma desvantagem – longe demais de ser um martírio. é isto apenas: os meses correram para o fim do rio. um grande bater de braços sem volta, um nado sem propósito. o fim do rio é tão imenso, luís...

 

mas não há o que reclamar, a vida é feita de pele e ossos. a mancha roxa de ontem desapareceu. os dias estão acontecendo e... veja: o coágulo de sangue na ponta da orelha se desfez! que lugar o abrigou desde então, não é mais algo que caiba entre as pausas que tua boca abriga quando a língua vibra pronunciando a palavra “saber”. tem coisa que não é de saber, é de pairar, de não tentar, é só mistério, mariana.

 

além do mais, passou, meu bem. não foi? hoje eu só quero tirar teu cabelo de meus olhos – não aguento mais sonhar com o céu de tua boca e sentir a textura exata que têm, as tuas digitais deixadas sobre pontos específicos de minha barriga. você dizia que o macarrão estava pronto, do jeito que eu gosto, com manjericão e tudo. você dizia que o dia ia ser bom e eu chorava tanto vendo filme na televisão, augusta...

 

eu fui feliz naquela época – aquele tempo que não vem embora, que não quer voltar, que escorreu na curva de meu queixo quando, distraidamente, lavei o rosto; tempo que desembocou na linha de outros rostos, os desgastados. aquele tempo de não observar os dias partiu, rumou à outra beira do país, lambeu o bico de meus seios e foi rompendo pelas margens da ideia de controle – desatinou demais o meu juízo. agora quem vai sentir que ainda tem gosto de sangue em minha boca? não deixei de rasgar a pele dos dedos nos cantos das unhas nem parei de roer compulsivamente a finura do tecido interno de minhas bochechas; quem vai dizer que dói se meus olhos estão assim tão compassivos? cadê tu, maristela? por que não anda mais aqui?  cadê? cadê? aparece que eu te espero, sem grande pressa – amor que vem a galope com cheiro de hortelã nos dentes.

 

 

Taise Dourado é natural de Irecê, Bahia, Brasil. Escritora, artista visual e colaboradora na PANTIM Coletivo & Edições. Informações: www.taiseilustra.com.br | www.pantim.art.br | taisedrd@gmail.com

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2018


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Paginação:

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